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terça-feira, 31 de maio de 2011

Fi-lo porque qui-lo

A vida me levou para longe do blog, nas últimas semanas e, como eu não brigo com a vida, somente agora estou de volta. Porque ela me desvia do caminho reto para estradas com curvas impensáveis. Nessas curvas me exercito e aprendo. Quando terminam e à minha frente se desdobra, novamente, a planura, retomo o caminho antigo. Como escrever estas crônicas.

Nesta, vou tratar de uma questão aparentemente acadêmica, mas que é, na verdade, uma carga de profundidade: estas são semelhantes a um extintor de incêndio, mas têm o poder de fazer o mar vomitar – entre outras coisas, submarinos.

Trata-se do debate em torno do falar “certo” ou falar “errado”, levantado em torno de um livro didático distribuído pelo MEC.

Eu li o trecho polêmico, não li todo o livro. Li e assisti, também, algumas entrevistas e artigos variados sobre o assunto. Desconfio que o tema foi para a pauta por conta de competição comercial (dá para imaginar a quantidade de dinheiro empregado na feitura e distribuição desses livros) e, por isso, o debate se iniciou sem uma seriedade básica. Mesmo assim, quaisquer que fossem as intenções iniciais, ele ganhou corpo e consistência, porque é importante.

Quem fala o português que está na gramática? A pergunta é do professor Ataliba Castilho, um linguista e gramático pouco conhecido do grande público mas que é considerado um dos astros na praia da língua portuguesa. E ele responde: ninguém!

O professor Ataliba escreveu uma gramática de português brasileiro com uma parte dedicada à norma culta, isto é, à língua portuguesa padrão, e outra dedicada ao português vulgar. Sabe, pois, do que está falando.

Pois é: para ele só fala errado quem não se faz entender. Tipo assim:

Seu Eduardo, que me ajuda com as plantas, chega comigo e diz: “Tem que aparar o bugarim”. Eu dou um pulo: “Não mexa no meu jasmim bugarim!”. Ele argumenta: “Mas está grande demais, daqui a pouco ele quebra!” E eu: “Como que está grande! Não chega na altura do muro!” Ele me olha espantado e aponta... o buganvile. Que está imenso e realmente precisa de poda. Puxo-lhe as orelhas: “É o buganvile, seu Eduardo, bu-gan-vi-le”.

Ele não se fez entender. Portanto, falou errado.

Mas quando o seu Eduardo chega comigo e diz que a “esquadrilha da porta está bichada” eu sei perfeitamente que ele está falando da esquadria com cupins. Não faz a menor diferença ele falar esquadrilha bichada. Ele fez-se entender; não falou errado.

Quem falou errado fui eu ao dizer-lhe que cuidasse do vírus da gripe. A reação foi um espanto coroado por um sorrisinho que expressava: “Pirou!” E os próximos dez minutos foram para explicar que ele é quem tinha que se cuidar, o que é um vírus e o risco de pneumonia. De tudo ficou-lhe a idéia de uma entidade do mal (o vírus) capaz de estourar o peito de um homem (a pneumonia). Não consegui falar certo com ele.

Jânio Quadros, rigoroso guardião do vernáculo padrão, não escapou de provocar gargalhadas nacionais ao falar no máximo rigor gramatical, como: “Bebo-o porque é líquido, se fosse sólido, comê-lo-ia”. Tanto que até hoje lhe é atribuída uma frase que nunca disse: “Fi-lo porque qui-lo”. A frase é de um jornalista que a usou como ironia ao estilo de Jânio – ironia porque, gramaticalmente, ela está errada. Virou palavra na boca de Jânio e símbolo, até hoje, de pedantismo que beira o ridículo.

Mas será que existe alguma correlação entre a ferocidade com que Jânio usava e exigia o uso do português padrão e a discussão de hoje sobre “falar certo” ou “falar errado”? Lógico que sim.

A explicação mais evidente está em “My fair lady”, o filme. Quando a elegantíssima garota começa a conversar, no camarote do hipódromo, cria um violento contraste entre sua figura e sua fala. A figura se desmonta diante do discurso: todos percebem imediatamente a fraude. Ela falava errado, ali – embora falasse certo no mercado de onde vinha. Ou seja: os espaços sociais são, muitas vezes, demarcados pela forma como se usa a língua materna. Uma pessoa fantasiada de vendedora de flores que falasse a língua padrão no mercado provocaria o mesmo choque que tiveram os convivas do sofisticado camarote do hipódromo. Elas perceberiam a fraude rapidamente.

A elite (que não é constituída pelos ricos, mas dos que a sociedade reconhece como os melhores entre todos, diga-se de passagem) demarca seu espaço com a língua padrão. O vocabulário é mais amplo e a sintaxe mais elaborada. Está mais perto da gramática que qualquer outra categoria social até porque assuntos complexos demandam maior conhecimento gramatical. É impossível, por exemplo, fazer-se entender em assunto científico com preposições usadas erradamente. Ou em assuntos financeiros, sem as condicionais corretas.

O grito: “Estão ensinando português errado nas escolas” que sintetiza a denúncia feita e a discussão que seguiu pode ser interpretado de duas maneiras: uma, a elite pressente uma ameaça na demarcação do espaço social; outra: há uma tentativa de impedir que os escolares da rede pública cheguem à elite.

Jânio, que não nascera em grupo de elite, usava a língua padrão para enfrentá-la. “Respeitem-me, falo melhor que vocês” – era o recado que mandava com os seus pronomes oblíquos postos na linguagem corrente.

A questão gira, pois, em torno da elite e é por isso que é tão importante. O rumo que toma a elite é o rumo que toma um povo inteiro. Durante grande parte da história da humanidade ela foi constituída principalmente por guerreiros e religiosos; hoje ela se tornou muito mais complexa, reunindo gente que lida com dinheiro, política, ciência e tecnologia, armamentos, informação e comunicação, religião e filantropia. Todas essas pessoas precisam ter o domínio da língua padrão: assim, esta não pode ser um caos, tem que ser ancorada na gramática e no dicionário. E cabe à escola ensinar isso.

Eu diria que o saldo do debate envolveu a reafirmação do ensino da língua padrão na escola; um avanço na compreensão de que o discurso deve estar adequado aos ouvintes; um reconhecimento do vigor e da riqueza do português vulgar; e, em âmbito universitário, o sentimento de que é preciso conhecer e sistematizar esta outra face da língua nativa, aquela falada na intimidade das casas e nas ruas.

Quanto ao livro questionado, a denúncia mostrou-se falsa: o professor defende o ensino da norma padrão – apenas colocou mal as coisas. Ou seja, falou errado.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

O gesto essencial

No “Viver para contar”, memórias de Gabriel García Marquez, conta ele que, em meio à luta incessante contra a miséria, o pai ausente, sua mãe decidiu um dia que ele voltaria à escola. Mas ele não tinha os papéis necessários, e, no dia aprazado, compareceu aos exames de admissão só com a cara e a coragem. Já fora dispensado quando o diretor da escola decidiu examiná-lo assim mesmo e, literalmente, o descobriu.

Foi assim que Gabriel pôde prosseguir seu longo e rude aprendizado para tornar-se o escritor de hoje. Graças a um gesto essencial, em que o educador ultrapassou os limites burocráticos para exercer plenamente a sua tarefa, soube ver, soube compreender e soube fazer o que devia.

Deve ter tido dor-de-cabeça para manter o aluno matriculado, esse diretor sem nenhum outro futuro senão reger uma escola provinciana e pobre. Mas seu gesto garantiu para o mundo o maravilhoso “Amor Nos Tempos do Cólera”, que viria muito tempo depois, possivelmente depois de sua morte. Pois foi este professor que, além de matricular o aluno, o apresentou a Cervantes e ao cavaleiro da triste figura, replicada no rosto feio e na paixão quase impossível do herói do romance.

Chego aqui a uma encruzilhada nesta crônica. Tenho vontade de prosseguir nestes gestos essenciais, derivados diretamente da vocação ou da consciência, sem nenhuma outra compensação que satisfação íntima - de fazer uma boa coisa - que trazem consigo, mas que, na sua singeleza e simplicidade, têm conseqüências extraordinárias. A razão e Jacques Monod (“O Acaso e a Necessidade”), me advertem que essa é uma idéia romântica - mas o romantismo não é parte essencial do prazer de viver? Por isso deixo-me embalar um instante na idéia de Gabriel não seria o que é sem este gesto; e que todos perderíamos um quinhão de beleza se ele não tivesse sido admitido naquele ano e naquela escola.

Mas há um outro caminho para a crônica, e por ele sigo. Trata-se do educador, do professor que vai além do ensino e, sobretudo, de sua burocracia. Daquele que é capaz de vencer as horas do discurso em sala de aula, das provas para passar e corrigir, e consegue ver seus alunos como pessoas que precisam de algo mais que informação consolidada e transmitida. São eles que conseguem ver o verdadeiro talento, distinguir o diligente, disciplinado e estudioso aluno daquele que traz consigo o selo da diferença – e oferecer, para ambos, a oportunidade de crescer.

De quantos educadores disporemos hoje, nessa selva de escolas em regime de massa, em que o importante é despejar na sociedade pessoas mais ou menos instruídas? Um reitor me disse uma vez que o professor, hoje, trabalha acuado, entre o paredão dos alunos que fazem o que querem, e a pressão da produção que o empurra para liquidar rapidamente programas e provas. A escola se reduziu ao ensino – mas quero crer que ainda haja que apresente Cervantes – ou Manuel Bandeira, ou Malba Tahan, ou até Asimov e Jacques Monod - a um garoto de quarto ano que tem por detrás dos olhos a fogueira que pede a lenha do conhecimento.

Quantos, quantos serão capazes deste gesto essencial?

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Ruínas contemporâneas

Nos anos 60, fascinada com os milagres científicos cotidianos, olhava o livro de matemática e sonhava com o aprendizado instantâneo: uma simples fita passada na cabeça, como quis Huxley, ou gravações suaves durante o sono, como descreveu Asimov. Diante dos procedimentos cirúrgicos, sonhava com o dia em que um simples comando sobre o cerebelo faria o organismo expulsar vírus invasores e liquidar bactérias. Acreditávamos, como Orwell, que seria rápido. Mas 1984 chegou e passou, e o século da ciência foi também o século das guerras.

E, aos poucos, o século XXI se desenha em angústia. O volume de informações disponível é um despenhadeiro de conflitos, uma babel de afirmações. Cuidar da saúde tornou-se uma questão econômica, e o que faz bem, e o que faz mal, assuntos de mercado. Saber tornou-se um dilema: o que? os currículos escolares refletem essa desordem, e os exames de avaliação mostram-se de uma ineficácia cruel.

Mas o século XXI também se desenha em sistemas. As estruturas institucionais clássicas, verticais, piramidais, em forma de espirais ascendentes, estão dando lugar a nós e redes. É fácil visualizar isso numa grande empresa de capital aberto: ninguém tem mais que 2% das ações, e os executivos são empregados de uma multidão. Não são mais o chefe, o boss: são nós de uma teia, cujas regras não lhes permitem hesitações. Pode até haver um centro, mas é um círculo de nós em torno do vazio.

E, como sempre, é do ilegal e do irregular que vem a resposta mais rápida. Hoje, a máfia é assunto nostálgico. A flexibilidade da associação criminosa há muito deixou para trás compromissos e fidelidades: juntam-se três, cometem um crime, e adeus. Qualquer um, em qualquer lugar. A estrutura rígida das instituições verticais, grandes, pesadas, hierarquicamente compostas, vai sendo erodida aos poucos.

Escola são instituições assim. Elas estão ultrapassadas e defasadas. É certo que deve haver um lugar onde deixar as crianças e os adolescentes enquanto os pais contribuem para a produção mundial, mas clássica estrutura escolar está obsoleta. Primeiro, porque é impossível para um professor competir com o mundo de informações disponível na rede de computadores; segundo, porque a hierarquia escolar colide frontalmente com a flexibilidade das relações sociais atual; terceiro, porque a sala de aula tornou-se limitante.

Por exemplo: olho Vênus brilhando no céu e aponto para um menino de cinco anos: “Olha que estrela bonita!” E ele me corrige imediatamente: “Não é uma estrela, é um planeta refletindo a luz do sol.” Nossa conversa, a seguir, foi a que, na década de 80, eu teria com um adolescente: o primeiro ser vivo que foi ao espaço, o primeiro astronauta, o vácuo e as montanhas da lua.

E na escola ele só brinca, desenha e “desenvolve a sociabilidade”...

Escolas são instituições conservadoras por sua própria natureza. Mas as escolas atuais estão sendo esmagadas, erodidas e destruídas. E mesmo os conservadores têm que saber o que conservar e o que descartar. Sob pena de se enterrarem em ruínas, causadas não mais por guerras e bombardeios mas pela simples transformação social.