Vejo um vídeo de dez minutos de Jose Tomas e leio furiosas declarações de direitos dos animais. Leio um artigo de David Rostchild defendendo a arte em marfins e cascos de tartaruga, e mais furiosas declarações de direitos dos animais. Vejo um vídeo de propaganda de um país nórdico, contra a violência doméstica, que termina com a afirmação de que algumas crianças gostariam que seus pais fossem animais.
Sou informada que as touradas vão acabar em Barcelona: a cidade, redesenhada, está sendo esterelizada, também. Nada de sangue e areia primitivos, entre as torres do século XXI! E que quase a metade dos espanhóis não está nem aí para as touradas. Sou informada, também, que ilhéus do pacífico sul continuam a fazer um tosco artesanato com cascos de tartaruga que – juram eles para as instituições que os ajudam - coletam, pacientemente.
Há muito o marfim e o casco de tartaruga foram substituídos por materiais melhores e mais resistentes, tanto para o uso doméstico como para o artesanato de luxo. Resta um pequeno espaço de colecionadores e joalherias de alto luxo. O mundo mudou, vai continuar mudando, mas algumas coisas permanecem: entre a necessidade humana e as necessidades dos outros seres, a prioridade é sempre humana.
Por exemplo, a batalha em favor dos leopardos das neves. (Encontrei-os na web quando procurava guardanapos, acreditem!). Pacientemente, uma ONG trabalha em três países, com alternativas de renda em comunidades muito pobres (aí é que entram os guardanapos: na Ucrânia) para que elas deixem os leopardos em paz. Mas se um leopardo ataca o curral dos carneiros de uma família, não há o que fazer. Até os ambientalistas mais radicais concordam com sua morte. Mesmo sabendo que eles são muito mais raros que os elefantes portadores de marfim.
A tourada, no entanto, é um pouco diferente disso. O elo de ligação com tartarugas, elefantes e leopardos das neves é o respeito à vida de vertebrados não humanos (sim, porque para invertebrados, a atenção positiva se limita à utilidade deles; no mais, é política inseticida, mesmo). Desconfio que o que torna as pessoas tão passionais quando falam de touradas é menos o sofrimento do touro do que a exposição, de forma crua, do quão podemos ser letais. E, talvez, da própria morte, assim, de cara, com cheiro de sangue e tudo.
Jose Tomas consegue chegar à essência da tourada, que é a afirmação de poder humano: o racional perante o irracional, a calma diante fúria, a lâmina construída contra o chifre, a coragem do pequeno diante do grande, a elegância sobre o desajeito – e a individualidade.
É primitivo, naturalmente, e incomoda por isso: nossa civilização já conseguiu fazer com que a maioria finja ignorar que a sua sobrevivência depende da morte de outros seres. E a morte ritual de um touro nos joga na cara: nós somos assim.
Não sei se Barcelona ficará melhor ou pior sem as touradas; o que sei é que Jose Tomas é um emblema, e, parafraseando Rostchild, não há sentido em renegar nosso lado negro.
Mostrando postagens com marcador vida animal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vida animal. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)