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domingo, 25 de janeiro de 2015

O mundo dos ciborgues


Eric Schimidt, diretor executivo do Google, previu na semana passada que a internet, na forma como a conhecemos hoje, vai dar lugar a redes interativas tão integradas aos objetos de uso comum que as pessoas vão deixar de percebê-la. Ou seja: você manda, a geladeira obedece. Pode ser a cadeira, também, ou sua própria roupa. Você poderá ter o mundo na palma da mão, literalmente: projeções holográficas disponibilizam em seu corpo o planeta, ou as pessoas do planeta.

Mas você não poderá agarrar o tempo que flui pelos vãos dos dedos e responder assim à pergunta do poeta Cassiano Ricardo. E este é o dilema, o problema, o xis da questão: integrado num sistema superveloz, é impossível refletir. O Homo Zapiens não pensa, apenas reage.

Esse termo, Homo Zapiens, foi universalizado, a partir de 1999, por meio de um romance do escritor russo Victor Pelevin (que talvez o tenha criado), como informa a Wikipedia. De lá para cá, vários estudos acadêmicos foram publicados em torno dessa nova condição humana, que consiste na hiperinformação e na supervelocidade.

Se não há tempo para pensar ou refletir antes da resposta, se ela deve ser dada em segundos – como fazem os atletas ou os comandos militares de elite – ela será, necessariamente, um reflexo. Ela estará integrada ao corpo da pessoa, resultado de treinamentos exaustivos, no caso dos atletas e dos comandos, mas, no caso das redes informatizadas, decorrente do próprio uso continuado.

Tenho claro que a maioria das pessoas não gosta de pensar, de tomar decisões por seu arbítrio, prefere um manual – seja para comer, seja para rezar, seja para estar em sociedade, seja para prestar exames de vestibular (a quantidade de zeros na redação é um indicador claro disso). Não será problema reduzir-se a um ciborgue, que são aqueles seres da mitologia moderna, metade pessoa, metade máquina. Mas esta condição tem seu preço.

A primeira conta é a total impossibilidade do isolamento. A segunda é o risco de todo manual: o erro que, no caso, conduzirá a desastres. A terceira é o aumento brutal dos controles sobre as pessoas: se você é parte de um sistema, está integrado nele, você não pode escapar de suas regras, por mais contestador que seja. E a quarta é a antevisão de Huxley: a inteligência, indispensável para o desenvolvimento humano, em ilhas, desdobrando os controles, corrigindo o manual, para que todos sejam drogados felizes.

Estamos muito longe disso? Talvez, mas há muito tempo já as pessoas se vestem da mesma maneira, mergulhadas num anonimato angustiante, e, progressivamente, penduram-se cada vez mais nas redes. Cada vez menos fazem coisas com as próprias mãos ou pensam pelas próprias cabeças. Um dia destes atendi o telefone e era uma ligação de telemarketing. Diferente do usual, uma voz eletrônica me disse: Esta/ ligação/ é para / o senhor / Marcos. / Se você/ é a pessoa indicada / tecle 1. /Se você / conhece a pessoa indicada/ tecle 2... e assim por diante. Desliguei o telefone, naturalmente, com uma sensação de raiva e choque. Raiva pelo menosprezo demonstrado pelo uso da voz eletrônica; choque porque não imaginava que, nesta remota província do império brasileiro já se pudesse ser objeto de uma intervenção dessas. Depois pensei que o mundo globalizado não aceita mais a condição de “remota província”, porque a geografia virtual é diferente da física. E que estamos nos tornando ciborgues e nem percebemos isso.


domingo, 2 de novembro de 2014

Me esqueça!


Circula no Judiciário uma boa quantidade de processos movidos por pessoas que querem tirar dos sites de busca informações sobre si. Geralmente deslizes, devida ou indevidamente gravados; ataques pessoais; críticas e até calúnias. Alguns têm obtido medidas favoráveis. Mas elas são puro paliativo.

Porque as pessoas não esquecem. Esquecer é morrer: a humanidade é o que é porque tem memória, aprende e transmite, mantém um processo contínuo de acumulação de experiência que lhe permite a sobrevivência e a vida cada vez mais longa.

Na Roma dos imperadores havia uma disposição chamada damnatio memoriae, a condenação da lembrança, aplicada a todos os que eram considerados supercriminosos. Depois de sua morte, geralmente por execução, apagava-se tudo o que se referia a eles: raspavam-se moedas, quebravam-se estátuas, repintavam-se os quadros, riscava-se o nome dos documentos, fossem estes de papiro, de pedra ou de bronze. Mas controlar a memória é impossível: a imperatriz Messalina, sobre quem foi aplicada a condenação, é ainda, dois mil anos após sua morte em 47, o símbolo da sexualidade descontrolada. Três bustos feitos em pedaços e recompostos por diligentes arqueólogos restauram seu rosto, com razoável grau de certeza. O esquecimento póstumo talvez fosse até benéfico para ela e imagino que, se essa adolescente mãe de dois filhos tivesse vivido mais duas décadas, tentaria apagar o seu passado. Se vivesse hoje, tentaria tirar da internet no mínimo a encenação de casamento que foi a causa próxima de sua morte.

Trago este assunto hoje porque volta à discussão e às pautas de noticiário mais uma tentativa de controle dos conteúdos da internet, uma nova roupagem para a antiquíssima luta entre a liberdade de expressão e a censura, ou, como querem os mais moderados, entre o dizer e seus limites. Não adianta. A China fez isso e gradativamente está perdendo a batalha.

O boato, que circulava ao pé do ouvido, hoje trafega em alta velocidade pelo whatsapp. Continua sendo um boato, com as consequências de qualquer boato, que podem ser resumidas em dois ditados: “onde tem fumaça tem fogo” e “em tempo de guerra boato é fato”. Claro que a fumaça pode ser de gelo seco, não de fogo; e que a maioria dos boatos não se torna fato, sequer cria fatos novos. Mas em tempo de guerra, com a censura atuando a pleno, boato é fato, mesmo: quando ninguém sabe com certeza do que está acontecendo, é melhor se prevenir...

Há pessoas que, despreocupadas como o foi Messalina, revelam-se completamente para os usuários dos canais de comunicação. Nudez de corpo e nudez de alma. Muitas delas estão na justiça, agora, tentando conseguir para si o esquecimento que os imperadores romanos impunham aos que consideravam de exemplo danoso ao império. Melhor fariam se fossem contidos em seus atos e dizeres. O Estado não é instância adequada para proteger imprudentes: basta um pezinho para ele, e ele ocupa o corpo inteiro, ou seja, um simples precedente é suficiente para instaurar censura. E a censura é o mal maior.

Quanto à calúnia, existem medidas legais contra ela desde que sistemas jurídicos foram instituídos. Mas na raiz da calúnia está a maledicência e esta nada nem ninguém seguram: acredito que os hominídeos já grunhiam condenações entre si e processos do que hoje se chama “desconstrução de imagem”, eufemismo para a maledicência objetivamente aplicada, que desdobra falhas alheias até o ponto do insuportável, induzindo a calúnia, podem ser encontrados na Bíblia, entre outras memórias humanas.


O curioso disso tudo é que a maioria das pessoas é esquecida sumariamente duas gerações após sua morte. Pedir para ser esquecido antes de morrer apenas antecipa o que fatalmente acontecerá – e dos atos e dizeres praticados restará apenas o que a humanidade julgar necessário para seu aprendizado.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Na rede

Na rede

Pois é, agora saiu.
Ainda não é exatamente um blog, mas está no caminho, que vai ser um pouco demorado, porque, explica-me o Osmar Arouck, trata-se de tecnologia ainda em construção, como tudo na rede.
E fui convencida a sair do reduto do e-mail para a página pública através de uma série de argumentos que envolvem deste proteção anti-spam e anti-deturpações até etiqueta (no sentido de boas práticas) no uso da correspondência eletrônica.
Em alguns dias, aprendi que você estará quebrando a privacidade de terceiros se mandar listas de endereço encabeçando o seu e-mail, o que praticamente inviabiliza o uso de grupos de distribuição de correspondente; descobri que há programas baratinhos que fazem o serviço de distribuição com o sigilo necessário; compreendi que não há como evitar o tititi na rede, e que é necessário ter um local onde alguém possa checar se o que recebeu assinado por alguém é mesmo desse alguém, ou é o que esse alguém escreveu; além disso, no espaço público da rede, globalizado, a legislação nacional alcança apenas um trecho, e o restante está sob outros governos.
Vai daí que me instalei neste blog, para onde será possível enviar comentários, críticas e sugestões, e que pretendo desenvolver, aos poucos, buscando participar da construção desta linguagem, nesta maravilhosa infinidade de páginas e temas.
Nem tudo o que cai na rede é peixe, e jamais o criador desta expressão, tão antiga que se perde na memória da cultura brasileira, imaginou que se aplicaria tão bem ao espaço virtual. Ao procurar alguma indicação para limpeza de aço inoxidável, encontro coisas tão contraditórias que saio da rede como entrei, ou seja, cheia de perguntas. Isto vale também para a correspondência eletrônica; e sequer se sabe se o nome da pessoa é verdadeiro ou não.
Será que se constrói um mundo onde o quem será menos importante que o que?
Mesmo o que é duvidoso. Um dia destes cai sob meus olhos um trabalho escolar, universitário. O sujeito tinha feito uma busca na rede, com uma só palavra; o que veio, colou numa folha em branco, imprimiu e apresentou. Ele falava de psiquiatria numa prova de direito! Fui saber, de professores, que isso é mais que comum, e que muitos trabalhos são apresentados em duplos e triplos, sem qualquer contato entre os alunos...
Bem, isto é a velha cola escolar, agora literalmente executada com os recursos da informática. E o aluno relapso faz a pergunta cretina: “Porque estudar, se o que eu preciso está ali, ao alcance de um dedo?”
Mas mesmo para que o dedo alcance o necessário é preciso saber procurar, e talvez isso a rede traga de bom: as pessoas vão reaprender a perguntar, mesmo que seja na forma de palavras soltas ou somadas, sem nexo claro entre elas. Já podem perguntar mais do que toda a geração dos anos 60, perguntadeira por excelência, conseguiu fazer. E têm mais respostas do que necessitam.
Essas respostas abrem novos caminhos para o conhecimento, e reduzem as torres: tanto a de Babel como a de marfim, gradativamente perdem importância, porque não é mais necessário alcançar o céu provar que a humanidade alcançou outro patamar.
Até à próxima.