Porque a Fifa estragou a Copa do Mundo? Excesso de ambição, talvez? Alguém me informa que a Fifa sempre muda a bola nas Copas, para conseguir mais gols, e, assim, tornar o futebol mais atraente. Eu nunca consegui entender porque o futebol deva ser mais atraente do que já é, com seus duelos entre a força e a habilidade, entre a criatividade e a disciplina, entre o poder coletivo e o poder individual, e, bailando entre todos esses duelos, o acaso, o golpe de sorte ou de azar. Já é tanto, que a maioria dos torcedores de verdade considera a melhor seleção que o Brasil já teve foi a de 1982, que perdeu uma Copa do Mundo. Do jeito que a Fifa age, ouve mais marqueteiros que torcedores; e o resultado foi esta horrível Copa.
Eu não me conformo de ver goleiros excelentes, passando vexames como se fossem peladeiros, engolindo pseudofrangos porque alguém achou que a bola deveria prejudicá-los. Uma bola que neutraliza toda a habilidade conseguida por atacantes e zagueiros, impede a organização de jogadas e transforma cada partida numa loteria. Virou questão de sorte acertar ou defender um chute. Isto não é futebol.
O resultado, que o mundo inteiro está vendo, é dois times, quaisquer que sejam, entrarem em campo com medo da bola.
Esta é a Copa do anti-futebol. Sem nenhuma beleza, e também sem gols.
Saramago ser considerado o grande escritor em língua portuguesa. Eu compreendo que ganhar um Nobel tem seu valor, mas nem todos os que ganharam esse prêmio são realmente excepcionais. Para mim, Oz, Hemingway e Saramago estão no segundo time, para citar três vencedores, bem longe de Garcia Marquez, Pamuk ou Kenzaburo Oe. Eu acabo de ler o segundo livro da portuguesa Inês Pedrosa; ela está só no começo da carreira, e é melhor que ele. Sem falar de Mia Couto e sua lírica abordagem moçambicana, e da plêiade de brasileiros, entre os quais eu não incluo Jorge Amado, aliás – mas Lia Luft, sim, e os maravilhosos Cecília e Drummond.
Talvez o Nobel tenha tornado Saramago um dinossauro, um medalhão. Mas é um dinossauro arrogante demais, tanto no seu jeito de ser, como na sua literatura.
Porque a recente propaganda do Governo Federal está tão parecida como a propaganda do mesmo Governo Federal nos idos de 1970? São arroubos nacionalistas, música grandiosa, verde-amarelismo esgotante. Nos 1970, estávamos numa ditadura; hoje, estamos numa democracia. Além disso, a patriotada, hoje, soa anacrônica: ninguém ignora que uma gigantesca multinacional pode mais que um pequeno país. Ou, se ignora, precisa cair na real – e a realidade é que, se, em 70, meia dúzia de países tinha uma boa receita a partir do aluguel de bandeiras para navegação, hoje são dezenas de países que alugam suas bandeiras para endereços eletrônicos. Porque isso, agora? Brasileiros, como qualquer um, gostarão muito de estar entre os grandes do mundo, mas brasileiros não se sacrificarão por isso. Há muito tempo o Brasil deixou de ser uma causa, para ser um lugar bem-amado. A causa é viver bem e decentemente.
Porque Dilma Roussef aceitou ser barbierizada? É verdade que a receita foi aplicada a Lula, que aceitou mudar sua postura pública para conseguir finalmente ganhar a eleição presidencial. É isso que dizem; mas, na verdade, Lula ganhou porque José Serra foi traído. E porque Fernando Henrique teve compostura ética e não fez o que Lula está fazendo: campanha eleitoral ilegal e antecipada. Lula é multado a cada sessão do TSE. Mesmo assim, a receita marqueteira para Lula só lhe mudou a roupa e aparou a barba e os cabelos. Dilma, não – dela só permanece a roupa, que já era de alta costura mesmo antes da candidatura. Rosto, cabelos, postura, tudo mudou. Na minha opinião, introduziu um toque de fraude que poderá ter para ela o mesmo resultado que teve a Fifa nesta horrorosa Copa do Mundo.
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domingo, 20 de junho de 2010
sábado, 5 de dezembro de 2009
De panetones e pensamentos
Aparício Torelli começa:
"A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele".
O romano Catão comenta:
“Os ladrões de bens particulares passam a vida na prisão e acorrentados; aqueles de bens públicos, nas riquezas e nas honrarias”.
Antonio Vieira observa:
“Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência”.
Aparteia Bill Gates:
"O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair."
Mas Benjamim Constant volta para o foco:
“Os depositários do poder têm uma disposição desagradável a considerar tudo o que não é eles como uma facção. Eles chegam a incluir às vezes a própria nação nessa categoria”.
La Rochefoulcault reflete:
“Raramente conhecemos uma pessoa de bom senso além daquelas que concordam conosco”.
Stanislaw Ponte Preta reforça:
“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.
Jean-Jacques Rousseau abranda:
“O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece.”
Georges Clemenceau brada:
“A democracia? Sabem o que é? O poder dos piolhos comerem os leões!”
Napoleão Bonaparte objeta:
“Não tenhais medo do povo. Ele é mais conservador do que vós”.
E acrescenta:
“O erro está nos meios, bem mais que nos princípios”.
Volta Aparício:
"O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato”.
E o Marquês de Maricá acrescenta:
“Há duas coisas que não se perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade e a apostasia”.
Roberto Campos, ácido:
“A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro brilhante”.
Maquiavel comenta:
“O primeiro método para estimar a inteligência dos governantes é olhar para os homens que tem à sua volta.”
E Getúlio Vargas:
“No Ministério há homens capazes. O problema é que alguns são capazes de tudo.”
Aparício comenta logo:
“Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio!”
Giordano Bruno murmura:
“Que ingenuidade, pedir para quem tem o poder para mudar o poder!”
E Aparício, de volta:
“Os vivos são e serão, sempre, governados pelos mais vivos”.
Nelson Rodrigues, amargo:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...”
E Aparício conclui:
“O Brasil é feito por nós. Só falta desatar os nós..."
"A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele".
O romano Catão comenta:
“Os ladrões de bens particulares passam a vida na prisão e acorrentados; aqueles de bens públicos, nas riquezas e nas honrarias”.
Antonio Vieira observa:
“Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência”.
Aparteia Bill Gates:
"O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair."
Mas Benjamim Constant volta para o foco:
“Os depositários do poder têm uma disposição desagradável a considerar tudo o que não é eles como uma facção. Eles chegam a incluir às vezes a própria nação nessa categoria”.
La Rochefoulcault reflete:
“Raramente conhecemos uma pessoa de bom senso além daquelas que concordam conosco”.
Stanislaw Ponte Preta reforça:
“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.
Jean-Jacques Rousseau abranda:
“O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece.”
Georges Clemenceau brada:
“A democracia? Sabem o que é? O poder dos piolhos comerem os leões!”
Napoleão Bonaparte objeta:
“Não tenhais medo do povo. Ele é mais conservador do que vós”.
E acrescenta:
“O erro está nos meios, bem mais que nos princípios”.
Volta Aparício:
"O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato”.
E o Marquês de Maricá acrescenta:
“Há duas coisas que não se perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade e a apostasia”.
Roberto Campos, ácido:
“A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro brilhante”.
Maquiavel comenta:
“O primeiro método para estimar a inteligência dos governantes é olhar para os homens que tem à sua volta.”
E Getúlio Vargas:
“No Ministério há homens capazes. O problema é que alguns são capazes de tudo.”
Aparício comenta logo:
“Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio!”
Giordano Bruno murmura:
“Que ingenuidade, pedir para quem tem o poder para mudar o poder!”
E Aparício, de volta:
“Os vivos são e serão, sempre, governados pelos mais vivos”.
Nelson Rodrigues, amargo:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...”
E Aparício conclui:
“O Brasil é feito por nós. Só falta desatar os nós..."
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
A hora de sair
Grande parte da boa imagem histórica de um político está na forma – e na hora – que ele escolheu para sair de cena. É preciso uma boa dose de humildade e autocrítica para isso. Artigo, aliás, geralmente inexistente nos aceiros de vaidade, hoje mascarados pelo marketing defensivo, que habitam o coração da maioria daqueles que, por esta ou aquela razão, sobressaem-se dos demais.
George Simenon, no seu “O Presidente” (que não é um livro policial, note-se) detem-se sobre o processo superveniente ao afastamento: a mágoa, o cultivo de rancores, a perda progressiva de importância, a visão perspectiva da importância do esforço – quanto mais o tempo passa, menos importante se torna a crise pontual -, a contabilidade das perdas pessoais e, finalmente, a constatação de que os documentos escondidos, para defesa pessoal ou para o ataque a terceiros já não significam nada. O anônimo presidente criado pelo escritor lança-os ao fogo e se entrega à morte. Acabou.
Não posso deixar de pensar em outro livro, “Porque almocei meu pai”, de Roy Lewis, sociólogo militante e literato bissexto. Lewis reflete sobre o canibalismo do poder, no início do tempo humano. E juntá-los a um terceiro: “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, um livro extraordinário sobre nós, os brasileiros.
Em trinta anos no jornalismo testemunhei quedas e afastamentos de vários todo-poderosos circunstanciais. Raros conseguiram ultrapassar o limiar da porta de saída com tranquilidade. Estes geralmente souberam a hora de cair fora, interpretaram corretamente os indicadores para ceder a vez. Alguns preocuparam-se em deixar marcas: seu nome inscrito aqui e ali, numa rua, num bairro, num edifício, num livro. Outros postaram-se no centro do mundo e de lá não saíram, falando de si mesmos e suas realizações a todos e qualquer um, sem perceber que, com isso, tornavam o círculo de ouvintes cada vez menor. Outros ainda debruçaram-se sobre suas memórias, esquecidos do basilar princípio do jornalismo: old news, no news. Nada mais chato que a política passada – quem duvidar, que leia “O assassinato do general Pinheiro Machado”, livro que consiste na sessão de júri para julgar o assassino, e que foi publicado pelo furor que o julgamento causou, na época. Mesmo agora, em que a internet estabeleceu uma nova temporalidade para a notícia, em quatro dias ela se esgota.
A maioria se entregou ao “meu tempo” e ao desafeto. E, nessa maioria, extremados tornaram objetivo de vida pequenas vinganças, que, em alguns, chega a enxovalhar a própria biografia.
Tive um colega de jornal, o Luiz Paulo Freitas, dono de uma curiosidade insaciável e de uma memória do mesmo porte, que não perdia de vista os caídos, e nos informava sobre eles. Quase sempre na frase tinha um “coitado!” – e com essa palavra ele definia o sofrimento do apeado com a saída.
Havia quem não fosse “coitado!” – os que decidiram fazer outra coisa, viraram a página, dedicaram-se ao que lhes era possível com alegria e felicidade, encontraram seu lugar. Como Fernando Henrique, por exemplo. Sabem o que ele faz, hoje? Continua perseguindo o sonho da coalizão da América Latina. Ao lado de quatro outros ex-presidentes (entre eles Oscar Arias, Nobel da Paz) promove encontros, reuniões e debates em busca da paz continental. Esses cinco homens souberam reconhecer seus limites e sua importância. A porta de saída serviu-lhes de porta de entrada para outro espaço, onde mantém sua contribuição.
Comparando-se a Sarney, que se tornou um títere embalsamado em vida...
PS - Eli, mande-me seu e-mail!
George Simenon, no seu “O Presidente” (que não é um livro policial, note-se) detem-se sobre o processo superveniente ao afastamento: a mágoa, o cultivo de rancores, a perda progressiva de importância, a visão perspectiva da importância do esforço – quanto mais o tempo passa, menos importante se torna a crise pontual -, a contabilidade das perdas pessoais e, finalmente, a constatação de que os documentos escondidos, para defesa pessoal ou para o ataque a terceiros já não significam nada. O anônimo presidente criado pelo escritor lança-os ao fogo e se entrega à morte. Acabou.
Não posso deixar de pensar em outro livro, “Porque almocei meu pai”, de Roy Lewis, sociólogo militante e literato bissexto. Lewis reflete sobre o canibalismo do poder, no início do tempo humano. E juntá-los a um terceiro: “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, um livro extraordinário sobre nós, os brasileiros.
Em trinta anos no jornalismo testemunhei quedas e afastamentos de vários todo-poderosos circunstanciais. Raros conseguiram ultrapassar o limiar da porta de saída com tranquilidade. Estes geralmente souberam a hora de cair fora, interpretaram corretamente os indicadores para ceder a vez. Alguns preocuparam-se em deixar marcas: seu nome inscrito aqui e ali, numa rua, num bairro, num edifício, num livro. Outros postaram-se no centro do mundo e de lá não saíram, falando de si mesmos e suas realizações a todos e qualquer um, sem perceber que, com isso, tornavam o círculo de ouvintes cada vez menor. Outros ainda debruçaram-se sobre suas memórias, esquecidos do basilar princípio do jornalismo: old news, no news. Nada mais chato que a política passada – quem duvidar, que leia “O assassinato do general Pinheiro Machado”, livro que consiste na sessão de júri para julgar o assassino, e que foi publicado pelo furor que o julgamento causou, na época. Mesmo agora, em que a internet estabeleceu uma nova temporalidade para a notícia, em quatro dias ela se esgota.
A maioria se entregou ao “meu tempo” e ao desafeto. E, nessa maioria, extremados tornaram objetivo de vida pequenas vinganças, que, em alguns, chega a enxovalhar a própria biografia.
Tive um colega de jornal, o Luiz Paulo Freitas, dono de uma curiosidade insaciável e de uma memória do mesmo porte, que não perdia de vista os caídos, e nos informava sobre eles. Quase sempre na frase tinha um “coitado!” – e com essa palavra ele definia o sofrimento do apeado com a saída.
Havia quem não fosse “coitado!” – os que decidiram fazer outra coisa, viraram a página, dedicaram-se ao que lhes era possível com alegria e felicidade, encontraram seu lugar. Como Fernando Henrique, por exemplo. Sabem o que ele faz, hoje? Continua perseguindo o sonho da coalizão da América Latina. Ao lado de quatro outros ex-presidentes (entre eles Oscar Arias, Nobel da Paz) promove encontros, reuniões e debates em busca da paz continental. Esses cinco homens souberam reconhecer seus limites e sua importância. A porta de saída serviu-lhes de porta de entrada para outro espaço, onde mantém sua contribuição.
Comparando-se a Sarney, que se tornou um títere embalsamado em vida...
PS - Eli, mande-me seu e-mail!
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Virada
Recebo o ano novo com o impossível chegando à minha casa: a partir do dia 6 de janeiro, concertos ao vivo na sala de jantar.
A iniciativa é da Filarmônica de Berlim, que, nesse dia, vai abrir sua sala digital de concertos. Não é preciso mais ir lá, para ver e ouvir. Basta pagar o ingresso eletrônico, e se instalar no sofá.
Não é a mesma coisa. Não, não é como você estar no show, com toda uma atmosfera cercando, a multidão voltada se entusiasmando ou se frustrando como um ente só. Mas este primeiro passo, que naturalmente abrirá caminho para todos os concertos, de todos os estilos – do rock ao reggae, do erudito ao gregoriano – vence o tempo de um golpe só. Pois eu terminara o ano descobrindo a existência de um violinista húngaro, em fim de carreira, que foi premiado com um Stradivarius porque sabia tocá-lo como raros o fazem – do qual, porque eu vivo do outro lado do mundo, nunca ouvira falar. É que passam-se anos até que o som emitido do outro lado do mundo chegue até nós... e mesmo as grandes celebridades, só as conhecemos quando já na metade final da carreira.
Eu amo isso: tecnologia a serviço da beleza.
O ano me chega, também, com um novo estilo literário apontando nas livrarias. Não sei como se chamará. Ele acabou de nascer. É sempre bonito ver uma coisa nova inaugurando o seu dia, como disse Cabral de Mello, principalmente quando essa coisa nova é de nascimento tão raro que às vezes passam-se séculos sem que aconteça.
Um livro recém-lançado, da brasileira Fal Azevedo (“Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”) condensa o estilo, originado diretamente das páginas web. É uma forma de escrever aparentemente fragmentada – essa é a sua principal característica – com fortes vínculos no cotidiano. Uma escrita feita de instantâneos, por assim dizer. Com poesia e reflexões permeando fatos. Exatamente como a miscelânea da net, onde cada pobre mortal retira os pedacinhos para compor sua própria história.
Este novo estilo – que talvez até seja um novo gênero, mais adiante – lança para o ostracismo alguns clássicos, é verdade: quem se acostuma com a condensação da rede tem dificuldade para as longuíssimas digressões de Dostoyevski ou as páginas de descrições de Dumas. Mas renova a literatura, e vai alcançar um público que está muito longe, hoje, das editoras.
Por isso, apesar da violência encurralar Belém, tanto no Pará, como em Judá – não descreio do novo ano. Ele começa com rumo e talvez, quem sabe, seja feliz.
O que desejo para todos vocês.
A iniciativa é da Filarmônica de Berlim, que, nesse dia, vai abrir sua sala digital de concertos. Não é preciso mais ir lá, para ver e ouvir. Basta pagar o ingresso eletrônico, e se instalar no sofá.
Não é a mesma coisa. Não, não é como você estar no show, com toda uma atmosfera cercando, a multidão voltada se entusiasmando ou se frustrando como um ente só. Mas este primeiro passo, que naturalmente abrirá caminho para todos os concertos, de todos os estilos – do rock ao reggae, do erudito ao gregoriano – vence o tempo de um golpe só. Pois eu terminara o ano descobrindo a existência de um violinista húngaro, em fim de carreira, que foi premiado com um Stradivarius porque sabia tocá-lo como raros o fazem – do qual, porque eu vivo do outro lado do mundo, nunca ouvira falar. É que passam-se anos até que o som emitido do outro lado do mundo chegue até nós... e mesmo as grandes celebridades, só as conhecemos quando já na metade final da carreira.
Eu amo isso: tecnologia a serviço da beleza.
O ano me chega, também, com um novo estilo literário apontando nas livrarias. Não sei como se chamará. Ele acabou de nascer. É sempre bonito ver uma coisa nova inaugurando o seu dia, como disse Cabral de Mello, principalmente quando essa coisa nova é de nascimento tão raro que às vezes passam-se séculos sem que aconteça.
Um livro recém-lançado, da brasileira Fal Azevedo (“Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”) condensa o estilo, originado diretamente das páginas web. É uma forma de escrever aparentemente fragmentada – essa é a sua principal característica – com fortes vínculos no cotidiano. Uma escrita feita de instantâneos, por assim dizer. Com poesia e reflexões permeando fatos. Exatamente como a miscelânea da net, onde cada pobre mortal retira os pedacinhos para compor sua própria história.
Este novo estilo – que talvez até seja um novo gênero, mais adiante – lança para o ostracismo alguns clássicos, é verdade: quem se acostuma com a condensação da rede tem dificuldade para as longuíssimas digressões de Dostoyevski ou as páginas de descrições de Dumas. Mas renova a literatura, e vai alcançar um público que está muito longe, hoje, das editoras.
Por isso, apesar da violência encurralar Belém, tanto no Pará, como em Judá – não descreio do novo ano. Ele começa com rumo e talvez, quem sabe, seja feliz.
O que desejo para todos vocês.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Pasmem!
A alma se renova quando a gente se depara com um escritor como Ohan Pamuk. Foi preciso que ele recebesse o Nobel, em 2006, para que traduzissem seus livros e a gente o descobrisse, dois anos depois. “Meu nome em vermelho” é um arabesco: “...essas formas em conjunto, (que) constituem um padrão infinto que se estende para além do mundo visível e material”. É pura arte islâmica, com as técnicas do século XX, o que nos torna mais compreensível o que diz. Ao mesmo tempo, é a arte atemporal da literatura, a arte universal das letras:
“... o tremor nervoso dos caracteres traçados com cólera por minha amada, a progressão das curvas que, da direita para a esquerda, se contorcem e se ligam para melhor urdir seus enganos.”
“É o mais longe a que se pode chegar na pintura, é ver o que aparece na própria escuridão de Alá”.
“... o homem, qualquer que seja o seu amor, sempre acaba esquecendo um rosto que fica muito tempo sem ver.”
“Ao tentar pintar o cavalo perfeito (o pintor) revela seu amor à riqueza deste mundo e a seu criador, utilizando as cores da paixão pela vida. Somente isso e nada mais.”
****
Mas Pamuk se torna um oásis secreto, quando a gente entra no Banco do Brasil. Agora, uma máquina distribui as senhas: você é classificado pelo saldo médio. Baixa renda: suba escadas e entre na fila. Aos poucos, que o espaço é pequeno. Dois atendentes, que você tem mais é que esperar. Alta renda: quatro atendentes, conforto e rapidez. Pior: na senha do baixa-renda está escrito: “atendimento preferencial”...
E mais distante fica ainda este oásis quando você assiste um júri absolver o mandante de um assassinato, que obviamente fez um acordo com o pistoleiro para se safar da condenação. Onde colocar a revolta? Em baixo do tapete, principalmente agora que uma medida provisória legaliza praticamente toda a grilagem de terras na Região Norte, aumentando para 1.500 hectares a legalização de posses ocupadas. Sojeiros, sudanzeiros, madeireiros, festejai! E os demais, que pasmem!
“... o tremor nervoso dos caracteres traçados com cólera por minha amada, a progressão das curvas que, da direita para a esquerda, se contorcem e se ligam para melhor urdir seus enganos.”
“É o mais longe a que se pode chegar na pintura, é ver o que aparece na própria escuridão de Alá”.
“... o homem, qualquer que seja o seu amor, sempre acaba esquecendo um rosto que fica muito tempo sem ver.”
“Ao tentar pintar o cavalo perfeito (o pintor) revela seu amor à riqueza deste mundo e a seu criador, utilizando as cores da paixão pela vida. Somente isso e nada mais.”
****
Mas Pamuk se torna um oásis secreto, quando a gente entra no Banco do Brasil. Agora, uma máquina distribui as senhas: você é classificado pelo saldo médio. Baixa renda: suba escadas e entre na fila. Aos poucos, que o espaço é pequeno. Dois atendentes, que você tem mais é que esperar. Alta renda: quatro atendentes, conforto e rapidez. Pior: na senha do baixa-renda está escrito: “atendimento preferencial”...
E mais distante fica ainda este oásis quando você assiste um júri absolver o mandante de um assassinato, que obviamente fez um acordo com o pistoleiro para se safar da condenação. Onde colocar a revolta? Em baixo do tapete, principalmente agora que uma medida provisória legaliza praticamente toda a grilagem de terras na Região Norte, aumentando para 1.500 hectares a legalização de posses ocupadas. Sojeiros, sudanzeiros, madeireiros, festejai! E os demais, que pasmem!
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Arte, o mistério
Atores disléxicos, pintores sem mãos e um nobel de literatura que confessa, semvergonhamente, que jamais conseguiu dominar a ortografia de sua língua-mãe, tendo necessidade sempre de alguém que lhe corrigisse os erros...
No entanto, quem discutirá a qualidade incrível dessas pessoas? Diz-se que da Vinci era um pintor displicente: dedicava-se mesmo à invenção, particularmente de equipamento bélico. E, no entanto...
Alguém disse uma vez que produzir uma obra de arte leva um por cento de inspiração e o restante, de transpiração. Mas não é verdade. Embora haja necessidade de trabalho, manual ou intelectual, a obra de arte traz um selo específico que a diferencia de todo o resto. Inclusive de suas cópias.
Jamais ninguém conseguiu definir com clareza qual o componente que faz com que entre dezenas de quadros, centenas de livros, milhares de peças teatrais, milhões de músicas, nasça aquela que é, de fato, arte. É impalpável e indizível: alguma coisa secreta e misteriosa que nos faz admirar, mesmo sem entender, mesmo sem ter idéia do que se trata. Uma ponte de sensibilidade na essência do que é humano: e mesmo não gostando da agressividade das cores, você pára diante de Miró.
Nunca antes a produção intelectual da humanidade esteve tão ao alcance das pessoas como hoje. Do lixo ao luxo, a rede de computadores apresenta de tudo. Inclusive um concerto sinfônico com um guitarrista no solo: pura arte, que faria Richard Wagner levantar-se do túmulo para ouvir, conversar e talvez morrer de novo, de pura inveja – porque talvez que a guitarra fosse uma nota faltante para os angustiados violinos da abertura da Tannhäuser.
Ou estará completa uma obra de arte, para sempre? As milhares de interpretações para a Ave-Maria de Bach são, afinal, o que? A melodia é a mesma, mas em torno dela, para além dela, sob ela, a liberdade de fazer transforma, gera outras sensações e efeitos. Serão mais arte para a arte original? E, afinal de contas, o que faz da Ave-Maria de Bach ser tão amada?
Leio as cartas de Clarice Lispector para suas irmãs, lembro Aracy Balabanian dizendo “Meus filhinhas!” e constato que a despreocupação intelectual de Clarice ao escrever para suas queridas não impede o rigor sintático que é uma das faces de seu talento. As cartas não foram escritas para ser literatura, mas são: a síntese narrativa em que se desenvolvem demonstram a cepa de onde vieram. São cartas que falam de trivialidades, e mesmo assim, são incomuns. A diferença, creio, está em Clarice.
Mas apenas creio; arte é ato de fé, sem explicação plausível e racional. Assim, posso crer no que quiser sobre a arte, que não fará a menor diferença. Porque a arte é o maior mistério humano, o abismo das sensações aberto diante de nós, para mergulhar planando e desafiar todos os limites sem conseguir enumerar nenhum.
No entanto, quem discutirá a qualidade incrível dessas pessoas? Diz-se que da Vinci era um pintor displicente: dedicava-se mesmo à invenção, particularmente de equipamento bélico. E, no entanto...
Alguém disse uma vez que produzir uma obra de arte leva um por cento de inspiração e o restante, de transpiração. Mas não é verdade. Embora haja necessidade de trabalho, manual ou intelectual, a obra de arte traz um selo específico que a diferencia de todo o resto. Inclusive de suas cópias.
Jamais ninguém conseguiu definir com clareza qual o componente que faz com que entre dezenas de quadros, centenas de livros, milhares de peças teatrais, milhões de músicas, nasça aquela que é, de fato, arte. É impalpável e indizível: alguma coisa secreta e misteriosa que nos faz admirar, mesmo sem entender, mesmo sem ter idéia do que se trata. Uma ponte de sensibilidade na essência do que é humano: e mesmo não gostando da agressividade das cores, você pára diante de Miró.
Nunca antes a produção intelectual da humanidade esteve tão ao alcance das pessoas como hoje. Do lixo ao luxo, a rede de computadores apresenta de tudo. Inclusive um concerto sinfônico com um guitarrista no solo: pura arte, que faria Richard Wagner levantar-se do túmulo para ouvir, conversar e talvez morrer de novo, de pura inveja – porque talvez que a guitarra fosse uma nota faltante para os angustiados violinos da abertura da Tannhäuser.
Ou estará completa uma obra de arte, para sempre? As milhares de interpretações para a Ave-Maria de Bach são, afinal, o que? A melodia é a mesma, mas em torno dela, para além dela, sob ela, a liberdade de fazer transforma, gera outras sensações e efeitos. Serão mais arte para a arte original? E, afinal de contas, o que faz da Ave-Maria de Bach ser tão amada?
Leio as cartas de Clarice Lispector para suas irmãs, lembro Aracy Balabanian dizendo “Meus filhinhas!” e constato que a despreocupação intelectual de Clarice ao escrever para suas queridas não impede o rigor sintático que é uma das faces de seu talento. As cartas não foram escritas para ser literatura, mas são: a síntese narrativa em que se desenvolvem demonstram a cepa de onde vieram. São cartas que falam de trivialidades, e mesmo assim, são incomuns. A diferença, creio, está em Clarice.
Mas apenas creio; arte é ato de fé, sem explicação plausível e racional. Assim, posso crer no que quiser sobre a arte, que não fará a menor diferença. Porque a arte é o maior mistério humano, o abismo das sensações aberto diante de nós, para mergulhar planando e desafiar todos os limites sem conseguir enumerar nenhum.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Desejo de Natal
Foi a Adelina Braglia, amiga de muitos anos, quem desencavou este Drummond, que mando agora para todos vocês, leitores, à guisa de votos de Ano Novo. Exceto o frango caipira e o bronzeado legal, seria, tim-tim por tim-tim, o que eu gostaria de viver em 2008. Como a medida do próximo é a nossa medida, e desejar o bem do outro é o bem que queríamos para nós, vai aí o Drummond inteiro para vocês – que podem alterar os versos que descouberem. Eu troquei – mas só para mim - o frango caipira por um peixe na brasa, e o bronzeado legal por uma bubuia no igarapé.
Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
(Carlos Drummond de Andrade)
Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
(Carlos Drummond de Andrade)
quarta-feira, 6 de junho de 2007
O livreiro e o silêncio
Volto a “O Livreiro de Cabul” porque há um mérito nesse livro que somente um outro jornalista, este italiano, consegue dividir: como em “Kapput” e “A pele”, de Curzio Malaparte, a história de uma guerra é contada a partir do sofrimento das pessoas que não estão nas linhas de frente, mas nas cidades arrasadas, nos campos queimados, nos rios poluídos, e tentam desesperadamente sobreviver e manter a esperança.
Malaparte vai mais fundo que Asne Seierstad: ele retrata também o desmantelamento moral de um sociedade a partir da violência da guerra. Por isso, seus livros provocam um choque: a face oculta das conquistas militares está toda ali.
É inevitável a expressão de horror ao fim dessas leituras, e uma pergunta surge naturalmente: como isso aconteceu, como chegou a esse ponto?
Guerras são frutos, elas amadurecem aos poucos. Elas derivam de situações críticas, de problemas cujas soluções foram adiadas por longo tempo. Elas contam com a cumplicidade da sociedade, e principalmente com a falta de perspectivas para os jovens adultos. Contam com as ambições desenfreadas, com a cobiça e com o medo.
E contam, sobretudo, com a censura de informações.
Não há guerra que tenha acontecido que não tenha sido antecedida por mecanismos de censura sobre a imprensa e a liberdade de expressão. A censura é o útero das guerras, sejam civis, sejam puramente militares.
Eis porque a decisão de Chávez, na Venezuela, de revogar uma concessão para uma emissora oposicionista, sem que esta tenha dado causa objetiva, ou seja, sem que ela tenha deixado de cumprir as exigências da concessão, é tão grave. Se somarmos a essa medida o fato de que Chávez substituiu a emissora por uma oficial, e que anunciou a organização de um superpartido político, não é difícil ver a repetição da estratégia política de Salazar, Franco, Hitler, Stálin, Fidel Castro, Getúlio Vargas e outros.
O caminho é um só, usar a plataforma eleitoral para uma ditatura, que pode até mudar de ditador, como na história recente do Brasil, e na antiga Roma, mas que é ditatura de qualquer maneira.
E não adianta colorir o quadro com o cor-de-rosa da “revolução popular”. Ditaduras não têm ideologia: as pessoas se tornam “povo”, ou “massa”. Desaparecem os rostos marcados pela necessidade, a dor individual descrita por Seierstad e Malaparte, para dar lugar a um ente difuso e abstrato, em nome do qual se justificam todas as violências praticadas em favor da “causa”, da “bandeira”, do “objetivo”, da “finalidade”.
Bem, isto acontece na Venezuela - poderão dizer alguns. Mas nenhum país é mais solitário, neste acelerado processo de globalização que vivemos, embora o presidente do Brasil diga que cada qual deve cuidar do seu território e ponto final. Nem Brasil nem Venezuela prescindem dos consumidores estrangeiros – e, se somos democratas, temos que ouvi-los e prestar atenção no que acontece com eles. Mais, ainda: a solidariedade é fundamental entre os povos, se queremos paz. E solidariedade também faz pressão contra uma autoridade que esteja tomando um rumo que a maioria não aceita.
É provável que o abuso de Chávez, agora cometido contra a imprensa, esteja calçado em milhares de abusos menores, cometidos contra Marías e Pacos, porque, se não fosse assim, talvez não se sustentasse politicamente. O que significa dizer que a ditadura já lançou suas raízes no país vizinho. Questão de tempo produzir seu fruto de violência, a guerra, qualquer que seja ela.
Malaparte vai mais fundo que Asne Seierstad: ele retrata também o desmantelamento moral de um sociedade a partir da violência da guerra. Por isso, seus livros provocam um choque: a face oculta das conquistas militares está toda ali.
É inevitável a expressão de horror ao fim dessas leituras, e uma pergunta surge naturalmente: como isso aconteceu, como chegou a esse ponto?
Guerras são frutos, elas amadurecem aos poucos. Elas derivam de situações críticas, de problemas cujas soluções foram adiadas por longo tempo. Elas contam com a cumplicidade da sociedade, e principalmente com a falta de perspectivas para os jovens adultos. Contam com as ambições desenfreadas, com a cobiça e com o medo.
E contam, sobretudo, com a censura de informações.
Não há guerra que tenha acontecido que não tenha sido antecedida por mecanismos de censura sobre a imprensa e a liberdade de expressão. A censura é o útero das guerras, sejam civis, sejam puramente militares.
Eis porque a decisão de Chávez, na Venezuela, de revogar uma concessão para uma emissora oposicionista, sem que esta tenha dado causa objetiva, ou seja, sem que ela tenha deixado de cumprir as exigências da concessão, é tão grave. Se somarmos a essa medida o fato de que Chávez substituiu a emissora por uma oficial, e que anunciou a organização de um superpartido político, não é difícil ver a repetição da estratégia política de Salazar, Franco, Hitler, Stálin, Fidel Castro, Getúlio Vargas e outros.
O caminho é um só, usar a plataforma eleitoral para uma ditatura, que pode até mudar de ditador, como na história recente do Brasil, e na antiga Roma, mas que é ditatura de qualquer maneira.
E não adianta colorir o quadro com o cor-de-rosa da “revolução popular”. Ditaduras não têm ideologia: as pessoas se tornam “povo”, ou “massa”. Desaparecem os rostos marcados pela necessidade, a dor individual descrita por Seierstad e Malaparte, para dar lugar a um ente difuso e abstrato, em nome do qual se justificam todas as violências praticadas em favor da “causa”, da “bandeira”, do “objetivo”, da “finalidade”.
Bem, isto acontece na Venezuela - poderão dizer alguns. Mas nenhum país é mais solitário, neste acelerado processo de globalização que vivemos, embora o presidente do Brasil diga que cada qual deve cuidar do seu território e ponto final. Nem Brasil nem Venezuela prescindem dos consumidores estrangeiros – e, se somos democratas, temos que ouvi-los e prestar atenção no que acontece com eles. Mais, ainda: a solidariedade é fundamental entre os povos, se queremos paz. E solidariedade também faz pressão contra uma autoridade que esteja tomando um rumo que a maioria não aceita.
É provável que o abuso de Chávez, agora cometido contra a imprensa, esteja calçado em milhares de abusos menores, cometidos contra Marías e Pacos, porque, se não fosse assim, talvez não se sustentasse politicamente. O que significa dizer que a ditadura já lançou suas raízes no país vizinho. Questão de tempo produzir seu fruto de violência, a guerra, qualquer que seja ela.
quarta-feira, 30 de maio de 2007
O livreiro e a navalha
Acabo de ler “O livreiro de Cabul”, aliás bem depois que ele foi sensação.
É um livro de muitas leituras. Nem é muito bom – enquanto livro-reportagem está muito longe do mestre Trumann Capote; e, enquanto literatura, segue simplesmente a receita estrutural de uma obra. No entanto, é multifacetado: suscita vários ângulos de apreciação e discussão. A primeira delas, um tema que ultimamente anda pelas ruas da Venezuela e pelos tribunais brasileiros: os limites da ação de um repórter.
Diz a autora que falou com o livreiro, morou na casa dele, onde todos receberam ordens de atendê-la e dizer-lhe tudo o que queria saber. Depois, no livro, o crucifica perante o mundo – e, com isso, deve ter tornado sua vida insuportável na sociedade onde ele vive.
Ela usa qualificativos, coisa que o objetivo Capote não faria. Torna o livro uma crítica à pessoa do livreiro, ou seja, reduz o que seria a revelação de uma sociedade fechada e fundamentalista, a uma crítica individual. Do ponto de vista ético, é tão sujo como escutar atrás da porta a conversa do vizinho para ter poder sobre ele. O lendário Poirot de Agatha Christie afirmava que escutaria atrás da porta quantas vezes fosse necessário para impedir que um assassino ficasse solto – era uma questão de avaliar o mal maior. A autora do “Livreiro” também pode dizer que denunciar a situação da mulher na sociedade afegã justifica o comportamento pouco ético. Mas havia alternativa de procedimento, no caso dela – bastava que sua ambição fosse menor, bastava manter-se como repórter e reproduzir as histórias que lhe foram contadas, narrar as que vivera. Se o qualificativo ficasse por conta do leitor, o livreiro não ficaria exposto na sociedade onde vive, e, provavelmente, a repercussão do livro no próprio Afeganistão seria maior.
Ela teria feito um livro melhor e eticamente correto.
Esta questão me lembra um incidente que testemunhei há alguns anos, na apresentação de uma pesquisa. O pesquisador, crente que estava sendo magnânimo, havia trazido os pesquisados para avaliarem o resultado. Ele fez a apresentação, e um dos comunitários reagiu: ele não gostou nem um pouquinho de se ver retratado daquela maneira, e questionou o fato de ter a comunidade acolhido e cooperado com o pesquisador para ser depois tão duramente criticada. Complicou um pouco o fato de que a pesquisa estava muito acima da capacidade de entendimento do comunitário; mas o que ele entendeu foi suficiente para acusar o pesquisador de má-fé, de usar a comunidade em proveito próprio. Ele tinha razão: o pesquisador deveria ter mantido a distância social, levado a própria comida e morado numa casa alugada. Ou, então, explicar desde o início que não tinha compromissos com as pessoas daquela comunidade.
Jornalistas, policiais, médicos e, algumas vezes, pesquisadores, usam sua condição excepcional para chegar a lugares onde não entrariam em sua condição de cidadãos. É por isso que divulgar grampos pela televisão é uma atitude discutível. “Para pressionar o Judiciário”, dizem alguns policiais. “A população tem o direito de saber”, dizem alguns repórteres. Mas direito de saber o que? Respondo: geralmente, aquilo que o jornalista decide que deve saber, porque o volume de informações é superior aos espaços disponíveis para veiculação.
E aí, o direito de saber pode ser um belo de um escândalo proporcionado por outra pessoa com acesso privilegiado, o policial. E aí, também, a exposição pública do suspeito, acusado, seja lá o título que tenha um não-condenado já vale por um julgamento – vai acompanhá-lo pela vida toda, como uma sombra.
A ética profissional – qualquer profissão que seja – manda que não se use o privilégio profissional em proveito próprio ou de terceiros; manda que se respeite o cliente (no caso do jornalista e do policial, a sociedade toda); manda que se cumpra a lei vigente. Revelar o que está em segredo pode ser necessário e louvável, quando a causa é grande e a alma não é pequena. Mas revelar apenas pelo escândalo não é correto. Trechos de conversa fora de contexto, grampos legais ou ilegais prematuramente divulgados, só complicam: tumultuam julgamentos e podem levar pessoas a uma execração pública injusta, pelo simples fato de que elas não se defenderam.
De Cabul a Brasília, a distância geográfica é enorme. Mas a ética humana é uma só: aqui como lá, vale o mesmo. Para operações navalha ou para livreiros.
É um livro de muitas leituras. Nem é muito bom – enquanto livro-reportagem está muito longe do mestre Trumann Capote; e, enquanto literatura, segue simplesmente a receita estrutural de uma obra. No entanto, é multifacetado: suscita vários ângulos de apreciação e discussão. A primeira delas, um tema que ultimamente anda pelas ruas da Venezuela e pelos tribunais brasileiros: os limites da ação de um repórter.
Diz a autora que falou com o livreiro, morou na casa dele, onde todos receberam ordens de atendê-la e dizer-lhe tudo o que queria saber. Depois, no livro, o crucifica perante o mundo – e, com isso, deve ter tornado sua vida insuportável na sociedade onde ele vive.
Ela usa qualificativos, coisa que o objetivo Capote não faria. Torna o livro uma crítica à pessoa do livreiro, ou seja, reduz o que seria a revelação de uma sociedade fechada e fundamentalista, a uma crítica individual. Do ponto de vista ético, é tão sujo como escutar atrás da porta a conversa do vizinho para ter poder sobre ele. O lendário Poirot de Agatha Christie afirmava que escutaria atrás da porta quantas vezes fosse necessário para impedir que um assassino ficasse solto – era uma questão de avaliar o mal maior. A autora do “Livreiro” também pode dizer que denunciar a situação da mulher na sociedade afegã justifica o comportamento pouco ético. Mas havia alternativa de procedimento, no caso dela – bastava que sua ambição fosse menor, bastava manter-se como repórter e reproduzir as histórias que lhe foram contadas, narrar as que vivera. Se o qualificativo ficasse por conta do leitor, o livreiro não ficaria exposto na sociedade onde vive, e, provavelmente, a repercussão do livro no próprio Afeganistão seria maior.
Ela teria feito um livro melhor e eticamente correto.
Esta questão me lembra um incidente que testemunhei há alguns anos, na apresentação de uma pesquisa. O pesquisador, crente que estava sendo magnânimo, havia trazido os pesquisados para avaliarem o resultado. Ele fez a apresentação, e um dos comunitários reagiu: ele não gostou nem um pouquinho de se ver retratado daquela maneira, e questionou o fato de ter a comunidade acolhido e cooperado com o pesquisador para ser depois tão duramente criticada. Complicou um pouco o fato de que a pesquisa estava muito acima da capacidade de entendimento do comunitário; mas o que ele entendeu foi suficiente para acusar o pesquisador de má-fé, de usar a comunidade em proveito próprio. Ele tinha razão: o pesquisador deveria ter mantido a distância social, levado a própria comida e morado numa casa alugada. Ou, então, explicar desde o início que não tinha compromissos com as pessoas daquela comunidade.
Jornalistas, policiais, médicos e, algumas vezes, pesquisadores, usam sua condição excepcional para chegar a lugares onde não entrariam em sua condição de cidadãos. É por isso que divulgar grampos pela televisão é uma atitude discutível. “Para pressionar o Judiciário”, dizem alguns policiais. “A população tem o direito de saber”, dizem alguns repórteres. Mas direito de saber o que? Respondo: geralmente, aquilo que o jornalista decide que deve saber, porque o volume de informações é superior aos espaços disponíveis para veiculação.
E aí, o direito de saber pode ser um belo de um escândalo proporcionado por outra pessoa com acesso privilegiado, o policial. E aí, também, a exposição pública do suspeito, acusado, seja lá o título que tenha um não-condenado já vale por um julgamento – vai acompanhá-lo pela vida toda, como uma sombra.
A ética profissional – qualquer profissão que seja – manda que não se use o privilégio profissional em proveito próprio ou de terceiros; manda que se respeite o cliente (no caso do jornalista e do policial, a sociedade toda); manda que se cumpra a lei vigente. Revelar o que está em segredo pode ser necessário e louvável, quando a causa é grande e a alma não é pequena. Mas revelar apenas pelo escândalo não é correto. Trechos de conversa fora de contexto, grampos legais ou ilegais prematuramente divulgados, só complicam: tumultuam julgamentos e podem levar pessoas a uma execração pública injusta, pelo simples fato de que elas não se defenderam.
De Cabul a Brasília, a distância geográfica é enorme. Mas a ética humana é uma só: aqui como lá, vale o mesmo. Para operações navalha ou para livreiros.
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