Percorro a internet e me deparo com uma página sob o título de “Amicão”: cães treinados para ajudar nas terapias de crianças com síndrome de Down, de idosos deprimidos e até de doentes.
Abro meu e-mail e uma apresentação em PPS me informa que nunca devo me distrair um cão-guia, nem me aproximar pelo lado errado.
Uma miçanga de Mia Couto desabafa: não sou eu o dono do cão, é o cão que me arrasta pela trela; eu lhe dou banho, comida e água, e todos os elogios são para ele; eu sou seu dono ou seu servo, afinal? – pergunta o escritor.
O Google me informa que a palavra “cão” tem 110 milhões de referências. O que, multiplicado pelos 6 mil idiomas falados no mundo (segundo a ONU) dá um número de arrepiar – principalmente considerando que a palavra “homem” só tem 48 milhões de referências, ou seja, menos da metade.
Uma vez vi, num castelo, dezenas de pinturas de cães de caça. Não eram cenas de caça, eram retratos, com o nome do cachorro inscrito na tela. Com assinaturas famosas, porque pinturas mandadas fazer por reis e príncipes. Eram retratos de favoritos ou de heróis – estes haviam tirado o patrono de algum aperto de caça.
Coisa pouca, se compararmos com os milhões de fotografias de cachorros que ocupam sites de relacionamento, porta-retratos domésticos, telas de tevê e até out-doors.
E coisa antiga, pois os cães de hoje não são a sombra do que eram antes. Porque, dos vertebrados modificados pelo homem, meu palpite é que só as galinhas e os bois tenham sido geneticamente mais alterados que os cães.
Um dos sites que visito contém uma longa lista de “raças reconhecidas” como tal e os respectivos padrões. Descubro que há cães que inevitavelmente sofrerão deste ou daquele mal, porque está inscrito na genética daquela raça. Cães produzidos especialmente para esta ou aquela finalidade – cruzados e recruzados para apurar determinadas características, ou eliminar outras.
Tenho a impressão que com a engenharia genética será mais fácil – ou mais terrível, dependendo do ponto de vista. Talvez até que um grande estúdio de cinema encomende e consiga um Cérbero de carne e osso, e o mítico cão de seis cabeças, guardião das portas do inferno, viva o tempo certo para rodar as cenas da travessia dantesca.
Tudo é possível quando se trata de humanos.
Até um concurso para saber qual o cachorro mais feio do mundo – the ugliest – e o vencedor é certamente inconteste: a língua é pendente, pelo lado da boca, o focinho fino é encimado por dois enormes olhos sob um tufo de pelos que parece uma crista. Nem por isso – seus donos são carinhosos e enchem de elogios o cachorro, cuja pele é rosada, com pelos esparsos e malhas marrons.
Dizem que nas cidades brasileiras há um cão para cada cinco habitantes, e a maior parte deles está nas ruas. E eu fico pensando porque temos cães e porque gostamos tanto deles – falo como coletivo, porque é muito raro encontrar alguém que deteste completamente os cachorros.
Muita gente afirma que os cães são companhia, amigos fiéis, ou são guardas, ou são colaboradores, etc etc. A meu ver, este é o lado nobre, racional e razoável de amar os cães. Penso que talvez haja o lado escuro da força: à falta de humanos e antes que cheguem os robôs, os cães suprem a demanda pelos escravos, usados para todas as finalidades que o bem ou o mal, gerados pelo cérebro humano, inventam.
E o leitor perguntará porque, afinal, estou com esta conversa de cachorro, agora.
Respondo: é porque, diante das cachorradas que estão fazendo Lula e Sarney, é melhor falar de cães.
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sábado, 18 de julho de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Caca ideológica
Um parlamentar alemão, irritado com a quantidade de cocô de cachorro encontrada diariamente na rua, apresentou uma proposta de lei radical: a formação de um banco de DNA canino, obrigatório, de forma a permitir que se identifique o dono do cocô – e, por aí, o dono do dono do cocô, para que este último pague uma pesada multa.
Complicado? Nem tanto, quando se tem dinheiro bastante para fazer exame de DNA de cocô de cachorro. O que chateia é que, por aqui, milhares de crianças aguardam exames de DNA para conhecer o próprio pai – e não há dinheiro bastante para fazer o exame. A distância dos dois mundos permite isto; e, como indicador de concentração mundial de renda, este contraste no âmbito do DNA parece ser suficiente.
O projeto não passou até agora, e não foi porque pensasse a sociedade que ele custa caro; foi porque os alemães estão achando que um banco de DNA canino e a identificação do cocô uma intolerável invasão de privacidade – e que, quando se começa a invadir a privacidade de bicho está próxima a invasão da privacidade humana.
Convenhamos, ainda, que é um certo consolo – negativo, está bem, mas assim mesmo consolo – descobrir que a civilizadíssima Alemanha não consegue fazer com que seus cidadãos evitem o cocô das ruas só por ser uma questão de civilidade. Que é preciso um bocado de repressão para que as ruas fiquem limpas dessas cacas anônimas. Eu reclamo do que encontro nas ruas daqui; percebo que o cachorro e seu cocô é drama também entre os povos mais adiantados.
Talvez se ensinássemos os cachorros a enterrar o cocô? Ou, melhor ainda, se eles já nascessem sabendo? Para isso, haveria que isolar o DNA correspondente nos gatos e transplantá-lo para os cachorros. Cães transgênicos, naturalmente – mas com as cidades limpas de dejetos. Mas seriam os cães transgênicos os mesmos que amamos? Os verdes dizem que não – pelo menos quanto à soja e outros produtos da terra. Mas o novo princípio, oriundo diretamente do avanço tecnológico, é: mude-se tudo a qualquer preço, desde que não mudemos nós.
Uma civilização epicurista, desabituada da paciência de construir, do esforço penoso de colocar pedra sobre pedra, literal ou figuradamente? Por enquanto, os alemães discutem o banco de genes caninos, e, nessa discussão, os limites de controle do Estado sobre os cidadãos. O cocô de cachorro ganhou matizes ideológicos, ora pois, quem diria?! E, ao que parece, o projeto do deputado não passará. Ele terá que arranjar outra maneira de conseguir que os donos de cães recolham o cocô das ruas, ou, então, talvez criar uma taxa canina para manter os serviços de limpeza e construir espaços especiais para o alívio dos cachorros.
Quanto aos donos, não estão nem aí. Como aqui.
Complicado? Nem tanto, quando se tem dinheiro bastante para fazer exame de DNA de cocô de cachorro. O que chateia é que, por aqui, milhares de crianças aguardam exames de DNA para conhecer o próprio pai – e não há dinheiro bastante para fazer o exame. A distância dos dois mundos permite isto; e, como indicador de concentração mundial de renda, este contraste no âmbito do DNA parece ser suficiente.
O projeto não passou até agora, e não foi porque pensasse a sociedade que ele custa caro; foi porque os alemães estão achando que um banco de DNA canino e a identificação do cocô uma intolerável invasão de privacidade – e que, quando se começa a invadir a privacidade de bicho está próxima a invasão da privacidade humana.
Convenhamos, ainda, que é um certo consolo – negativo, está bem, mas assim mesmo consolo – descobrir que a civilizadíssima Alemanha não consegue fazer com que seus cidadãos evitem o cocô das ruas só por ser uma questão de civilidade. Que é preciso um bocado de repressão para que as ruas fiquem limpas dessas cacas anônimas. Eu reclamo do que encontro nas ruas daqui; percebo que o cachorro e seu cocô é drama também entre os povos mais adiantados.
Talvez se ensinássemos os cachorros a enterrar o cocô? Ou, melhor ainda, se eles já nascessem sabendo? Para isso, haveria que isolar o DNA correspondente nos gatos e transplantá-lo para os cachorros. Cães transgênicos, naturalmente – mas com as cidades limpas de dejetos. Mas seriam os cães transgênicos os mesmos que amamos? Os verdes dizem que não – pelo menos quanto à soja e outros produtos da terra. Mas o novo princípio, oriundo diretamente do avanço tecnológico, é: mude-se tudo a qualquer preço, desde que não mudemos nós.
Uma civilização epicurista, desabituada da paciência de construir, do esforço penoso de colocar pedra sobre pedra, literal ou figuradamente? Por enquanto, os alemães discutem o banco de genes caninos, e, nessa discussão, os limites de controle do Estado sobre os cidadãos. O cocô de cachorro ganhou matizes ideológicos, ora pois, quem diria?! E, ao que parece, o projeto do deputado não passará. Ele terá que arranjar outra maneira de conseguir que os donos de cães recolham o cocô das ruas, ou, então, talvez criar uma taxa canina para manter os serviços de limpeza e construir espaços especiais para o alívio dos cachorros.
Quanto aos donos, não estão nem aí. Como aqui.
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