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domingo, 8 de março de 2015

Que moral, hem!


O deputado Edmilson Rodrigues vai ser processado por quebra de decoro parlamentar porque ousou, ousou! – chamar de moleque o eminente peemedebista... como é mesmo o nome dele? Esqueci, que delito horrível! – no aceso de uma discussão. Edmilson, um nortista, está sendo acusado de “preconceito contra nordestinos”.

E o eminente peemedebista Renan Calheiros, presidente do Senado, está sendo acusado de corrupção da grossa, mas, para o PMDB, não há, aí, quebra de decoro. Nem sequer desconforto!

“Mexa-se, mexa-se!”, cantou uma vez o menestrel Juca Chaves. “Mas nunca tão depressa! Quem tem pressa come cru!”.

Parece que o PMDB não ouviu essa cantiga, ou se ouviu, esqueceu. Apresentou-se em rede nacional não como governista, não como aliado do governo, como seria o correto, mas como o próprio governo. Alinhou ministros e promessas, arrotou grandezas morais e uma competência feita de escolhas e bem poucas realizações. Precipitou-se, o PMDB: embora tenha abocanhado uma bela fatia da administração federal, ele não manda nela. Suas escolhas estão subordinadas à presidente que, apesar de ter ganho uma eleição de forma mentirosa, e por pequena margem, é legítima.

Já tivemos presidentes do PMDB. Dois presidentes-viúvos, que assumiram porque a cabeça do casal foi decapitada. Quer ter, agora, um terceiro presidente-viúvo, porque só assim, meio que na sombra, é que chega lá. Mas de José Sarney lembramos a inflação estratosférica que nos conduziu para o Collor, com Itamar na vice. Collor decapitado, passamos para outro governo do PMDB. Itamar não acreditava no plano real (pelo menos é o que consta do livro da Míriam Leitão, que Itamar nunca contestou), permitiu seu lançamento porque não tinha alternativa. Depois se opôs radicalmente ao seu sucessor, Fernando Henrique, o ministro do real.

Em todos estes anos de democracia plena, vários partidos apresentaram projetos consistentes: PSDB, PT, PPS, PCdoB, Dem, PDT. São projetos divergentes entre si, baseados em ideologias diversas, até contrárias, e utopias diferentes. Mas são partidos que têm perfil, sabe-se o que esperar deles. Quanto ao PMDB, como o partido deixou claro no programa em que se apresentou como governo, faz escolhas: ora, quem escolhe, escolhe o já feito, não cria nem constrói nada de novo. Limita-se ao que está ao alcance da mão. Ideias, propostas, e, como vemos agora, dutos de dinheiro clandestino.

Pensando bem, talvez isso seja uma ideologia, a ideologia do líquido que toma forma do recipiente que o contém. Se for assim, é uma ideologia que se evapora quando sob o aquecimento das tensões. E, mesmo contando com a força do vapor, basta instalar uma válvula, de preço, aliás, bem variável, para ser controlada.

E talvez explique porque não se exija decoro de um senador publicamente acusado de praticar diversos crimes contra o erário público (e mais um, contra a inteligência e a boa-fé dos brasileiros), mas se queira enquadrar o deputado do pequeno PSOL porque talvez tenha se excedido no discurso. Digo – talvez – porque é bem possível que o deputado Edmilson Rodrigues tenha simplesmente falado a verdade. E o deputado X (não há jeito de eu me lembrar do nome dele!) seja mesmo um moleque.

É, talvez o padrão ético do PMDB explique essa contradição. E, sinceramente, não sei se um presidente do PMDB será melhor que uma presidente do PT.

A lista de Janot e a decisão de divulgá-la, tomada por Teori Zavaski (quem quiser que acredite que o Planalto não agiu nessas decisões) demonstram que Dilma está longe de entregar os pontos. Se ela conseguir afastar Renan ou Cunha da presidência de uma das casas do Congresso, enfraquecerá o PMDB o suficiente para retomar a governabilidade ameaçada. Mesmo com as manifestações de rua e a incômoda verborragia do ex-presidente Lula (que até agora não se conformou de ser apenas um ex). Mesmo com o terrorismo virtual instalado pela extrema direita e por um sem número de cidadãos assustados ou que se divertem espalhando medo (só para dar uma ideia do que está acontecendo nas redes sociais, dia destes recebi dois áudios ressuscitados de 1963!). Mesmo com uma recessão em andamento.

Só que ela tem que ser rápida: falta uma semana para o 15 de março e existe, graças a Lula, risco real de confrontação nas ruas.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Brasil profundo


O Congresso é a cara do Brasil. É ele que espelha, física e moralmente, o Brasil profundo, do litoral, do sertão e das cidades. Especialistas políticos caracterizaram o Congresso que iniciou suas sessões ontem como de centro-direita, com o avanço de das bancadas religiosas e da chamada bancada da bala.

E esse Brasil mostrou a sua cara, ontem, ao eleger Eduardo Cunha.

Infelizmente, não é a cara que eu gostaria de ver.

A cara que vejo hoje é enrugada por práticas corruptas, hidratada pelos panos quentes postos sobre os escândalos, maquiada pelo marketing irresponsável, enfeitada com ouro de tolo e com o olhar esquivo dos trapaceiros.

Ontem, o Brasil estendeu um tapete para tentar esconder o lixo.

Mas o Congresso se esqueceu que o lixo fede. A podridão se impõe para muito além do ponto onde ocorre. E quando o lixo é muito, e é antigo, faz escorrer chorume. O chorume contamina tudo o que toca, terra e água. E também tapetes.

Na semana passada um título de jornal ilustrou essa contaminação: dizia que o desvio na Petrobrás sustentaria o programa bolsa-família por uma década. A leitura subliminar dessa manchete é a seguinte: esse dinheiro que está no bolso deles devia estar no meu. O chorume toca, aqui, o inconsciente coletivo.

Cunha não fará oposição – aliás, ele declarou isso sem subterfúgios – e sim, lado a lado com Renan Calheiros e Michel Temer, a acomodação dos fichas sujas, sejam eles de que partido forem. Esse foi o pano de fundo que garantiu sua eleição. O site “Congresso em Foco” informa que essa é a bancada mais numerosa do Congresso. Em 2012, era composta por 191 deputados ou senadores. Nas últimas eleições saíram 34 deputados e entraram 40 com processos, em sua maioria por corrupção. Esse contingente de deputados representa 18% da Câmara. Entre eles está o próprio Eduardo Cunha. E entre eles não estão (ainda) os envolvidos nos desmandos da Petrobrás.

No entanto, precisamos ter esperança. Num artigo publicado neste domingo passado, Fernando Henrique coloca as suas no Judiciário. Em outro artigo, despedindo-se da política partidária, José Sarney apela para a pressão suprapartidária, a fim de evitar males maiores para o Maranhão. Lula, em vídeo circulante na internet, grita pela mobilização do PT. Os três ex-presidentes, de posições tão diferentes entre si, manifestam simultaneamente extrema preocupação com o momento nacional.

Mas, para os parlamentares eleitores de Eduardo Cunha, que reivindicam aumento das mordomias e das respectivas remunerações, a preocupação parece ser somente a que mobiliza hoje o Brasil profundo: que fantasias usarão daqui a duas semanas, no Carnaval.

Porque as fantasias de palhaço já têm donos: somos nós.


domingo, 30 de novembro de 2014

Para que serve a campanha eleitoral?


Não, eu não vou comentar o que todo mundo já sabe: que a presidente Dilma está fazendo tudo o que na campanha disse que não faria. Mas vou partir daí, desse fato, para, conjugando-o com outro – a natureza das despesas de 4,92 bilhões de reais gastos nas campanhas eleitorais das eleições de 2014 – abordar a pergunta que está no título desta crônica.

Na utopia brasileira, em grande parte expressa em ordenamentos legais dissociados da realidade, a campanha deveria servir para discutir as propostas dos candidatos. Deveria também ser um instrumento de visibilidade dos candidatos, de forma a proteger as candidaturas de partidos minoritários e levar ao cidadão o máximo possível de informação para que faça sua escolha livremente. No caso de candidatos ao Executivo, deveria espelhar o programa de governo dos candidatos que, apresentado à Justiça Eleitoral, baliza a proposta do candidato.

No entanto, a realidade é outra. Os programas de governo depositados na Justiça não servem para nada – talvez como razão de impugnação de candidatura se, por acaso, houver propostas contra as cláusulas pétreas da Constituição, como divisão do país, por exemplo. No mais, são peças literárias, desconhecidas até da equipe mais próxima do candidato. E não obrigam a nada.

Os conteúdos da campanha giram em torno do que Miguel Wiñazki chama de “notícia desejada”, ou seja, diz-se o que o eleitor quer ouvir, pouco importa seja real ou não. Os recursos cinematográficos permitem a criação de um mundo de ilusões, onde o que é feio é trabalhado para ficar horrível e o bonito, lindo. Nesse mundo ilusório, em que o horário eleitoral se assemelha à novela das seis, com trama superficial e mudanças abruptas do rumo da história, o tempo a ser usado se torna crucial, e, aí, a distribuição de tempo na tevê (ferramenta criada, aliás, para proteger as candidaturas de partidos minoritários) provoca o primeiro movimento para as coalisões majoritárias: não é o ajuste temático que reúne os partidos nesta ou naquela chapa, mas o agregado de tempo na tevê. Então, considera-se natural que um partido como o Democratas, que defende muitas bandeiras que o PT repudia, se junte a este numa coalisão eleitoral. É nessas coalisões que começa a verdadeira campanha eleitoral que, ao contrário do que quer a lei, passa bem longe do programa apresentado. Na realidade, na organização do tempo de tevê monta-se um time. Esse time vai disputar um campeonato, cujo troféu é o governo e sua base legislativa. E daí em diante, joga-se – para a torcida, que, sem ela, não há renda no campo de futebol nem votos na urna.

Quem ganha, leva. Se trapaceia, ou se, como aconteceu com Vanderlei Lima nas Olimpíadas, um fato estranho impediu alguém de ganhar, não interessa.

Mas, entre a composição do tempo da tevê e o final do campeonato há um bocado de dinheiro fluindo dos bolsos de uns para os bolsos de outros.  Esse dinheiro vem dos impostos, por via do chamado Fundo Partidário; e de particulares, quer sejam empresas, quer pessoas físicas. Os R$4,92 bilhões que circularam este ano, foram parar aonde?

Diz reportagem do portal UOL, da “Folha de São Paulo”:

A disputa eleitoral que teve a maior quantia de gastos foi ao cargo de deputado estadual (1,2 bilhão), da qual participaram 17 mil candidatos. Na sequência, as que tiveram mais despesas foram para os cargos de governador (R$ 1,1 bilhão) e de deputado federal (R$ 1 bilhão). Os gastos em publicidade representaram metade do total investido pelos candidatos na disputa eleitoral deste ano, seguidos por despesas com pagamento de pessoal e com custos de transporte.

O que são os “gastos em publicidade”? Na campanha padrão, cujo espelho está nas prestações de contas feitas à Justiça Eleitoral, são as despesas com produção de materiais impressos (cartazes, santinhos, banners, panfletos, jornais), peças para eventos (bottons, crachás, camisas, coletes, bandeiras) e, sobretudo, para a criação de marketing e a produção de programas de tevê (se o candidato tem uma produtora, ele vai ficar com a parte de leão do dinheiro da campanha; não sai no prejuízo, em nenhum caso). Essas unidades empresariais (agências de publicidade, marketing e relações públicas e as produtoras de tevê) é que dispuseram dos quase R$2,5 bilhões usados este ano para os gastos em publicidade, retendo consigo uma fatia que, segundo a tabela da Associação Brasileira de Agências de Publicidade varia de 10 mil reais (para verbas publicitárias empresariais de até 2,5 milhões) a 70 mil reais (para verbas superiores a 25 milhões) mas que, numa campanha, é acertada levando em conta a quantidade de candidaturas a ser atendida, o que deixa essa tabela como mera referência. Ou seja: se a agência vai atender uma legenda partidária com 60 candidatos a cargos proporcionais e dois a cargos majoritários, ela pode cobrar 200 mil reais (60 mil correspondentes às verbas publicitárias considerando cada candidato proporcional e 70 mil para cada candidato majoritário). O custo das produtoras varia. Segundo a Cinemátika, empresa especializada na produção de vídeos institucionais, um bom vídeo institucional custa de 15 mil a 40 mil reais. Como a produção de vídeos de campanha envolve atores, filmagens externas, uso de material cinematográfico e deslocamentos, vamos usar o máximo valor para uma estimativa, embora, com certeza, sejam mais caros que isso. Entre primeiro e segundo turnos, a campanha foi de 19 de agosto a 24 de outubro, com um intervalo de dois dias, ou seja, 75 dias. A 40 mil reais por dia, são 3 milhões de reais só para um candidato majoritário, só para uma produtora de tevê.

Bem, então temos a primeira resposta para a pergunta do título: a campanha serve para engordar as contas (ou fortalecer o setor, como preferirem) das agências de publicidade, gráficas e produtoras de tevê. De si mesmo, pagar as contas do mundo da mídia é justo e necessário. O problema está no que esse mundo da mídia está oferecendo.

Porque sem os vídeos a campanha seria quase inexistente, de tão chata. O Brasil já fez essa experiência, no tempo da ditadura, quando a campanha foi tão censurada que se limitava a um listão: foto, nome e número do candidato. As audiências das tevês da Câmara, do Senado e da própria TV Cultura mostram que o público não está interessado em debates, profundos ou não, sobre o seu destino ou sobre as questões nacionais, regionais ou locais. Até porque não entende a maior parte dessas questões - o jornalismo existe justo para decodificar linguagens e conceitos e torná-los acessíveis ao cidadão comum. Nos debates proporcionados pelas redes de tevê o jornalismo é engessado pelos marqueteiros nas reuniões prévias (tempo igual, temas) transformando tudo numa encenação casada com a ilusão produzida nos vídeos. O jornalismo impresso está, da mesma forma, cerceado, algumas vezes por si mesmo, outras pelo entendimento judicial sobre os crimes de opinião (escrever que um grileiro é grileiro pode condenar um jornalista, que o diga o Lúcio Flávio Pinto). 

Então, o que sobra? Motivação, diriam os marqueteiros. A campanha serve para motivar o eleitor.

Sinceramente, é muito dinheiro para tão pouca coisa. Afinal, na forma como está, a campanha eleitoral não serve nem para que se identifique quem é candidato a deputado. Quem quiser esta informação que consulte as listas da Justiça Eleitoral. A campanha não compromete o candidato, não informa quem são os candidatos, não se ancora na realidade e se limita a dizer o que o eleitor quer ouvir, o que pode ser resumido numa única frase: meu time é melhor que o teu.

Ainda sinceramente, acho que quem defende que o Tesouro Nacional pague as campanhas eleitorais não sabe do que está falando ou está falando de má fé. Eu, pelo menos, não quero que minha cota de impostos vá financiar um mercado de ilusões eleitorais. Também não resolve proibir as empresas de contribuir para a campanha – o que é normal em todas as democracias – porque será inócuo. Elas o farão de forma indireta; há milhares de meios de fazer isso.


Para que as campanhas eleitorais sirvam para algo mais que gerar um mundo de ilusão destinado a um campeonato, o caminho é outro. Passa pela mudança na distribuição do tempo na tevê, na liberação do jornalismo das peias em que está hoje, na substituição da exigência de um programa de governo pela identificação de princípios e diretrizes programáticos obrigatórios, cujo descumprimento possibilitasse a responsabilização do candidato. E passa pela liberação da propaganda de rua. Por acaso, o povo também tem o direito de se manifestar.

domingo, 31 de agosto de 2014

Salto no quase escuro


Na História do Brasil há vários momentos como esse que estamos vendo nascer agora: uma liderança se projeta e encarna a utopia; a utopia de cada um de repente toma corpo e palanque. Aí a urna vira cartola de mágico: é como se todas as mazelas ficassem curadas de uma só vez.

Aprendizes de mágico sabem como fazer um coelho sair da cartola e a população sabe, perfeitamente bem, que não passa de um truque. No entanto deixa-se envolver pela magia do momento e, a cada vez, se maravilha. Mas os mágicos não farão o número se não dispuserem de um coelho real, de carne e osso, bem treinado e escondido no fundo falso da cartola.

Com as urnas não há coelho escondido: elas se esgotam com o último registro. Mas a magia da utopia enleva e crer é melhor que descrer. Até o dia seguinte, sob as luzes da realidade que permitirão distinguir-se o falso do verdadeiro.

Esses momentos cívicos são bonitos. A população fecha os olhos e salta no escuro, confiante nas luzes do arco-íris no fundo da cachoeira. Pena que sejam apenas reflexos prismáticos: o pote de ouro não estará lá. 

Mas haverá, talvez, diamantes no fundo do rio? Ou apenas pedras? No complexo social, não há drones para saber o que se passa. Há que conferir pessoalmente.

A pré-eleição não é animadora. Esgotada a geração das diretas, o conjunto que a substitui está a quilômetros abaixo dela, em qualidade e coragem. Não há estadistas, há negociantes. Renan Calheiros e Ricardo Levandovisky acabam de montar uma armadilha para o próximo presidente, seja qual for: 34% de reajuste para o Judiciário, o início de uma corredeira que pode atirar o país num poço bem longe da cachoeira e de seu arco-íris. Para deter essa corredeira, há que pagar o preço de uma crise institucional. O primeiro passo do novo presidente será uma barganha com os dois outros Poderes.

A plataforma dos três candidatos com maior intenção de votos é conservadora, banqueira e populista. Está longe, muito longe, de responder à voz rouca das ruas do Sudeste/Sul, e sequer ouve as tímidas vozes do Norte. A montanha russa da política brasileira pode fazer um looping nesta eleição – mas, a menos que o carrinho saia dos trilhos e se despedace, vai continuar o percurso descendente desta fase.

Ou seja: o salto não é tão no escuro assim. Com sorte, dá para alcançar uma laje segura que sirva de degrau.


PS: De repente apareceu nesse texto um monte de palavras assinaladas, não sei porque nem por quem. Por favor, desconsiderem. Eu não autorizei anúncios e nem esses cacos.

domingo, 20 de julho de 2014

Nós, os vira-latas


Eu não tenho complexo de vira-lata. Eu sou um vira-lata. Indivíduo mestiço, sem qualidades especiais e sem dotes refinados. Um entre milhares, centenas de milhares, milhões. Tenho um nome pelo qual me chamam e ao qual atendo. Meu lugar no mundo é circunscrito e sonho frequentemente com não me preocupar com o que vou comer amanhã, depois que resolvi o alimento de hoje. Às vezes consigo sair, por pouco tempo, dos limites geográficos onde estou radicado: uma escapada de uns poucos dias, porque não dá para ir mais adiante.

Nós, os vira-latas, somos conhecidos pela enorme capacidade de sobrevivência: nós nos contentamos com pouco, migalhas de mesas opulentas, uma sobra de carne num osso, uma água mais ou menos limpa, e, num dia qualquer de muita sorte, aquela ração reforçada. E resistimos, meio doentes, meio sarnentos às vezes, mas vivemos.

Também somos conhecidos pelo barulho. Mas, veja você: sem grandes presas ou força bruta de ataque; sem beleza ou exotismo que nos ponham num pet shop ou num colinho confortável; sem porte que impressione, o que nos resta é o alarme. Latimos de alegria, às vezes, mas, quase sempre, é para avisar que alguma coisa está errada, que alguma coisa nos assusta, nos fere, nos adverte do ruim. Latimos para nos defender, para alertar os demais, para que nos vejam. Porque individualmente somos insignificantes, perdidos na multidão: se não latirmos, não ganharemos afagos, ou os elefantes não nos verão e podemos ser esmagados.

Mesmo assim, latimos menos que alguns cães de pedigree: os terriers, ou os pequineses, por exemplo. Esses latem por nada, para ouvir a própria voz, creio eu. São nervosos, correm para lá e para cá sem motivo. E latem até para as formigas.

Somos capazes de ações heroicas, de fidelidades até insensatas, de seduzir com o olhar, de inspirar amor e ódio e também de engodos, covardias e traições. Também somos capazes de ultrapassar o sofrimento com rapidez e de nos ajustar ao terror que possam nos causar. Diante do mais forte, geralmente nos encolhemos e esperamos. Aprendemos da forma mais dura que atirar-se à luta em desvantagem só se justifica quando a ameaça é mortal. Vejam o que está acontecendo com os pitbulls, rottweiler e os dobermanns, que atacam qualquer coisa de qualquer jeito: querem até exterminá-los!

Essa paciência em esperar o momento certo é uma de nossas características mais importantes. Com ela, nós vigiamos os descuidos e conseguimos nacos melhores. Com ela, escapamos de armadilhas. Com ela, conseguimos até ficar silenciosos por algum tempo. E é por ela, também, que latimos e latimos e latimos quando sentimos que as coisas estão mal para o nosso lado. Precisamos latir para ter paciência.

Porque, quando as migalhas desaparecem e a necessidade aperta, nós, os vira-latas, exercemos uma outra das nossa capacidade, herdada dos tempos de selva: nós nos agrupamos e nossas matilhas conseguem instilar o medo que nós, individualmente, não conseguimos provocar. Não é uma coisa que gostemos de fazer. Preferimos o caminho pessoal e livre, competindo entre nós pelo pão de cada dia, mas fazendo o que nos dá na telha. Nossa longa história de sobrevivências nos ensinou que as matilhas costumam agir numa espécie de embriaguez desesperada, e isso não é bom. Costuma ser mortal para muitos. A matilha é nosso recurso extremo, mas ela está lá, guardada em nossa memória ancestral. Sabemos formá-la e a consciência dessa sabedoria nos deixa mais prudentes ainda. Porque pesamos as consequências dela.

Muitos torcem o nariz para nós, porque nos consideram insignificantes e porque pensam eles que nossos latidos são insensatos e não têm razão de ser. Mas isso, que deveria nos diminuir perante nossos próprios olhos, acaba sendo para nós outro recurso de sobrevivência: por ignorar nossos latidos, nossa viralatice, a caravana passa – e segue para o precipício. Ou para a boca da matilha.


domingo, 29 de junho de 2014

Sem razão


Um quarto da população mundial começa os jejuns do Ramadã, o Brasil inaugura o tempo da política com as convenções partidárias para a escolha de candidatos e quem quer saber disso? Festeiro como sempre, o Brasil arruma uma porção de meios feriados ou até feriados inteiros para assistir futebol. Quer dizer, assistir, assistir mesmo, só uma parte. A maioria se diverte e uma minoria ganha dinheiro. Inclua-se nessa minoria uns bons milhões de pessoas que aproveitam a festa dos outros para engordar seus orçamentos com horas extras, vendas de comidas e bebidas, gorjetas, corridas de táxis, participação em shows e outros.

Não há razão alguma para tanto, mas, novamente, quem quer saber disso? Blaise Pascal disse que o coração tem razões que a própria razão desconhece, João Gilberto colocou isso em música e o futebol transforma a frase em explicação. Razões? Não, paixões. Química especial na fisiologia humana. A paixão não dá razões, mas sensações.

O balconista da padaria mais próxima olhou a tevê e disse algo como: esses caras ganham milhões, eu é que não vou ficar assistindo. Isso foi antes de começarem os jogos. Depois... bem, depois ele consegue juntar-se à unanimidade contra o Fred.

Suárez fez um enorme sacrifício para chegar à copa. Depois mordeu a própria corda. Despedaçou suas chances. Por quê? Como diz o anúncio, porque sim. Descontrole emocional. Paixão. Esses caras que ganham milhões – ou nem tanto, como é o caso da maioria deles – também perdem a cabeça de vez em quando.

Políticos profissionais conseguem perceber facilmente o alcance da paixão popular, quando o circo é importante e quando não é. Dilma aproveita a paixão para consolidar metade do horário eleitoral gratuito na tevê. Obama tira uma foto vendo o jogo (só a foto, acredito, porque para quem gosta de basquete o futebol é muito chato) de olho nos eleitorados do sul dos Estados Unidos. Angela Merkel visita os alemães, a família real inglesa manda um representante para cumprir a agenda, a rainha da Bélgica se deixa fotografar torcendo. Os presidentes de Gana e Nigéria arranjam um jeito de pagar as dívidas com os jogadores (por lá, a corrupção no futebol é tanta que não dá para acreditar em promessas de cartolas).

Fizeram o dever de casa, todos eles. Por quê? Multidões apaixonadas podem deter uma guerra, Drogba provou isso na Costa do Marfim. Ou podem conduzir a uma guerra – e, neste aspecto, cada país europeu tem sua história para contar. Não dá para ignorar, nem para brincar, com a paixão.

Mas dá para fazer negócio. Arriscado, é verdade: a Espanha transformou em dinheiro a derrota e calcula em 600 milhões os euros que deixou de ganhar com a desclassificação. Mas, se der certo, os resultados serão melhores que a média, tanto para o encartolado da Fifa como para o vendedor de cachorro quente. É como operar a bolsa de valores. A pessoa pode ir, passo a passo, comprando e vendendo papéis seguros e ganhando pouco. Ou pode arriscar e ganhar muito ou perder tudo. Na bolsa, como no negócio do futebol, há um componente de risco alto, essência de paixão: você pode preparar a festa e depois ter que jogar tudo no lixo. Ou se divertir como nunca.

Sem razão, naturalmente. Puramente sensacional.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Na verdade, a comissão é de limpeza

Eu não entendi bem porque se chama “da verdade” essa comissão que foi criada para, pelo menos na intenção, iluminar os desvãos da violência política recente.
A verdade é um valor cuja definição é polemizada há milhares de anos; a verdade histórica, entretanto, geralmente é a História do ponto de vista do vencedor. Além disso, é um princípio bem conhecido aquele que recomenda uma perspectiva temporal para que se analisem os fatos: as informações do passado recente são sempre incompletas, a complexidade das sociedades humanas não permite que se veja o quadro se estivermos muito próximos dele.
A lei que cria a comissão estabelece, como finalidade de sua atuação, “examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos” cometidas ou sofridas durante o período da ditadura militar e, para isso, deverá por às claras tudo o que se praticou naquele tempo em nome da política e da ideologia.
Ou seja: vamos lavar os porões. E isso não é bem uma questão de verdade, mas de limpeza.
Eu gostaria que essa limpeza fosse mais abrangente: afinal de contas, os presos políticos sofreram o que sofriam os presos comuns. As violações de direitos são as mesmas: a tortura foi um instrumento policial considerado válido até bem recentemente. O pau de arara, as surras e os choques elétricos, além de alguns outros bizarros instrumentos (uma pequena amostra pode ser vista no minimuseu do “São José Liberto”, em Belém do Pará) faziam parte do cotidiano do investigador e do preso. Se a causa era política ou não, para mim não interessa: todos aqueles submetidos a esses métodos de apuração da verdade eram pessoas humanas e tiveram seus direitos violados.
Por que todos os setores envolvidos nas listas de assinaturas pedindo a revisão política se omitem nesse ponto e se recusam a ver o suspeito de um crime comum em igual condição à do suspeito de um crime político? Por que existe indenização, concedida por mecanismo administrativo, para os inocentes torturados ou punidos em razão de ordem política e não existe para os inocentes igualmente torturados ou punidos na apuração de crimes comuns? Estes têm que se submeter a uma longa demanda judicial, mesmo com o corpo e a vida mutilados. E não são poucos...
Alguns veem nessa comissão um passo para a revisão da anistia. É uma posição tola. Além de não haver condições objetivas – o que aconteceu há 50 anos não vai mobilizar as massas – condenar à prisão idosos senhores que foram um dia foram cruéis apresenta o risco considerável de que a imagem de hoje se sobreponha à de ontem, criando correntes de simpatia que geram certas ideias indesejáveis.
Eu gostaria também que a limpeza abrangesse outros setores, que não o carcerário. Principalmente, tirar da administração pública o restolho que ficou desse período. A herança da ditadura está em toda a organização tributária e orçamentária brasileira: ela é profundamente desrespeitosa com o cidadão, é ditatorial (ou imperial, se quiserem) e nos faz pagar ao Estado muito mais do que devíamos. A adoção da democracia de multidões só piorou as coisas: as diferenças regionais são cada vez mais profundas. Está, também, na organização das polícias (as polícias militares com seu viés de infantaria, as polícias civis circunscritas a divisas que se tornam mais fluidas cada dia que passa) e responde, em boa parte, pela sua inoperância e pelas sucessivas crises de segurança que vivemos em todo o país.
É também herança desse período a inflexibilidade burocrática que emperra todas as iniciativas e alimenta a corrupção. A república brasileira do papel carimbado se consolidou durante a ditadura, efeito direto do hábito militar, fruto das necessidades de guerra, de reduzir tudo a manuais e regulamentos. Houve uma tentativa, nesse período, de podar os excessos, com o Ministério da Desburocratização. Ficou na tentativa, e até hoje, diante da administração pública, a pessoa vale menos que o papel que ela exibe.
Espero que a comissão consiga preencher algumas reticências ou trechos obscuros da narrativa histórica – mesmo que só nossos tataranetos possam saber se ela conseguiu.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Tiririca, boa sorte!

Ele é o legítimo representante de alguns milhões de brasileiros. Talvez nem dos que votaram nele, mas dos milhões de brasileiros semianalfabetos, ou, na linguagem politicamente correta atual, analfabetos funcionais.

Lembra-me o cacique Juruna, eleito pelo Rio de Janeiro politizado, para ser o primeiro índio no Congresso Nacional – seus representados eram os índios, que não votavam; então o Rio de Janeiro cedeu uma vaga para eles. Juruna andava com um gravador pendurado no pescoço para testemunhar suas audiências. Sua presença no Congresso – determinou uma alteração substancial na política indigenista. Principalmente porque os índios passaram a ser vistos pela população: aquelas imagens exóticas das revistas foram aos poucos substituídas pelas imagens dramáticas e contemporâneas. Ele conseguiu apoio suficiente no Congresso para trazer para as mesas de negociação a questão das terras indígenas.

Era um só índio, eleito por não-índios, cumpriu um só mandato e fez enorme diferença até ser politicamente devorado.

Se Tiririca vai fazer ou não diferença, não sei. Mas ele é um homem que batalha a vida, igual a milhões de outros espalhados pelo Brasil, que não votaram nele mas que vivem o drama das poucas letras.

Eu vi a cartilha que ele distribuiu, e gostei. Simples, fácil, pobre, direta e decente. Se essa vai ser sua marca, ótimo: o elitista Mercadante, que mandou tirar seu nome da propaganda dele, terá que enfrentá-lo.

Se o alcançasse, diria a Tiririca que marque o seu mandato em algumas coisas essenciais para esse povo de analfabetos funcionais: sinalização gráfica, por exemplo, nos transportes públicos (é terrível a dificuldade que um analfabeto desses tem para pegar um ônibus); prioridade para o combate ao analfabetismo, hoje chamado sofisticadamente de Programa EJA (Educação de Jovens e Adultos), relegado a segundo plano governo após governo; mídia de rádio em massa para prevenção de doenças; e muitas outras coisas pelas quais lutar. E mais: contrate um tradutor de vernáculo, ou seja, uma pessoa capaz de lhe explicar a complicada linguagem burocrática.

Como não o alcanço, limito-me a desejar-lhe sorte melhor que a do Juruna que, ao perder a eleição, perdeu também a tribo e ficou num desvão entre a floresta e a cidade, numa velhice miserável até morrer. É extremamente difícil o combate com armas desiguais, e nem sempre se tem a pontaria de um Davi, que derrubou Golias com uma pedrada (mas que teve que usar a espada do gigante para matá-lo, ou seja: teve que armar-se no padrão do outro). Não ler fluentemente, e escrever com dificuldade é como enfrentar espadachins com uma atiradeira na mão.

Por outro lado, espadachins podem ser detidos pela sabedoria, mesmo que esta use pedras. Os romanos aprenderam isso da forma mais dura e literal, na guerra contra Cartago, de onde o sábio Arquimedes lhes atirava pedras com tanta sabedoria que afundava as galeras antes que chegassem ao porto. Mas era Arquimedes, não era Tiririca: este terá que se ater com a sabedoria comum que, se nos deu Carolina Maria de Jesus (“Quarto de Despejo”) e Cartola, ainda não nos mostrou ninguém capaz de escalar as muralhas do sistema sem a escada do alfabeto.

Não estranhem, meus amigos, estas linhas. Eu não tenho vergonha de ter o Tiririca no Congresso: ele é um pedaço grande do Brasil. Tenho vergonha é da existência desse pedaço, de seu tamanho e da nossa incompetência em fazer com que renasça na leitura.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Oh, liberdade!

O poema a seguir, que traduzi livremente, é a versão francesa para o coro dos escravos da ópera Nabuco, de Verdi – ária mundialmente conhecida como “Va, pensiero”.

Está aqui porque quero falar dessas eleições que acabaram de acontecer. Porque finalmente elas foram inteira, total, integralmente livres.

Muitos encontraram nelas diversos problemas éticos. Eu também, mas nada além do que se pratica todos os dias no Brasil: o político que coloca a mulher para continuar governando através dela; a legenda que aproveita a popularidade de um comunicador (nesta eleição foi a vez do Tiririca) para eleger terceiros; os instrumentos da baixaria, que existem em toda parte em pequena escala.

Mas, tirando o argueiro do olho, poderemos contemplar também o povo erguendo sua voz, em campanhas – algumas podem até ser consideradas inoportunas - e obrigando os candidatos a ouvir. Podemos sorrir felizes do caldeirão na internet, rir dos disparates da campanha na tevê. Se nos posicionamos mais distantes, podemos avaliar o poderoso duelo que se travou de norte a sul do país – pela primeira vez sem dicotomias, e pela primeira vez sem medo algum.

Foi para isso, exatamente para isso que lutamos tanto. Então meu pensamento vai nas asas douradas de Verdi com as palavras de Claude Lemesle - ao lado, na voz de Nana Moskouri:

Quando tu cantas, eu canto contigo, liberdade!
Quando tu choras, eu choro também tuas dores!
Quando tu tremes, eu rezo por ti, liberdade!
Na alegria ou nas lágrimas eu te amo.
Lembras-te dos dias de tua miséria,
Meu país, teus barcos eram galeras.

Quando tu cantas, eu canto contigo, liberdade!
E quando estás ausente, eu te espero.
Quem és tu? Religião ou simples realidade?
Uma idéia de um revolucionário?
Eu creio que tu és a única verdade,
A nobreza de nossa humanidade
Eu compreendo que alguém morra para te defender,
Que alguém passe sua vida te esperando.

Quando tu cantas, eu canto contigo, liberdade!
Na alegria ou nas lágrimas eu te amo.
As canções da esperança têm teu nome e tua voz
O caminho da História nos conduzirá para ti,
Liberdade, liberdade!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Jatene e Serra (declaração de voto)

No ano em que completei 14 anos, dois fatos importantes me marcaram para toda vida. Em uniforme de colégio, de saia comprida e meias curtas, à noitinha, com medo e emoção, eu participava, na escadinha do cais do porto, de um primeiro comício. Era em defesa da Petrobrás. Pouco depois também conseguia meu primeiro trabalho regular: correção de textos escritos em português por um cientista alemão, em troca de um curso de datilografia, que não podia pagar. Seis meses de trabalho duro.

Desde então não parei na militância e no trabalho. A lista de atividades é longa e não vem ao caso descrevê-la. Este ano completei 50 anos de militância e, finalmente, livrei-me dos patrões, tanto os públicos, como os privados.

Como não sou de omissões, escolhi um partido político. Minha geração lutou muito, sofreu, e muitos morreram para garantir o direito de voto e de livre escolha para todos. Nós sabemos o quanto custa não ter.

Desde então, tenho sofrido patrulhamentos de muitos que, naquela época, dividiam o pão e o medo, e de outros que, nestas épocas recentes, usufruem a liberdade conquistada. Alguns se recusam até reconhecer minha participação naquelas lutas... Como se estar num partido que não continue atirando pedras a esmo, sem compromisso de construção, fosse um delito, um crime, uma traição.

Mas foi com enorme prazer que vi, finalmente, uma disputa eleitoral em que os candidatos a presidente tinham passado limpo, honrado, militante – foi a disputa entre Fernando Henrique e Lula. Nada de Collor, Sarney etc. À época, participando da campanha de Fernando Henrique, pensava que, qualquer que fosse o resultado, seria um avanço para o país.

Continuo certa de que foi. Fernando Henrique recompôs o Brasil, enfrentando uma oposição dura e leviana. Mais tarde conclui que a democracia também ensina a fazer oposição. Aquelas pessoas não sabiam: eram habituadas aos combates, não às discussões. Eram impermeáveis ao diálogo; dividiam o mundo em duas partes, a “nossa” e a “deles”. Brizola foi uma exceção. Um oposicionista capaz de conversar. Hoje, querem riscar Brizola da História do Brasil.

No Pará, Almir Gabriel, como vários outros governadores que assumiram então, encontrou o Estado esfacelado. Muitos de nós trabalhamos sem nomeação, àquela época, porque o Governo do Estado não tinha dinheiro nem crédito e antes de qualquer coisa era preciso negociar as dívidas, escalonar, sair do sufoco.

Algumas pessoas foram essenciais nesse processo. O próprio Fernando Henrique, com um apoio discreto e interessado; jogando todo o poderio de São Paulo em favor do Pará, José Serra e Mário Covas. E, indo e vindo de Brasília, discutindo com credores a enorme dívida do Estado, procurando aliados, assumindo compromissos, Simão Jatene.

Em três meses, a administração começou a fluir, contando centavos. As condições da recomposição eram extremamente duras. A oposição petista, que insultara Fernando Henrique no dia da posse e atirara pedras no governador Mário Covas, aproveitou-se da fragilidade e falta de recursos do governo para transformar o massacre de Eldorado num episódio com contornos muito maiores do que realmente era. Apesar disso – que provocou, aliás, um retraimento de investidores, por conta da imagem de que o Pará era um caldeirão prestes a explodir, o que precisou de convencimento até pessoal para mudar o quadro – a recuperação do Pará foi construída.

O PT exigia conselhos deliberativos em todas as instâncias de governo. Conselhos com poderes de cercear o executivo. Exigia eleições em toda parte. Exigia padrões de vida europeus – sem nem querer saber de onde vinha o dinheiro.

Nenhum membro do PT mexeu uma palha para recuperar o Pará. Quando eles podiam, arrumavam mais palha para complicar.

Lula e Ana Júlia assumiram os respectivos governos com a moeda estável, as contas em dia, os impostos suportáveis, reserva financeira para as primeiras folhas de pagamento, e o trem no trilho.

E aí, o PT atirou-se desbragamente à demagogia. Os conselhos viraram Fóruns, esvaziados. O governo passou a girar em torno das multidões de eleitores. O dinheiro – é, o dinheiro – passou a centralizar todas as decisões. Um núcleo econômico mais conservador que o de Fernando Henrique se encarregou de levar à escala de massa a filantropia dos grandes milionários. Pouco importa se a renda continua cada vez mais concentrada, se a desigualdade regional continua mais profunda. Os petistas dirão que a miséria diminuiu, e é verdade. O que não dizem, é que a classe média também diminuiu, sufocada pelos impostos, e o topo da pirâmide continua igual: os mesmos ricos, com mais dinheiro ainda.

Ouço Dilma na tevê, defendendo uma reforma tributária cruel, que aumenta a carga sobre os consumidores. Explicando que, ao distribuir dinheiro para os pobres, o governo move a máquina do consumo e dizendo que isso é crescimento econômico, no modelo capitalista mais primário e duro. Ela resume com precisão o pensamento do PT, e, com isso, desvenda as razões do apoio que recebe do grande capital: o sonho dourado tornado realidade, conservadorismo vestido de cor-de-rosa. O que eles não conseguiram com Collor, conseguiram com Lula: o país vive o mais selvagem capitalismo, onde os excluídos são mortos, e está feliz.

No último ano de seu governo, Lula visita e reúne com os piores ditadores do mundo. Posa para foto ao lado de sanguinários fundamentalistas, que matam mulheres e chicoteiam gays. Renega os cristãos, que o apoiaram quando perseguido, em prol de uma falsa liberalidade. Alia-se com toda a banda podre do país e garante imunidades. Sua mulher, deslumbrada, não tem vergonha de pedir cidadania italiana para os netos...

Nos oito anos do governo Lula, o Norte foi descartado. Ele não tem multidões de eleitores... A pressão do grande capital instalado em Manaus levou algumas migalhas para o Amazonas. Um recente discurso do próprio Lula, com críticas ferozes à legislação ambiental, e a ausência de propostas em favor do meio ambiente, no programa de Dilma, retratam como eles vêem a Amazônia: o grande território a ser explorado até a última espinha de peixe.

Jatene enfrentou quatro anos de governo Lula, tratado como oposição nortista, ou seja – o último dos últimos da fila. No entanto, o Pará continuou o crescimento econômico acima da média brasileira. Em três anos, Ana Julia conseguiu reduzir o crescimento para abaixo da média.

Eis porque, da mesma forma como enfrentei o golpe militar, chamado de “revolução” por milhões de brasileiros que festejavam as tropas com chuvas de papel picado e aplausos nas ruas – o que não aconteceu apenas em Copacabana – enfrento hoje a miragem ilusionista do lulismo. Pouco importa se as fardas verdes foram substituídas por camisetas vermelhas: o que importa é quem as comanda.
E para reconhecer os verdadeiros comandantes, os barões do império que nunca se desfez, basta procurar os sobrenomes...

É por isso que eu voto Serra e Jatene.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O presidente e Sakineh

Bem, agora o presidente do Irã chamou Lula de “emotivo”, para não dizer coisa pior... porque o contexto da declaração é de coisa pior, mesmo.

Eu não consigo pensar em diálogo com o presidente do Irã.

Não depois do que o fanatismo dessas pessoas fez com as mulheres iranianas.

Não depois de olhar a história de sua ascenção ao poder.

Os fundamentalistas não depuseram o Xá. Eles não participaram da organização da República.

Eles cobriram o Irã de uma camada de obscurantismo.

Azar Nafisi conta o que eles fizeram com as mulheres que resistiram às absurdas leis que reduziram a idade nupcial das mulheres para nove anos – é, nove anos de idade e uma iraniana pode ser entregue para casar -, deram aos maridos o direito de espancar, proibir, trancar e amordaçar – mordaças de couro, às vezes máscaras com abertura apenas para respirar – e, às milícias encarregadas dos costumes, o chicoteamento nas ruas.

As mulheres reagiram e se manifestaram, lado a lado com milhares de homens que não aceitaram o retrocesso. Elas iam para as passeatas; eram presas e chicoteadas. Centenas delas foram mortas – e, sob a alegação de que, se fossem virgens, iriam para o céu, eram entregues em “casamento” aos guardas das prisões, que as estupravam antes de matá-las. Mulheres consideradas adúlteras – muitas vezes por uma simples acusação do marido – eram metidas num saco e apedrejadas até morrer.

Lula se disse chocado com a condenação de Sakineh – considerada adúltera e condenada a morrer apedrejada – neste julho de 2010.

Antes tarde do que nunca, mas o governo dos aiatolás dura desde 1980, numa trilha sanguinária que inclui milhares de mulheres submetidas a crueldade e morte; soldados crianças, mandados deliberadamente para a morte explodindo minas terrestres na guerra com o Iraque; tortura e morte de homossexuais; mutilação de pessoas; prisão, confisco de bens e dos filhos, e morte para bahá’is, budistas e demais seguidores de religiões orientais.

A lista de atrocidades é longa, e a quantidade de vítimas sobe a centenas de milhares.

A distensão, verificada na última década, não mudou as leis. Apenas diminiu sua aplicação.

Lula faz de conta que não sabe de tudo isso.

Mas não saber é coisa grave para um presidente.

Lula diz que aceita o Irã porque é preciso dialogar para superar diferenças.

Mas, no caso, a questão não é de diálogo. É de justiça.

A violência indiscriminada contra as mulheres no Irã não é um simples assunto interno do Irã. O estupro legal de uma menina de nove anos não pode ser admitido. Dialogar com pessoas que defendem isso é impossível, porque a conversa já está comprometida desde o início.

Que o Irã queira chamar os Estados Unidos de Grande Satã – é problema dele. Que queira desafiar os controles do enriquecimento nuclear – também é problema dele. Mas não se pode admitir a violência legalizada a que as mulheres do Irã estão submetidas. E a questão não é islâmica – é de direitos humanos. E a grande maioria dos países islâmicos há muito abandonou essas práticas.

Nós, brasileiros, nos orgulhamos de nossa tolerância. Mas não podemos permitir que alguém se aproveite dessa tolerância para ser intolerante.

Também não podemos aceitar que, em nome das exportações, se reconheça como parceiro um regime atolado de sangue. Seria como vender princípios junto com o café.

Traduzindo: o pragmatismo tem limite. E este limite não é emotivo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A devoradora de árvores

A indústria brasileira do papel trabalha, em sua quase totalidade, com árvores plantadas, e metade do papel produzido é oriundo de reciclagem. Essas florestas são de árvores com alto teor de celulose. São florestas renováveis. Mas para chegar ao papel, principalmente o papel branco, opera com produtos químicos altamente contaminantes. Caulim, por exemplo. O consumo desnecessário de papel devora árvores – e não apenas pela extração direta.

Deste endereço: http://www.comciencia.br/200411/noticias/1/papel.htm, site da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que dá notícia sobre a sustentabilidade da indústria do papel, retirei a seguinte informação:

“Segundo dados da Associação Brasileira de Papel e Celulose (Bracelpa), existem 220 empresas de celulose e papel espalhadas por 16 estados brasileiros encarregadas de produzir os cerca de 38,2 quilos de papel consumidos anualmente por habitante, somando 6,8 milhões de toneladas para o consumo interno.”

São três quilos de papel por mês por habitante – do papel higiênico aos papéis especiais de maquetes, passando por todo o papel de escritório.

Esses três quilos de papel poderiam ser reduzidos em muito se a máquina estatal brasileira se dispusesse a fazê-lo. A papelada exigida pela Justiça Eleitoral para o registro de candidaturas é um exemplo disso. Na conta simples do blog “Espaço Aberto”, haveria uma média de 30 documentos por candidato. Desses documentos, exceto a folha de identificação e a declaração de aceite da candidatura, o restante é oriundo de órgãos oficiais – todos informatizados. Considerando que serão 500 candidatos nos Estados de menor colégio eleitoral até 3.000 nos de maior colégio (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais) teremos cerca de 21 mil candidatos apresentando, cada qual, mínimo de 30 folhas de papel. Serão 420 árvores – uma floresta, plantada ou não, só para alimentar o registro de candidaturas. Boa parte disso poderia ser eliminada por simples consultas entre os sistemas informatizados dos Tribunais.

Mas não é assim que funciona, no Brasil. Pior que as candidaturas são os convênios federais. Cada convênio exige cerca de 60 documentos. Quando um Estado, ou um Município, vai receber dinheiro da União – as chamadas transferências voluntárias – tem que apresentar toda a papelada, a cada convênio. São milhares de convênios para milhares de municípios. ONGs e os Estados. Há tempos, foi criado o CAUC, no Ministério do Planejamento – um cadastro único, informatizado. A idéia era que o Estado ou Município, ou ONG, fizesse a atualização diretamente no CAUC, digamos uma vez por mês, e a certidão expedida pelo cadastro substituísse a papelada. O que aconteceu? Os Ministérios continuaram pedindo todos documentos – e mais a certidão do CAUC.

Uma vez perguntei, em Brasília, para onde ia toda a papelada dos convênios. Eu estava justo no Ministério do Meio Ambiente. Descobri então um andar inteiro repleto de papel. Que ninguém lê. Eu não consegui, entretanto, descobrir a papelada dos Tribunais de Contas, para onde vão todas as prestações de contas e as cópias dos ditos convênios. Mas constatei que alguns carroceiros – isto mesmo, carroceiros, com jegues e tudo – percorrem os Ministérios recolhendo papel.

O que quero concluir é que a burocracia brasileira, registros eleitorais inclusive, é a grande devoradora de árvores. A redução dessa carga sobre o meio ambiente parece ser uma tarefa impossível. Mas a esperança é a última que morre...

domingo, 20 de junho de 2010

Perplexidades

Porque a Fifa estragou a Copa do Mundo? Excesso de ambição, talvez? Alguém me informa que a Fifa sempre muda a bola nas Copas, para conseguir mais gols, e, assim, tornar o futebol mais atraente. Eu nunca consegui entender porque o futebol deva ser mais atraente do que já é, com seus duelos entre a força e a habilidade, entre a criatividade e a disciplina, entre o poder coletivo e o poder individual, e, bailando entre todos esses duelos, o acaso, o golpe de sorte ou de azar. Já é tanto, que a maioria dos torcedores de verdade considera a melhor seleção que o Brasil já teve foi a de 1982, que perdeu uma Copa do Mundo. Do jeito que a Fifa age, ouve mais marqueteiros que torcedores; e o resultado foi esta horrível Copa.
Eu não me conformo de ver goleiros excelentes, passando vexames como se fossem peladeiros, engolindo pseudofrangos porque alguém achou que a bola deveria prejudicá-los. Uma bola que neutraliza toda a habilidade conseguida por atacantes e zagueiros, impede a organização de jogadas e transforma cada partida numa loteria. Virou questão de sorte acertar ou defender um chute. Isto não é futebol.
O resultado, que o mundo inteiro está vendo, é dois times, quaisquer que sejam, entrarem em campo com medo da bola.
Esta é a Copa do anti-futebol. Sem nenhuma beleza, e também sem gols.

Saramago ser considerado o grande escritor em língua portuguesa. Eu compreendo que ganhar um Nobel tem seu valor, mas nem todos os que ganharam esse prêmio são realmente excepcionais. Para mim, Oz, Hemingway e Saramago estão no segundo time, para citar três vencedores, bem longe de Garcia Marquez, Pamuk ou Kenzaburo Oe. Eu acabo de ler o segundo livro da portuguesa Inês Pedrosa; ela está só no começo da carreira, e é melhor que ele. Sem falar de Mia Couto e sua lírica abordagem moçambicana, e da plêiade de brasileiros, entre os quais eu não incluo Jorge Amado, aliás – mas Lia Luft, sim, e os maravilhosos Cecília e Drummond.
Talvez o Nobel tenha tornado Saramago um dinossauro, um medalhão. Mas é um dinossauro arrogante demais, tanto no seu jeito de ser, como na sua literatura.

Porque a recente propaganda do Governo Federal está tão parecida como a propaganda do mesmo Governo Federal nos idos de 1970? São arroubos nacionalistas, música grandiosa, verde-amarelismo esgotante. Nos 1970, estávamos numa ditadura; hoje, estamos numa democracia. Além disso, a patriotada, hoje, soa anacrônica: ninguém ignora que uma gigantesca multinacional pode mais que um pequeno país. Ou, se ignora, precisa cair na real – e a realidade é que, se, em 70, meia dúzia de países tinha uma boa receita a partir do aluguel de bandeiras para navegação, hoje são dezenas de países que alugam suas bandeiras para endereços eletrônicos. Porque isso, agora? Brasileiros, como qualquer um, gostarão muito de estar entre os grandes do mundo, mas brasileiros não se sacrificarão por isso. Há muito tempo o Brasil deixou de ser uma causa, para ser um lugar bem-amado. A causa é viver bem e decentemente.

Porque Dilma Roussef aceitou ser barbierizada? É verdade que a receita foi aplicada a Lula, que aceitou mudar sua postura pública para conseguir finalmente ganhar a eleição presidencial. É isso que dizem; mas, na verdade, Lula ganhou porque José Serra foi traído. E porque Fernando Henrique teve compostura ética e não fez o que Lula está fazendo: campanha eleitoral ilegal e antecipada. Lula é multado a cada sessão do TSE. Mesmo assim, a receita marqueteira para Lula só lhe mudou a roupa e aparou a barba e os cabelos. Dilma, não – dela só permanece a roupa, que já era de alta costura mesmo antes da candidatura. Rosto, cabelos, postura, tudo mudou. Na minha opinião, introduziu um toque de fraude que poderá ter para ela o mesmo resultado que teve a Fifa nesta horrorosa Copa do Mundo.

sábado, 13 de março de 2010

Lula e Cuba

Minha amiga me olhou furiosa quando lhe disse que não acreditava que o sistema de saúde de Cuba fosse o melhor do mundo. “Simples lógica – eu lhe disse – eu não conheço os números, mas os países nórdicos têm muito mais de tudo para ter um sistema melhor. E tenho a impressão que por lá as pessoas vivem mais tempo, e com uma boa qualidade de vida”. Ela então disse que eu estava esquecendo do embargo econômico. E aí seguiu-se um discurso que ouço desde meados do século passado. Eu não discuto mais essas coisas; é inútil. Para muitos brasileiros, Cuba é uma questão de paixão. Tipo Flamengo.

Para mim, Cuba foi uma referência nos primeiros anos de vida adulta. Eu li tudo o que pude sobre a ilha, a revolução, Fulgencio Batista, os americanos, até mesmo a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, que começou em Havana. Mas os anos se passavam, e Fidel Castro continuava no poder. Depois veio Kennedy e o episódio da baía dos Porcos. O que me chocou naquele episódio foi o armamento atômico posto em Cuba pelos soviéticos. Foi minha primeira decepção – como Fidel Castro pôde permitir uma tal exposição do povo cubano?

Nesse meio tempo, um outro fato contribuía para aluir minha referência. O banho de sangue chileno, na instalação da ditadura por lá. Quando Fidel assumiu, os fuzilamentos em massa comandados por Che Guevara nos chegavam tingidos de idealismo. Anos depois, quando Allende morreu no palácio incendiado, e os chilenos viviam os fuzilamentos em massa, eu compreendi de repente o que Fidel fizera em Cuba. O paredón crivado de balas atrás das pessoas vendadas era igual.

Vinham notícias pelas vias clandestinas: ah, o povo cubano adora Fidel! E eu pensava: os portugueses também adoram Salazar! Porque Salazar comparado a Fidel? Por uma questão de escala: Cuba e Portugal têm quase o mesmo tamanho – cerca de 100 mil metros quadrados – uma população equivalente, e, embora Portugal não seja uma ilha, depende do mar para tudo – ou tem que pedir licença para a Espanha. E por uma questão de semelhança política: Fidel e Salazar chegaram ao poder pela via militar, e ambos foram implacáveis com os adversários; ambos fizeram belíssimas reformas educacionais e colocaram os sistemas de saúde em dia; ambos censuraram tudo o que puderam, de anúncios a tratados técnicos. Ambos eram intransigentes defensores de uma causa: Fidel, a de Cuba socialista; Salazar, a de Portugal imperialista. Ao final, ambos governaram por quase meio século. E todos dois nunca pararam de falar em democracia... de extrema esquerda, o primeiro; de extrema direita, o segundo. E eu sei que as paralelas se encontram em algum lugar.

E, depois, os auto-exilados cubanos, povoando a Flórida. E os protestos contra o embargo comercial norte-americano – imposto, aliás, pelo Congresso dos Estados Unidos. Mas os soviéticos suprem Cuba! – eu pensava. Eram de 4 a 6 bilhões de dólares por ano em subsídios embutidos em preços irrisórios e cooperação gratuita. Cuba nunca teve que pagar caro combustível, nem com o choque do petróleo. Quando a fonte secou, com a queda do império soviético, a Venezuela e a China tentaram manter o dinheiro correndo. Era muito menos, mas, ainda assim, um ou dois bilhões de dólares anuais, representam uma considerável injeção de dinheiro sem encargos.

Cuba tem área equivalente à do Estado de Pernambuco. Em 2009, a estimativa da população residente em Pernambuco era de cerca de 9 milhões de pessoas; em Cuba, 11 milhões. O orçamento de 2009 em Pernambuco foi equivalente a 12 bilhões de dólares; podemos agregar aí algo entre 2 a 3 bilhões, oriundos de recursos da União aplicados diretamente no Estado. O orçamento de Cuba, a 47 bilhões. (Fontes: sites oficiais da Fazenda cubana e do governo pernambucano). Cuba não é, pois, tão pobrezinha assim: por pessoa, Cuba pode gastar cerca de 4.200 dólares por ano; Pernambuco, 1.700 dólares por ano. É óbvio que esta comparação não tem rigor acadêmico: faço-a apenas para estabelecer um paralelo com algo mais próximo de nós. Se compararmos o orçamento de Cuba ao de Portugal, a discrepância é brutal: em 2009, Portugal orçou 161 bilhões de euros – ao câmbio de 1,46, algo em torno de 230 bilhões de dólares. Pobre Pernambuco!

Desculpem a chatice dos dois parágrafos anteriores, mas é preciso sempre dar uma olhada nos números, porque são eles que confirmam – ou não – os discursos e as intenções dos governantes.

Sim, e depois? A guerra fria terminou. Ondas democráticas substituíram o duro chão das ditaduras sul-americanas. Os países começaram a navegar: anistias, julgamentos, pensamento aberto, perdão, reparação. Comunistas hastearam suas bandeiras por todo o continente, livres enfim de quase um século de perseguição. Todos navegam, menos Cuba. Nenhuma mão estendida para a solução dos impasses: ano após ano, Fidel cobra contas como se o fato de o mundo todo não estar contra os Estados Unidos fosse suficiente para ser devedor de Cuba.

Aí Fidel sai do governo. Ainda como Salazar, unge um herdeiro. Um golpe militar derrubou o herdeiro salazarista, e os cravos sinalizaram uma nova época para Portugal. O herdeiro fidelista continua. Relatórios insuspeitos mostram a piora da condição nutricional da população (OMS), aumento da mortalidade, a redução da produção cubana (ainda ONU) e etc – um nítido caminho para o esfacelamento. Minha amiga dirá: Culpa do embargo!

Mas este bordão não cola mais. Cuba, que desde os anos 90 comercia com o mundo todo – exceto os Estados Unidos – não consegue mais aguentar a fachada socialista. Os dirigentes latino-americanos sabem disso, e cada qual do seu lado, aproximam-se para conquistar um espaço na mudança que virá rapidamente. E foi isso o que Lula foi fazer em Cuba: negociar, entrar num mercado prestes a se abrir: o financiamento de um porto de 300 milhões de dólares, uma fábrica da Petrobrás por lá, disputando espaço com a Venezuela e com o México... Não sabiam? Pois é, o governo brasileiro não explica direito. Mas os estrangeiros estão de olho, e foi ninguém menos que Mário Vargas Llosa quem informou a agenda lulista.

Nada demais, digo eu e dizem vocês, ele está no seu papel.

Pois é. Mas o caso é que havia um morto e 84 famintos presos políticos no caminho. Eles pediram ajuda a Lula. E Lula recusou. Razões de Estado? Que razões são essas, meu Deus, que se alicerçam em cadáveres? Em que é proibida a caridade de uma esperança? Aqueles homens não são assassinos, nem ladrões, nem pedófilos ou estupradores. Eles defendem uma causa e se imolam por ela. São presos de consciência, porque há, sim, uma ditadura em Cuba.
Este presidente, que foi e está sendo incapaz de socorrer corretamente o Haiti, avança sobre Cuba em busca de lucros pisoteando liberdades. E se diz estadista... Para mim, ele virou um Bush barbado – deixou os escrúpulos, a vergonha e a consciência em algum lugar no passado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O legado de Neuton

O conhecimento vem de longe. Dos tempos de chumbo dos anos 70 – bem mais duros que os anos 60 – cimentado por Paulo Fontelles e José Luiz Guedes.

Nós, os católicos integrantes da JEC, JUC e depois Ação Popular, nos opúnhamos ferrenhamente ao PC, depois PCB e PC do B. A repressão nos enfiou no mesmo saco – ops!, nas mesmas celas. Foi quando nos conhecemos: uns por Deus, outros pela História, lutávamos pela dignidade, pela liberdade, pela integridade das pessoas e pela melhoria da vida das multidões. Nas prisões, o que menos importava era a razão da resistência; lutávamos, precisávamos lutar para salvaguardar companheiros, para manter esperanças acesas e a causa viva. Não importava se o lutador era o liberal Altino Dantas, ou a violenta Dilma Roussef, ou o cristianíssimo João Travassos. Ou, ainda, o radical Neuton Miranda.

É desde esse tempo, quarenta anos! que admiro e respeito Neuton Miranda. Dos tempos em que era necessário fazer chegar suprimentos à guerrilha, retirar pessoas marcadas de uma cidade cheia de barricadas, esconder crianças em caixas para que chegassem aos avós, misturar crianças com perseguidos para que estes pudessem escapar.

Quando começou a distensão, que se marcaram as eleições, uma vez eu conversava com Neuton e dizia: “Neuton, estou com medo. Está muito fácil...” E ele me respondia, tranquilo: “Temos que acreditar e avançar; não podemos perder a oportunidade; se estiveres com a razão, logo saberemos.” Soubemos logo que eu não tinha razão – logo a democracia voltava com a Constituição de 88.

Nossa relação era, pois, cimentada em crenças diferentes, mas objetivos comuns; a militância política desviou nosso caminho, promoveu encontros em diferentes momentos e desencontros em outros; no entanto, como dividimos uma vez o pão e o medo, guardava aquela confiança mútua que somente companheiros de trincheira podem ter.

Creio que posso falar hoje o que Neuton não gostaria que eu dissesse quando vivo. Íntegro, leal e correto em suas alianças – em que, aliás, sempre deixou claro serem temporárias, porque ele era um comunista e, como Niemayer, nunca abdicou disso – jamais criticou seus aliados de ocasião. Eu sempre respeitei seu comportamento. Mas hoje, com ele morto, sinto-me na obrigação de contar para todos os que me lêem as condições atrozes com que ele administrou a unidade regional da Secretaria de Patrimônio da União.

Bem, para começo de conversa, ele não tinha orçamento próprio. Seu orçamento estava dentro do Ministério do Planejamento que absolutamente nunca teve o Pará como prioridade. Para continuar a conversa: seu pessoal se resumia a meia dúzia de gatos pingados. E para finalizar: teria que administrar tirando leite de pedra, arranjando parceiros, se quisesse fazer alguma coisa.

Eu tinha ido lá, pela Paratur, preocupada com a situação da ilha das Onças, em processo de favelização do pior tipo, e tentar uma forma de começar a regularizar a ocupação das ilhas fronteiriças a Belém. Neuton não tinha condições sequer de formalizar um convênio. Fiquei horrorizada. Neuton, entretanto, me expôs um projeto ambicioso, e me disse: vou fazer. E fez o que foi possível, dobrou vontades, arranjou parceiros, e morreu fazendo pessoas muito pobres felizes por nunca mais terem que se defrontar com o fantasma da expulsão.

Políticos como ele, que resistem às derrotas eleitorais e resistem à corrupção do poder; que enfrentam as dificuldades com a coragem necessária – das armas à palavra, da palavra ao trabalho silencioso sobre a papelada, mas sempre uma medida de esforço geralmente ignorada – representam o que de melhor temos no povo brasileiro.

E é por isso que, mesmo sendo de outro partido, ocasionalmente em oposição ao PC do B, escrevo estas linhas: para preservar o legado de integridade e coragem que um político como Neuton Miranda nos deixa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Chávez e Barata

Reza a lenda que o tenente Barata, interventor no Estado do Pará nos idos de 30, precisava encontrar um secretário de Agricultura. Caudilhesco, populista, fiel ao princípío básico do tenentismo, que consistia em erradicar as oligarquias de qualquer maneira, dando vez aos pobres, escolheu para o cargo, numa audiência pública, um lavrador semi-analfabeto. Lameira Bittencourt, um culto oligarca - que seria mais tarde procurador da República, senador, e cuja tese sobre eutanásia é até hoje citação obrigatória em trabalhos sobre o assunto - era considerado a “sombra” de Barata. Chocado, com a sala cheia, Lameira sussurra para Barata: “Mas governador, o homem não tem o anel!”- querendo referir-se, discretamente, que o homem não era formado em faculdade. Barata, bate-pronto, manda comprar um anel, coloca-o no dedo do escolhido e diz: “Pronto, agora ele já tem anel. Mande fazer o decreto de nomeação!”

Diz a lenda ainda que Barata costumava percorrer Belém com o secretário a tiracolo selecionando áreas para expropriação. Via um grande terreno, mandava expropriar e ali mesmo indicava as pessoas para quem entregar as terras. Acompanhar Barata era uma loteria que podia render um terreno – ele vivia com o povo atrás. A lenda conta ainda que algumas pessoas que emergiram com o tenentismo logo se apropriariam dessas terras – comprando-as a preço de banana dos novos proprietários – e, mais adiante, se tornariam pilares da sociedade burguesa.

Eu falo em lenda porque essas histórias são da tradição oral do povo paraense: trinta anos de baratismo no Estado foram de censura, truculência, perseguições políticas, destruição de jornais e queima de livros. Pouco sobrou de registros independentes – só na memória do povo, que pode enfeitar a História, mas a mantém viva.

Essas coisas me vieram à lembrança na leitura dos jornais de hoje, reproduzindo o programa de rádio matinal de Hugo Chávez: “Exproprie-se!” – e o povo atrás, tentando acertar na loteria.

O século é outro, mas o método é o mesmo. O que me leva a crer que nós, povos latino-americanos, vivemos uma espécie de nostalgia imperial. A natural evolução da História – da tribo ao clã, do clã ao barão, do barão ao rei, do rei à constituição - aqui foi truncada pela colonização européia. Não é sem razão que os pobres chamam os milionários de “barões”: no fundo, apesar das eleições, sentem-se vassalos. Dos patrões, dos ricos, dos filantropos talvez. Passam a vida recolhendo o que cai das mesas, tentando um golpe de sorte – como, por exemplo, agradar ao Supremo Magistrado para merecer benesses que este distribui, de forma ostensiva, como Barata e Chávez, ou de forma mais sutil, como Perón e Lula. Quase cem anos de intervalo entre os primeiros e os segundos: os “descamisados” viraram “excluídos”, mas o lema de que tudo se resolve com militância bem formada em escolas ou organizações continua de pé.

Não queiram ver nestas linhas um pessimismo que não existe. A evolução humana tem passos curtos e lentos – dois passos à frente e um atrás, segundo Mao Tse Tung – mas ela vai adiante. Brasil, Argentina e Venezuela evoluíram muito neste quase século – em qualidade de vida, em opção política, em civilização. Mas não há como fugir da dialética hegeliana aplicada à História - ou dialética marxista, se preferirem.

É sempre triste ver o momento do passo atrás, porque este é puxado por âncoras culturais profundas, modelos antigos, hábitos arraigados, ignorância. O que consola é que este retrocesso talvez seja essencial para a continuidade de um povo. E que, queiram ou não os caudilhos de plantão, como mostra a historinha do começo deste texto, a censura nada pode sobre a memória de um povo.

sábado, 5 de dezembro de 2009

De panetones e pensamentos

Aparício Torelli começa:
"A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele".

O romano Catão comenta:
“Os ladrões de bens particulares passam a vida na prisão e acorrentados; aqueles de bens públicos, nas riquezas e nas honrarias”.

Antonio Vieira observa:
“Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência”.

Aparteia Bill Gates:
"O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair."

Mas Benjamim Constant volta para o foco:
“Os depositários do poder têm uma disposição desagradável a considerar tudo o que não é eles como uma facção. Eles chegam a incluir às vezes a própria nação nessa categoria”.

La Rochefoulcault reflete:
“Raramente conhecemos uma pessoa de bom senso além daquelas que concordam conosco”.

Stanislaw Ponte Preta reforça:
“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.

Jean-Jacques Rousseau abranda:
“O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece.”

Georges Clemenceau brada:
“A democracia? Sabem o que é? O poder dos piolhos comerem os leões!”

Napoleão Bonaparte objeta:
“Não tenhais medo do povo. Ele é mais conservador do que vós”.
E acrescenta:
“O erro está nos meios, bem mais que nos princípios”.

Volta Aparício:
"O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato”.

E o Marquês de Maricá acrescenta:
“Há duas coisas que não se perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade e a apostasia”.

Roberto Campos, ácido:
“A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro brilhante”.

Maquiavel comenta:
“O primeiro método para estimar a inteligência dos governantes é olhar para os homens que tem à sua volta.”

E Getúlio Vargas:
“No Ministério há homens capazes. O problema é que alguns são capazes de tudo.”

Aparício comenta logo:
“Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio!”

Giordano Bruno murmura:
“Que ingenuidade, pedir para quem tem o poder para mudar o poder!”

E Aparício, de volta:
“Os vivos são e serão, sempre, governados pelos mais vivos”.

Nelson Rodrigues, amargo:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...”

E Aparício conclui:
“O Brasil é feito por nós. Só falta desatar os nós..."

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A hora de sair

Grande parte da boa imagem histórica de um político está na forma – e na hora – que ele escolheu para sair de cena. É preciso uma boa dose de humildade e autocrítica para isso. Artigo, aliás, geralmente inexistente nos aceiros de vaidade, hoje mascarados pelo marketing defensivo, que habitam o coração da maioria daqueles que, por esta ou aquela razão, sobressaem-se dos demais.

George Simenon, no seu “O Presidente” (que não é um livro policial, note-se) detem-se sobre o processo superveniente ao afastamento: a mágoa, o cultivo de rancores, a perda progressiva de importância, a visão perspectiva da importância do esforço – quanto mais o tempo passa, menos importante se torna a crise pontual -, a contabilidade das perdas pessoais e, finalmente, a constatação de que os documentos escondidos, para defesa pessoal ou para o ataque a terceiros já não significam nada. O anônimo presidente criado pelo escritor lança-os ao fogo e se entrega à morte. Acabou.

Não posso deixar de pensar em outro livro, “Porque almocei meu pai”, de Roy Lewis, sociólogo militante e literato bissexto. Lewis reflete sobre o canibalismo do poder, no início do tempo humano. E juntá-los a um terceiro: “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, um livro extraordinário sobre nós, os brasileiros.

Em trinta anos no jornalismo testemunhei quedas e afastamentos de vários todo-poderosos circunstanciais. Raros conseguiram ultrapassar o limiar da porta de saída com tranquilidade. Estes geralmente souberam a hora de cair fora, interpretaram corretamente os indicadores para ceder a vez. Alguns preocuparam-se em deixar marcas: seu nome inscrito aqui e ali, numa rua, num bairro, num edifício, num livro. Outros postaram-se no centro do mundo e de lá não saíram, falando de si mesmos e suas realizações a todos e qualquer um, sem perceber que, com isso, tornavam o círculo de ouvintes cada vez menor. Outros ainda debruçaram-se sobre suas memórias, esquecidos do basilar princípio do jornalismo: old news, no news. Nada mais chato que a política passada – quem duvidar, que leia “O assassinato do general Pinheiro Machado”, livro que consiste na sessão de júri para julgar o assassino, e que foi publicado pelo furor que o julgamento causou, na época. Mesmo agora, em que a internet estabeleceu uma nova temporalidade para a notícia, em quatro dias ela se esgota.

A maioria se entregou ao “meu tempo” e ao desafeto. E, nessa maioria, extremados tornaram objetivo de vida pequenas vinganças, que, em alguns, chega a enxovalhar a própria biografia.

Tive um colega de jornal, o Luiz Paulo Freitas, dono de uma curiosidade insaciável e de uma memória do mesmo porte, que não perdia de vista os caídos, e nos informava sobre eles. Quase sempre na frase tinha um “coitado!” – e com essa palavra ele definia o sofrimento do apeado com a saída.

Havia quem não fosse “coitado!” – os que decidiram fazer outra coisa, viraram a página, dedicaram-se ao que lhes era possível com alegria e felicidade, encontraram seu lugar. Como Fernando Henrique, por exemplo. Sabem o que ele faz, hoje? Continua perseguindo o sonho da coalizão da América Latina. Ao lado de quatro outros ex-presidentes (entre eles Oscar Arias, Nobel da Paz) promove encontros, reuniões e debates em busca da paz continental. Esses cinco homens souberam reconhecer seus limites e sua importância. A porta de saída serviu-lhes de porta de entrada para outro espaço, onde mantém sua contribuição.

Comparando-se a Sarney, que se tornou um títere embalsamado em vida...


PS - Eli, mande-me seu e-mail!

sábado, 18 de julho de 2009

Conversa de cachorro

Percorro a internet e me deparo com uma página sob o título de “Amicão”: cães treinados para ajudar nas terapias de crianças com síndrome de Down, de idosos deprimidos e até de doentes.

Abro meu e-mail e uma apresentação em PPS me informa que nunca devo me distrair um cão-guia, nem me aproximar pelo lado errado.

Uma miçanga de Mia Couto desabafa: não sou eu o dono do cão, é o cão que me arrasta pela trela; eu lhe dou banho, comida e água, e todos os elogios são para ele; eu sou seu dono ou seu servo, afinal? – pergunta o escritor.

O Google me informa que a palavra “cão” tem 110 milhões de referências. O que, multiplicado pelos 6 mil idiomas falados no mundo (segundo a ONU) dá um número de arrepiar – principalmente considerando que a palavra “homem” só tem 48 milhões de referências, ou seja, menos da metade.

Uma vez vi, num castelo, dezenas de pinturas de cães de caça. Não eram cenas de caça, eram retratos, com o nome do cachorro inscrito na tela. Com assinaturas famosas, porque pinturas mandadas fazer por reis e príncipes. Eram retratos de favoritos ou de heróis – estes haviam tirado o patrono de algum aperto de caça.

Coisa pouca, se compararmos com os milhões de fotografias de cachorros que ocupam sites de relacionamento, porta-retratos domésticos, telas de tevê e até out-doors.

E coisa antiga, pois os cães de hoje não são a sombra do que eram antes. Porque, dos vertebrados modificados pelo homem, meu palpite é que só as galinhas e os bois tenham sido geneticamente mais alterados que os cães.

Um dos sites que visito contém uma longa lista de “raças reconhecidas” como tal e os respectivos padrões. Descubro que há cães que inevitavelmente sofrerão deste ou daquele mal, porque está inscrito na genética daquela raça. Cães produzidos especialmente para esta ou aquela finalidade – cruzados e recruzados para apurar determinadas características, ou eliminar outras.

Tenho a impressão que com a engenharia genética será mais fácil – ou mais terrível, dependendo do ponto de vista. Talvez até que um grande estúdio de cinema encomende e consiga um Cérbero de carne e osso, e o mítico cão de seis cabeças, guardião das portas do inferno, viva o tempo certo para rodar as cenas da travessia dantesca.

Tudo é possível quando se trata de humanos.

Até um concurso para saber qual o cachorro mais feio do mundo – the ugliest – e o vencedor é certamente inconteste: a língua é pendente, pelo lado da boca, o focinho fino é encimado por dois enormes olhos sob um tufo de pelos que parece uma crista. Nem por isso – seus donos são carinhosos e enchem de elogios o cachorro, cuja pele é rosada, com pelos esparsos e malhas marrons.

Dizem que nas cidades brasileiras há um cão para cada cinco habitantes, e a maior parte deles está nas ruas. E eu fico pensando porque temos cães e porque gostamos tanto deles – falo como coletivo, porque é muito raro encontrar alguém que deteste completamente os cachorros.

Muita gente afirma que os cães são companhia, amigos fiéis, ou são guardas, ou são colaboradores, etc etc. A meu ver, este é o lado nobre, racional e razoável de amar os cães. Penso que talvez haja o lado escuro da força: à falta de humanos e antes que cheguem os robôs, os cães suprem a demanda pelos escravos, usados para todas as finalidades que o bem ou o mal, gerados pelo cérebro humano, inventam.

E o leitor perguntará porque, afinal, estou com esta conversa de cachorro, agora.
Respondo: é porque, diante das cachorradas que estão fazendo Lula e Sarney, é melhor falar de cães.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Planeta ameaçado

Alguém me diz que o planeta está ameaçado.

Aí me lembro: “choverá fogo e enxofre se continuarem nesta vida” – frase que teria sido pronunciada há três mil anos, por um dos profetas bíblicos.

Alguém sempre quer consertar o mundo. Faz parte, acho, do impulso civilizatório, que não é, nem mais nem menos, o uso da inteligência como equipamento de sobrevivência.

Leio Blaise Cendars (“Hollywood”), e ele descreve uns Estados Unidos do início do século XX bem semelhantes ao Brasil do início do século XXI. Quer dizer, semelhantes nos problemas. Este livrinho de Cendars é precioso: nele está registrado, com paternidade e tudo, o início da paixão norte-americana pelas estatísticas.

Só que há um século de diferença. A razão está nos trópicos? Ou na praxis religiosa? Ou na cultura original? Alguns milênios de conhecimento consolidado ainda não foram capazes de decifrar, ou talvez até de mapear, a complexidade da história humana.

Talvez porque a história tem sempre um ponto de vista, que é o do sobrevivente.

Mesmo assim...

Autoridades se reuniram mais uma vez num cemitério em território francês para lembrar que nunca tantos deveram tanto a tão poucos. Este interminável culto aos guerreiros não ameaça o planeta tanto quanto a poluição? Que glória há em destruir?

Que faremos nós – perguntavam-se as autoridades do pós-guerra, na segunda metade do século XX – com estes homens condecorados, mas que só sabem correr riscos e destruir? Que faremos nós com estes milhares e milhares de homens empregados em funções de vigilância e guarda, em todo o Brasil, quando for exigido das mãos deles algo mais que segurar um cassetete ou uma arma de fogo?

Nos pós-guerras do século XX, como ainda hoje ocorre, milhares e milhares de homens se mataram, simplesmente porque a guerra os tornou incapazes de viver em paz.

Violência é violência, tanto faz contra bandido como contra inimigo.

Alguém me diz que está tudo errado.

Não sei se tudo, mas há alguma coisa de muito errado no medo cotidiano. E não será com mais e mais armamentos que se vai resolver este medo.

No entanto...

Há um século, sem dúvida vivia-se pior que hoje. Todos.

Serão os nossos problemas apenas inevitáveis partes deste ciclo? Ou nos parecem maiores porque sabemos mais?

Este drama está na saúde: se as populações inteiras são advertidas que é possível prevenir doenças mediante exames regulares, vão exigir, com toda razão, exames regulares. Se não há como atender à demanda, instala-se uma crise. Mas a civilização não caminha de crise em crise? Mas, e até a crise gerar sua consequência criadora, o que acontece? Ou quando a crise desemboca na aniquilação, como na ilha de Páscoa, cujas estátuas são o que restou de presença humana, e não houve sobreviventes para contar a história?

Recebo abaixo-assinados: pela liberdade religiosa na Birmânia, contra a crueldade com os animais, contra a fome em países miseráveis... e ainda penso que o Brasil poderia fazer muito mais pelo Haiti além de fornecer soldados para as forças de paz. Certo, o engajamento eletrônico talvez dê algum resultado. Faz parte do ciclo, e afinal de contas, ser contra ou a favor sem armas nas mãos é melhor do que atirar granadas.

Faz parte do ciclo também governar com um instituto de pesquisa de opinião emitindo relatórios quase diários. Excesso de democracia, ou simplesmente paz na terra?

Mas a maioria sempre arroz-com-feijão. E aí, o que acontecerá com as idéias de
vanguarda, que permitem traçarem-se estratégias de longo prazo?

Talvez que este seja o perigo real do planeta. Talvez.