Caiu mais um avião em São Paulo.
Desta vez não foi um jatão, foi um jatinho.
Não foram cem mortos – mas foi-se uma família inteira, cujo chefe brincava sossegadamente com o neto presumindo-se seguro em seu lar.
Como Congonhas, o Campo de Marte fica entre duas esquinas de Sampa.
Sobreviveu uma adolescente, doente mental, agora totalmente órfã. O que será dela?
Com horrorosas queimaduras no corpo, sofrerá sem saber porque durante meses a fio.
Sofrerá depois sem saber porque, durante anos a fio, sua solidão sobrevivente.
Uma bola de fogo, caída do céu, levou todos os seus.
Caída? Não, enviada pelos irresponsáveis que controlam o tráfego aéreo no Brasil.
Dirigida para ali pela presteza burocrática em atender os interesses do bezerro de ouro.
Enviada, postada para esse endereço pela inércia burocrática em atender os interesses da maioria.
Caiu mais um avião em São Paulo.
E nem se fala mais nos problemas de Congonhas, quem se lembra disso?
E nem de pilotos tensos diante dos temporais numa pista traiçoeira – eles ganham para isso, não é mesmo?
E nem do bebê que morreu antes de nascer, no inferno criado pela colisão do airbus, e do bebê de nove meses que morreu desta vez, no colo do avô, queimado vivo.
Afinal, a quem interessa a vida desses bebês?
Os jatinhos das autoridades, indo e vindo do Campo de Marte, é que não podem parar. Custe o que custar em vidas de avôs, mães e bebês.
Afinal, como é que uma autoridade vai encarar uma hora de engarrafamento paulistano, se tiver que descer do avião em outro local? Isso é para a plebe ignara, não para quem já deixou de ser povo. A plebe rude pode morrer, mas a autoridade não pode perder tempo.
E São Paulo, que agora devora suas entranhas vítima do próprio gigantismo, não pode parar de crescer.
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007
quarta-feira, 18 de julho de 2007
A crise aérea
É mesmo uma crise? Ou é apenas a revelação de uma situação que vem amadurecendo há cinco anos, mercê das opções populistas de governo?
Doze horas depois do acidente um jornalista afirmava que se priorizara a reforma da estação dos passageiros em detrimento da revisão da pista de Congonhas. Afirmou-se muita coisa, nessas horas dramáticas em que o Brasil viu de perto um avião dentro de um prédio. A TAM afirmava continuamente preceitos legais para disfarçar o que é comum nas empresas aéreas: elas jamais sabem direito quem embarcou e quem ficou – o que, aliás, é um pedacinho apenas do tratamento-padrão dado aos passageiros.
Pergunte a algum passageiro idoso se alguma vez, só uma vez, alguém da tripulação pegou a valise de mão para acomodar nos depósitos superiores aos bancos. Pergunte aos médicos que viajam habitualmente se alguma vez alguém passou mal e havia, a bordo, medicamento disponível. Pergunte a qualquer passageiro se alguma vez ouviu um pedido de desculpas a bordo de um avião.
São coisas comuns: o desrespeito aos lugares marcados antecipadamente – você pede corredor e, quando vê, está no sanduíche, sem nenhuma explicação; saber que o vôo foi cancelado apenas quando chega no aeroporto; passar horas de espera sem nenhuma informação de quanto aquela espera vai durar – e, muito menos, ser atendido com água ou lanche.
Não é de hoje: lembro que há muitos anos (o presidente da República era Sarney) fiquei retida no aeroporto de Brasília por mais de quatro horas. Sem explicações e com muita raiva, fui ao DAC reclamar, e, comigo, metade dos passageiros criou coragem. Preenchi um formulário. A resposta veio: seis meses depois, o DAC me informava que “estavam sendo tomadas providências” sobre a reclamação. Guardo esse ofício até hoje, para não me esquecer nunca mais que reclamar de empresa aérea para órgão oficial é o mesmo que nada. E não dá nem para desabafar, porque o formulário não deixa...
Um dia desses, em pleno apagão aéreo, um comandante engraçadinho disse, no vôo em que eu viajava: “Ironicamente, este vôo está no horário.” Nós, os passageiros otários, deveríamos ter talvez passado algumas horas de espera, para satisfazê-lo.
A decadência do tráfego aéreo nacional mantém-se com os equívocos da Presidência da República (melhor distribuir bolsas e garantir votos que dotar de segurança os vôos); com a irresponsabilidade sindical dos controladores de vôo (eu quero o meu, e o resto que se dane); com a inércia de quem deve fiscalizar tudo isso (o todo-poderoso Ministério Público não move uma palha, e o Executivo é conivente); com a voracidade das companhias aéreas, pressionando os custos ao ponto de ruptura dos serviços (check-ins em horários limitados, contenção de pessoal, programas limitados de treinamento e atualização, bagunça nas reservas); com a parcialidade dos políticos (desde que eles sejam bem tratados, não se queixam, eles que viajam sem parar – às vezes até tiram gente do avião); e com a passividade dos viajantes.
Cem mortos, duzentos mortos de uma vez? Parece ser pouco para os interessados, a julgar pela ausência de providências objetivas. O presidente cria um gabinete de crise, espelhando bem seu ponto de vista: trata-se de um tropeço político, e assim será tratado. Depois, Deus dará.
Doze horas depois do acidente um jornalista afirmava que se priorizara a reforma da estação dos passageiros em detrimento da revisão da pista de Congonhas. Afirmou-se muita coisa, nessas horas dramáticas em que o Brasil viu de perto um avião dentro de um prédio. A TAM afirmava continuamente preceitos legais para disfarçar o que é comum nas empresas aéreas: elas jamais sabem direito quem embarcou e quem ficou – o que, aliás, é um pedacinho apenas do tratamento-padrão dado aos passageiros.
Pergunte a algum passageiro idoso se alguma vez, só uma vez, alguém da tripulação pegou a valise de mão para acomodar nos depósitos superiores aos bancos. Pergunte aos médicos que viajam habitualmente se alguma vez alguém passou mal e havia, a bordo, medicamento disponível. Pergunte a qualquer passageiro se alguma vez ouviu um pedido de desculpas a bordo de um avião.
São coisas comuns: o desrespeito aos lugares marcados antecipadamente – você pede corredor e, quando vê, está no sanduíche, sem nenhuma explicação; saber que o vôo foi cancelado apenas quando chega no aeroporto; passar horas de espera sem nenhuma informação de quanto aquela espera vai durar – e, muito menos, ser atendido com água ou lanche.
Não é de hoje: lembro que há muitos anos (o presidente da República era Sarney) fiquei retida no aeroporto de Brasília por mais de quatro horas. Sem explicações e com muita raiva, fui ao DAC reclamar, e, comigo, metade dos passageiros criou coragem. Preenchi um formulário. A resposta veio: seis meses depois, o DAC me informava que “estavam sendo tomadas providências” sobre a reclamação. Guardo esse ofício até hoje, para não me esquecer nunca mais que reclamar de empresa aérea para órgão oficial é o mesmo que nada. E não dá nem para desabafar, porque o formulário não deixa...
Um dia desses, em pleno apagão aéreo, um comandante engraçadinho disse, no vôo em que eu viajava: “Ironicamente, este vôo está no horário.” Nós, os passageiros otários, deveríamos ter talvez passado algumas horas de espera, para satisfazê-lo.
A decadência do tráfego aéreo nacional mantém-se com os equívocos da Presidência da República (melhor distribuir bolsas e garantir votos que dotar de segurança os vôos); com a irresponsabilidade sindical dos controladores de vôo (eu quero o meu, e o resto que se dane); com a inércia de quem deve fiscalizar tudo isso (o todo-poderoso Ministério Público não move uma palha, e o Executivo é conivente); com a voracidade das companhias aéreas, pressionando os custos ao ponto de ruptura dos serviços (check-ins em horários limitados, contenção de pessoal, programas limitados de treinamento e atualização, bagunça nas reservas); com a parcialidade dos políticos (desde que eles sejam bem tratados, não se queixam, eles que viajam sem parar – às vezes até tiram gente do avião); e com a passividade dos viajantes.
Cem mortos, duzentos mortos de uma vez? Parece ser pouco para os interessados, a julgar pela ausência de providências objetivas. O presidente cria um gabinete de crise, espelhando bem seu ponto de vista: trata-se de um tropeço político, e assim será tratado. Depois, Deus dará.
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