Na ante-sala de um consultório médico, aproveito o tempo de espera e leio seis páginas-resumo de uma pesquisa que constatou que uma boa coisa para prevenir depressão é – vejam só! - bons irmãos.
Uma fraternidade saudável na infância, dizem os pesquisadores, mostrou ser um antídoto eficaz para a depressão aos 40, 50 anos. O curioso é que o relacionamento com os pais não interfere: seja bom, seja ruim, o resultado é o mesmo. Os irmãos, entretanto, são decisivos. A existência de bons irmãos reduz o risco para os que têm propensão genética, e mais ainda para quem não tem.
Não pude deixar de pensar nos bilhões de filhos únicos dos países asiáticos, e nos milhões de filhos únicos dos países europeus. Suas perdas, pelo jeito, são maiores do que a simples convivência e partilha a que a fraternidade obriga. Também pensei que talvez as altas taxas de suicídios nos países asiáticas podem ter algo a ver com a falta de irmãos – de bons irmãos – na infância.
Mais tarde, imaginei que bons irmãos na infância quase sempre assim permanecem na vida adulta, e talvez a pesquisa tenha se esquecido desse detalhe: um apoiará o outro aos quarenta anos, se brincou junto aos seis e foi cúmplice aos quinze. Haverá com quem conversar, as possibilidades de solidão desesperada serão menores, porque o bom irmão será capaz de arrombar a porta fechada do sofrimento do outro, e socorrer.
E isto me lembra outra história. A de um bom filho, que um dia aprendera a fazer malabarismos com um cordão passado entre os dedos. Seu pai se trancara no quarto, silencioso, hostil, sem receber ou atender ninguém, dias seguidos, semanas, entreabrindo a porta apenas para receber alimento e água. O filho aproveitou um momento de porta entreaberta e passou a mão para dentro do quarto, fazendo malabarismos com os dedos e o cordel, surpreendendo o pai que, depois de alguns minutos, finalmente abriu a porta para o filho e para uma nova vida.
Irmãos também são capazes disto e de muito mais. Principalmente de proporcionar a certeza de que o amor é entre iguais. A admiração de um pai ou de uma mãe pelo bem-feito do filho é viciada pelo afeto intrínseco. A de um irmão vale mais, porque é entre pares: ela passa pelo crivo da crítica, e a ultrapassa. “Não é por ser meu irmão, mas...” Esta expressão, tão comum, resume a essência da fraternidade.
Essa fraternidade, filhos únicos poderão encontrar talvez em outros filhos únicos, amigos de infância que prosseguem na vida adulta. A pesquisa não examinou essa hipótese, e, possivelmente não será a mesma coisa: faltou partilhar o mais importante, que é o amor dos pais, e esta perda, ninguém recupera nunca.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2007
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