Mostrando postagens com marcador futebol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador futebol. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de julho de 2014

Os legados da copa


As teorias conspiratórias: Leonardo Sakamoto criou a melhor de todas no seu blog, tipo o livro de Dan Brown, o "Código da Vinci". Se ele desenvolvesse o tema, quem sabe, conseguiria outro best seller. Mas há pelo menos meia dúzia de outras, tentando explicar como é que o Brasil só não amarelou porque já é amarelo, mas virou mamão passado do ponto.

A discussão política: vai atravessar a campanha eleitoral e, como sempre, pouca coisa restará dela. Há ideias e ideais, mas há, sobretudo, uma enorme incapacidade de trabalho a médio prazo. Torcedor, jogador e cartola querem resultados rápidos e imediatos. Então, tudo fica pelo meio do caminho. E esporte não é exatamente uma prioridade política, a não ser para ocupar garotos de periferia...

Os elefantes brancos: temos agora um rebanho deles. No conto infantil, o grande elefante branco é derrotado por um leão vegetariano. Creio que teremos que importar indianos: só eles conseguem fazer os elefantes trabalharem e pagarem seu sustento. Bem, dentro de dois anos teremos o torneio de futebol olímpico e eles funcionarão de novo. Mas, oh, tristeza! Eles com certeza precisarão de reformas e ajustes...

A desmistificação da Fifa: de repente o Brasil descobriu que, apesar da grama dos campos de futebol ser baixinha, não é pouco o que tem de coelho escondido e saindo desse matinho para as cartolas cada vez mais altas dos dirigentes. Essa desmistificação é ótima: a Fifa caminha para não ser a última palavra em futebol. Podemos falar grosso com ela, agora.

Um gosto amargo para o futebol: e não é por causa da Alemanha. Apesar da goleada, não conseguimos ficar com raiva deles. O gosto amargo foi trazido pela farra da Fifa no Brasil, o que inclui a ladroeira nos ingressos. Descobrimos, de repente, que o esporte que é a nossa alegria é apenas um grande negócio escuso para quem dirige. Que o torcedor é tratado como otário a ser depenado. Principalmente se está do lado de baixo do Equador...

Uma porção de obras inacabadas: talvez elas terminem antes das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Nos outros locais provavelmente vão entrar novamente no ritmo usual, isso se não caírem, como o viaduto mineiro. Do que foi feito, ficam os aeroportos e algumas obras de mobilidade. Não sei ao certo quais: desde maio que a página de obras do Portal da Copa não é atualizada.

Uma nova imagem internacional: a imagem do país Brasil melhorou um pouquinho nos quesitos realização e democracia. E a do povo brasileiro ganhou muitos pontos positivos. Talvez que afinal vá sobrar coisa boa dessa história toda, se o fluxo turístico de fato aumentar.

A confraternização com os povos americanos: possivelmente a melhor coisa que a copa nos proporcionou. Os torcedores dos nove países com seleções na copa vieram – a maioria, creio, pela primeira vez – ver de perto o monstruoso Brasil, considerado pelos sulamericanos como imperialista e pelos norteamericanos como terra do fim do mundo. E começaram a demolir o preconceito, da mesma forma como nós, brasileiros, começamos a vê-los com outros olhos.

O nosso lugar: estamos entre as quatro melhores seleções do mundo, mas, diferentemente da Colômbia ou dos Estados Unidos, numa curva descendente. Se aproveitarmos o legado, poderemos reverter a curva; se não, será o declínio.

E, finalmente, a conta: em janeiro de 2013, o site “Os amigos do presidente Lula” informava que as despesas com a Copa seriam 22,46 bilhões de reais, que seriam largamente compensados pela entrada, na economia, de 142 bilhões entre 2010 e 2014.  Bem, esse estudo foi igual ao que baseou a decisão de comprar a refinaria de Pasadena: os 142 bilhões não entraram – os mais de dois bilhões de recursos que seriam trazidos pelos turistas previstos não vieram, apesar da invasão argentina - e a despesa subiu para 27 bilhões de reais, segundo o Tribunal de Contas da União. Bem, o Coríntians terá que pagar o custo dos investimentos no Itaquerão, dizem. E eu digo: é mesmo? Pago pra ver... Só o tempo dirá se valeu a pena.


domingo, 6 de julho de 2014

Joaquim e a Copa


Foi o julgamento de dois juízes corruptos, que haviam injustamente condenado Susana, que marcou o início da atividade profética de Daniel – assim conta a Bíblia, numa história que estabelece a diferença entre o bom e o mau juiz, a importância da busca pela verdade dos fatos e a necessidade de questionar os poderosos.

Bons juízes fazem muita diferença. E é por isso que Joaquim Barbosa fará falta. O homem que sai de alma leve das mais altas esferas do poder deixou mais leve também a alma deste país. Embora, como explicou uma vez Mao Tse Tung (não sei se por inspiração própria, se apenas reproduzindo um mote de algum sábio chinês), sempre se dá um passo atrás depois de dois passos à frente: na hora do passo atrás tudo parece perdido, mas você de fato avançou um passo. E é assim, passo a passo, que se mudam sociedades.

Se Joaquim leu ou não a história de Susana, pouco importa: ele exerceu os princípios estabelecidos pelo profeta Daniel há mais de cinco mil anos. Princípios que o emaranhado de leis brasileiras oculta frequentemente por meio dos dribles recursais. Uma palavra não vale mais que outra, esta é a essência da mensagem da história de Susana. Há que ancorá-las em fatos. Há que entender esses fatos e descobrir a intenção oculta sob a mentira. E agir com uma única preocupação: ser justo, fazer cumprir o pacto social, expresso na lei, no regulamento ou no regimento.

É difícil, creio, fazer isso num campo de futebol. Mas se os juízes – tecnicamente chamados de árbitros, mas sempre juízes – tivessem respeitado essa preocupação e esses princípios não teríamos o show de faltas que atingiu o seu clímax na dramática lesão de Neymar. Fizessem eles cumprir a regra básica do futebol, que é o menor contato físico possível entre os jogadores, e teríamos, com certeza, jogos melhores, mais bonitos, mais criativos, porque bem menos violentos. Graças a esses maus juízes o talento é punido: os grandes atacantes ficam imobilizados pelas faltas. Como James Rodríguez, no mesmo Brasil x Colômbia. De um modo geral, os árbitros desta Copa se preocuparam com coisas que não são de sua alçada: evitar suspensões de craques para os espetáculos finais, evitar magoar as torcidas... Com isso, fizeram prevalecer a força sobre a técnica de jogo. E puniram a habilidade e o talento.

Joaquim Barbosa foi só um bom juiz. Tivéssemos mais desses e não teríamos achado tão surpreendente a sua atuação. Seria normal o exercício inaugurado pelo profeta Daniel: não se fiar, nem se intimidar, com as aparências e com o poder, seja este político ou econômico, mas procurar o justo nos limites do pacto social que é a lei. Na Copa, o que estamos vendo é a tolerância com o desrespeito ao pacto. E podemos medir que a consequência é desastrosa.


Mas, como assinalou Mao, embora Levandowisk assuma a presidência do Supremo, um dos dois passos dados à frente ficará. A alma não fica completamente leve, mas, com certeza, menos pesada.

domingo, 29 de junho de 2014

Sem razão


Um quarto da população mundial começa os jejuns do Ramadã, o Brasil inaugura o tempo da política com as convenções partidárias para a escolha de candidatos e quem quer saber disso? Festeiro como sempre, o Brasil arruma uma porção de meios feriados ou até feriados inteiros para assistir futebol. Quer dizer, assistir, assistir mesmo, só uma parte. A maioria se diverte e uma minoria ganha dinheiro. Inclua-se nessa minoria uns bons milhões de pessoas que aproveitam a festa dos outros para engordar seus orçamentos com horas extras, vendas de comidas e bebidas, gorjetas, corridas de táxis, participação em shows e outros.

Não há razão alguma para tanto, mas, novamente, quem quer saber disso? Blaise Pascal disse que o coração tem razões que a própria razão desconhece, João Gilberto colocou isso em música e o futebol transforma a frase em explicação. Razões? Não, paixões. Química especial na fisiologia humana. A paixão não dá razões, mas sensações.

O balconista da padaria mais próxima olhou a tevê e disse algo como: esses caras ganham milhões, eu é que não vou ficar assistindo. Isso foi antes de começarem os jogos. Depois... bem, depois ele consegue juntar-se à unanimidade contra o Fred.

Suárez fez um enorme sacrifício para chegar à copa. Depois mordeu a própria corda. Despedaçou suas chances. Por quê? Como diz o anúncio, porque sim. Descontrole emocional. Paixão. Esses caras que ganham milhões – ou nem tanto, como é o caso da maioria deles – também perdem a cabeça de vez em quando.

Políticos profissionais conseguem perceber facilmente o alcance da paixão popular, quando o circo é importante e quando não é. Dilma aproveita a paixão para consolidar metade do horário eleitoral gratuito na tevê. Obama tira uma foto vendo o jogo (só a foto, acredito, porque para quem gosta de basquete o futebol é muito chato) de olho nos eleitorados do sul dos Estados Unidos. Angela Merkel visita os alemães, a família real inglesa manda um representante para cumprir a agenda, a rainha da Bélgica se deixa fotografar torcendo. Os presidentes de Gana e Nigéria arranjam um jeito de pagar as dívidas com os jogadores (por lá, a corrupção no futebol é tanta que não dá para acreditar em promessas de cartolas).

Fizeram o dever de casa, todos eles. Por quê? Multidões apaixonadas podem deter uma guerra, Drogba provou isso na Costa do Marfim. Ou podem conduzir a uma guerra – e, neste aspecto, cada país europeu tem sua história para contar. Não dá para ignorar, nem para brincar, com a paixão.

Mas dá para fazer negócio. Arriscado, é verdade: a Espanha transformou em dinheiro a derrota e calcula em 600 milhões os euros que deixou de ganhar com a desclassificação. Mas, se der certo, os resultados serão melhores que a média, tanto para o encartolado da Fifa como para o vendedor de cachorro quente. É como operar a bolsa de valores. A pessoa pode ir, passo a passo, comprando e vendendo papéis seguros e ganhando pouco. Ou pode arriscar e ganhar muito ou perder tudo. Na bolsa, como no negócio do futebol, há um componente de risco alto, essência de paixão: você pode preparar a festa e depois ter que jogar tudo no lixo. Ou se divertir como nunca.

Sem razão, naturalmente. Puramente sensacional.

sábado, 21 de junho de 2014

Copa globalizada


É uma copa estranha. Em todas as transmissões, em todos os jogos, desfilam os nomes de clubes europeus, maiores ou menores. O que provocou um comentário de um leitor de Kfouri: não são os jogadores, mas o futebol que se joga lá que está distante anos-luz do que se joga aqui.

A partir desse comentário passei a assistir os jogos de outra maneira. Eu gosto de futebol e até hoje não entendo como é que o sistema escolar brasileiro – todo ele, todo – caminha de costas para esse esporte, preferindo outros jogos coletivos, num país onde uma criança aprende a chutar uma bola logo nos primeiros passos, às vezes antes. Eu gosto do jogo longo, da sua dificuldade, da parcimônia das regras e da possibilidade que premia tanto o esforço como o talento. E porque gosto de futebol passei a procurar, no conjunto das 32 seleções que estão por aqui, os sinais dessa diferença de anos-luz entre o primeiro e os outros mundos.

Bem, a maioria das seleções reúne jogadores daqui e dali, arrumados de alguma maneira em campo por um treinador competente. O treinador da Bósnia confessa que, na falta de jogadores, teve que caçar pelo mundo craques que tivessem antepassados bósnios recentes e se ater com o que conseguiu. Mesmo a humilde Costa Rica tem parte de seus jogadores atuando em clubes europeus. O resultado é que quase todas as seleções apresentam desníveis internos severos que aparecem de repente na perda incrível de um gol feito, na incapacidade técnica de controlar a bola, na cabeça baixa do jogador titubeante e no frango engolido por um goleiro surpreso.

Mas o comentário também me levou a uma outra estranheza: é uma copa latina de futebol europeu. Os comentaristas falam em escolas de futebol, mas o que tenho visto é um padrão. Esse padrão é pragmático e eficiente; é tolerante com o anti-jogo para parar o adversário; considera a falta como indispensável em determinadas situações; e chama de agarra-agarra o verdadeiro vale-tudo nas cobranças de escanteio.

Em futebol o feio é perder?

Se assim fosse alguns times não teriam mais torcedores. No entanto as fiéis continuam emprestando seu prestígio e comprando ingressos para ver derrotas, empates, uma ou outra vitória. Por isso acredito que em futebol o feio é não jogar. As vaias contra os times e seleções que ganham tempo e se fecham na defesa me fazem crer que a maioria também pensa como eu.

E aqui volto ao tema: cadê a escola latino-americana do futebol? Cadê aquele futebol rápido, envolvente, às vezes catimbeiro e às vezes brilhante, em que o preparo e o vigor físicos do jogador não são usados para impedir o outro de jogar, mas para impor a própria técnica sobre o adversário? Cadê a escola asiática, que usa a velocidade para compensar a estatura e pouca massa muscular?  Serão assim tão anos-luz piores da europeia?

Tenho a impressão que o que estamos vendo hoje no Brasil é somente mais um aspecto da globalização: uma elite mundial do futebol, que joga na Europa e que, eventualmente, veste a camisa do país onde nasceu ou tem raízes, para se apresentar em uma composição diferente da habitual num mega-evento.

O que, de fato, está a anos-luz do futebol que jogamos por aqui. Porque não tem paixão alguma rolando dentro de campo. Só na torcida.





domingo, 18 de maio de 2014

Uma copa sai da cartola


Pão e circo, diziam os romanos, acalmam a plebe. Mas eles mesmos concluíram que nem sempre, e tiveram que impor a paz romana, uma variedade de paz que consistia, simplesmente, em matar os revoltosos e descontentes.

O governo tira o circo – ops, a copa! – da cartola esportiva. Isto acalmará a plebe?

Os experientes romanos sabiam que acalmaria, sim – mas só enquanto o espetáculo durasse. Por isso dispunham suas legiões com estratégia: para os veteranos da campanha da Gália, Júlio César deu terras em torno de Roma. Assim, premiando, ele montou um círculo de ferro em torno da cidade. Se os ex-legionários foram capazes de produzir trigo e vinho, não sei; mas Roma sob Júlio nunca se revoltou.

A copa está chegando mas quase todos os brasileiros vão ver os jogos do mesmo jeito que viram nas últimas copas: pela tevê. Uns poucos irão aos estádios, cercados por policiais na ida e na volta. Dilma, Blatter e todos os outros serão vaiados. Nada contra, não, senhor: pura farra.  As plateias serão brasileiras, porque a grande promessa turística de um evento desta magnitude deu chabu. Há uma companhia aérea na Europa que está oferecendo passagens para o Brasil na copa com 70% de desconto! Os ingressos vendidos na Europa estão sendo revendidos aqui mesmo, como mostrado na tevê. E eu me pergunto quem é que tem dinheiro para comprar um ingresso por três mil reais... ou melhor, me pergunto se o dinheiro que compra um ingresso por três mil reais é legítimo.

É uma copa escandalosa, essa, que sai da cartola esportiva. Um coelho dourado devorador de dinheiro. O Brasil espera 600 mil turistas, me informa o Financial Times de Nova Iorque. Se cada um deles gastar no Brasil dois mil reais, teremos uma entrada de receita de 1,2 bilhão – muito, muito menos do que já se gastou para recebê-los.

E o maior legado da copa são os grandes circos – ops, estádios! – onde não pisarão, por certo, nossos humildes clubes de futebol, mesmo que se reconheça que são eles que sustentam a paixão brasileira pelo jogo. Ah, se esse dinheiro dos gigantescos estádios fosse aplicado em pequenos estádios nos municípios, o quanto poderíamos avançar no esporte!

Mas o que mais me impressiona é a espécie de apatia que tomou conta do país nesta fase, em que pese os esforços das televisões e seus anunciantes. Apatia não só em relação à copa mas, também, em torno das festas juninas. Meados de maio e os estoques estão encalhados. Da copa e do caipira.  O termômetro da animação está baixo.

São os protestos? Penso que talvez tenham alguma coisa a ver, mas o que vejo na população é cansaço, exasperação, uma inquietação irritada e intolerante. E me pergunto: quando o coelho voltar para a cartola o circo terá acalmado a plebe?


sábado, 3 de julho de 2010

Pós-Copa

De repente, o Brasil perdeu, e não havia revolta.
Alguma tristeza, sim, mas nem de longe comparada às outras vezes. A torcida recolheu suas bandeiras, fantasias, e no dia seguinte se consolou com a goleada alemã. Rápido, fácil, como se tivesse consciência de... de que?
Algo mudou.
Talvez porque essa seleção que foi para a África seja de brasileiros, mas não seja brasileira. São jogadores reconhecidos; triunfaram no primeiro mundo; alguns já têm dupla nacionalidade. São jogadores até amados e admirados pelas torcidas. Mas estão longe demais, tanto no quotidiano dos jogos, como no nível de renda, do comum dos jogadores brasileiros, para serem identificados com o país. Ou com a torcida, que só muito raramente os vê jogar, e pela televisão, e defendendo outras cores que não as do Flamengo, Coríntians, Vasco, Palmeiras...
O clamor para a convocação de Ganso tem a ver com essa proximidade, assim como a torcida pelo Uruguai – na verdade, pelo bem próximo Loco Abreu. Jogam aqui, conhecemos seus altos e baixos, do que é capaz e do que não é.
Mas há algo mais.
Federações, confederações, técnicos, cartolas e jogadores mostraram-se perfeitamente conformados com duas aberrações: uma bola torta, defeituosa, inadequada para o futebol, e um péssimo nível de arbitragem. Todas as seleções foram prejudicadas, em algum momento, por essa bola. Pelo menos três seleções foram diretamente prejudicadas pela arbitragem ruim. Mas a Adidas anuncia recorde de vendas da Jabulani, no melhor estilo “reclamem, mas me comprem, lixe-se o mundo todo”, e a FIFA explica, com o maior cinismo, que os árbritros trazidos de locais onde o futebol ainda é uma promessa são parte de um plano para disseminar o esporte...
Que, no Brasil, é cada vez menos esporte para ser exporte.
Por mera curiosidade, fui xeretar o que é direito federativo e direito econômico nos contratos de jogadores. Concluí que jogador é quase um servo moderno: da feita que assina um contrato, passa a ser uma pessoa a ser explorada. Como um barranco de garimpo: se der ouro, ganha o garimpeiro, o dono do barranco e todas as pessoas que participam dos direitos. Se não der, fica o vínculo até o final do prazo – encostado ali.
Garotos do sub-sub-sub, apenas apresentam algum talento, já são comprometidos, pelos clubes, com grupos econômicos. Então não é de se espantar quando aparece numa grande seleção um Cacau, um Túlio Tanaka, que passou por clubes brasileiros e de quem nunca se ouviu falar. Eles não puderam nem se apresentar ao torcedor...
Talvez que isso seja a forma moderna de gerenciar o esporte, talvez.
Mas o resultado é uma seleção de brasileiros, em vez de uma seleção brasileira.
Eu acredito sinceramente que esses jogadores, ao vestir a camisa amarela, se emocionem em pensar no Brasil. Mas esse sentimento é misturado com toda a expectativa financeira que vem junto com a camisa vitoriosa. É mau, isso? Creio que não, mas seria melhor que essa expectativa não estivesse em final de carreira, ou estivesse em pessoas que estão em vias de se projetar para o mundo.
Isso não aconteceu desta vez. Possivelmente é uma das razões para o rápido conformismo da torcida, o resfriamento rápido de um entusiasmo que sequer chegou a encher o espaço frente ao telão do Copacabana.
Pressinto que o torcedor gostaria mais de uma seleção cheia de altos e baixos, mas com a maioria dos jogadores saídos do Campeonato Brasileiro do que uma cheia de vitoriosos da Liga Européia.
E, com certeza, jogando com a bola adequada e árbitros competentes.

domingo, 20 de junho de 2010

Perplexidades

Porque a Fifa estragou a Copa do Mundo? Excesso de ambição, talvez? Alguém me informa que a Fifa sempre muda a bola nas Copas, para conseguir mais gols, e, assim, tornar o futebol mais atraente. Eu nunca consegui entender porque o futebol deva ser mais atraente do que já é, com seus duelos entre a força e a habilidade, entre a criatividade e a disciplina, entre o poder coletivo e o poder individual, e, bailando entre todos esses duelos, o acaso, o golpe de sorte ou de azar. Já é tanto, que a maioria dos torcedores de verdade considera a melhor seleção que o Brasil já teve foi a de 1982, que perdeu uma Copa do Mundo. Do jeito que a Fifa age, ouve mais marqueteiros que torcedores; e o resultado foi esta horrível Copa.
Eu não me conformo de ver goleiros excelentes, passando vexames como se fossem peladeiros, engolindo pseudofrangos porque alguém achou que a bola deveria prejudicá-los. Uma bola que neutraliza toda a habilidade conseguida por atacantes e zagueiros, impede a organização de jogadas e transforma cada partida numa loteria. Virou questão de sorte acertar ou defender um chute. Isto não é futebol.
O resultado, que o mundo inteiro está vendo, é dois times, quaisquer que sejam, entrarem em campo com medo da bola.
Esta é a Copa do anti-futebol. Sem nenhuma beleza, e também sem gols.

Saramago ser considerado o grande escritor em língua portuguesa. Eu compreendo que ganhar um Nobel tem seu valor, mas nem todos os que ganharam esse prêmio são realmente excepcionais. Para mim, Oz, Hemingway e Saramago estão no segundo time, para citar três vencedores, bem longe de Garcia Marquez, Pamuk ou Kenzaburo Oe. Eu acabo de ler o segundo livro da portuguesa Inês Pedrosa; ela está só no começo da carreira, e é melhor que ele. Sem falar de Mia Couto e sua lírica abordagem moçambicana, e da plêiade de brasileiros, entre os quais eu não incluo Jorge Amado, aliás – mas Lia Luft, sim, e os maravilhosos Cecília e Drummond.
Talvez o Nobel tenha tornado Saramago um dinossauro, um medalhão. Mas é um dinossauro arrogante demais, tanto no seu jeito de ser, como na sua literatura.

Porque a recente propaganda do Governo Federal está tão parecida como a propaganda do mesmo Governo Federal nos idos de 1970? São arroubos nacionalistas, música grandiosa, verde-amarelismo esgotante. Nos 1970, estávamos numa ditadura; hoje, estamos numa democracia. Além disso, a patriotada, hoje, soa anacrônica: ninguém ignora que uma gigantesca multinacional pode mais que um pequeno país. Ou, se ignora, precisa cair na real – e a realidade é que, se, em 70, meia dúzia de países tinha uma boa receita a partir do aluguel de bandeiras para navegação, hoje são dezenas de países que alugam suas bandeiras para endereços eletrônicos. Porque isso, agora? Brasileiros, como qualquer um, gostarão muito de estar entre os grandes do mundo, mas brasileiros não se sacrificarão por isso. Há muito tempo o Brasil deixou de ser uma causa, para ser um lugar bem-amado. A causa é viver bem e decentemente.

Porque Dilma Roussef aceitou ser barbierizada? É verdade que a receita foi aplicada a Lula, que aceitou mudar sua postura pública para conseguir finalmente ganhar a eleição presidencial. É isso que dizem; mas, na verdade, Lula ganhou porque José Serra foi traído. E porque Fernando Henrique teve compostura ética e não fez o que Lula está fazendo: campanha eleitoral ilegal e antecipada. Lula é multado a cada sessão do TSE. Mesmo assim, a receita marqueteira para Lula só lhe mudou a roupa e aparou a barba e os cabelos. Dilma, não – dela só permanece a roupa, que já era de alta costura mesmo antes da candidatura. Rosto, cabelos, postura, tudo mudou. Na minha opinião, introduziu um toque de fraude que poderá ter para ela o mesmo resultado que teve a Fifa nesta horrorosa Copa do Mundo.