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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sons antigos

O carro-som da paróquia passa convocando para uma manifestação dominical pela paz. O locutor pede que levem bandeiras brancas e faixas.

Clérigos e religiosos têm promovido essas passeatas/procissões por toda a cidade, nos últimos tempos, nesta Belém que a droga está banhando de sangue. Em alguns bairros, como na Terra Firme, crenças diversas se misturam no branco, o espectro de todas as cores: pedem paz, paz, paz.

É uma prática antiga: diante do inimigo poderoso – seja ele a fome, a peste ou a guerra – reza-se coletivamente. Cortejos e procissões ocorrem da picada no mato ao asfalto, passando pelas ruas pavimentadas de todos os tempos.

O som é antigo, pois. Mas hoje, o inimigo não está nas portas da cidade nem do país, não há epidemia mortal nem fome. A paz que se pede é entre nós mesmos.

Seremos nós nossos próprios inimigos? Onde está o brasileiro cordial, que durante tanto tempo foi apresentado ao mundo? Ou esse brasileiro nunca existiu, era uma ilusão dourada que agora se desfez? E por acaso – estamos em guerra?

Não, não estamos em guerra.

No entanto as pessoas sentem necessidade de ir às ruas para rezar em procissões pedindo paz – como se estivéssemos em guerra.

As mortes violentas incham as estatísticas – como se estivéssemos em guerra.

Mas admitir um estado de guerra é reconhecer a existência de duas populações inimigas uma da outra. É reconhecer a existência de uma trincheira, de uma divisão. É dar como verdadeiro que os dois lados estão irreconciliáveis, que não há negociação possível, nem concessões a serem feitas.

Mas não há esses dois lados, nem essa trincheira – pelo menos, não de forma facilmente identificável. A violência permeia todos os espaços, físicos ou sociais: a sala de aula, o clube, a rua, o recesso doméstico, a repartição pública, a loja, o banco, a família, os grupos que tentam se divertir ou trabalhar em qualquer lugar.

O cidadão se vê tão impotente como quando tinha exércitos nas portas da cidade, ou quando a peste varria o interior dessas mesmas cidades: as instituições sociais incumbidas da defesa de todos e cada um estão como que naufragadas.

E eu acabo de ler os “princípios e diretrizes” votados na Conferência Nacional de Segurança Pública. Também são sons antigos.As propostas mais votadas são as reivindicações corporativas: mais salários, mais vantagens, mais privilégios. E o restante pode ser resumido numa única frase, confeitada de lindas palavras: que não se mude nada.

É melhor, mesmo, ir às procissões. Pelo menos estes sons antigos têm a harmonizá-los a majestade dos séculos.