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domingo, 22 de fevereiro de 2015

A flor da Guiné


Desde o dia em que saiu o resultado do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro que ando matutando sobre a Guiné Equatorial. Que bela flor viu lá o colibri carioca?

Tão bela e tão perfumada que eclipsou qualquer preocupação, todos os desgastes e todas as dificuldades para representar na avenida um país com 400.000 habitantes (dado oficial da Embaixada da Guiné no Brasil, mas há quem diga que são mais, e outros, que são menos), duramente marcado pela colonização, estigmatizado pelas violações constantes de direitos humanos, com 77% da população abaixo da linha da pobreza e descoberto por um navegador português chamado Fernando Pó.

É, Fernando Pó.

Bem, a Petrobrás está lá. Ela adquiriu, em janeiro de 2006, 50% de participação num contrato de partilha de produção de petróleo (bloco L, na bacia do rio Muni) operado pela Chevron, que perfurou dois poços que deram em nada e, no ano seguinte, abandonou o bloco e o país. A Petrobrás continua tentando, talvez acreditando que “é preciso mais que cinco poços secos para condenar uma bacia.” Em 2009 o NY Times dizia que poucos países simbolizam tão bem a corrupção e o nepotismo do óleo como a Guiné Equatorial e que as petroleiras que trabalham ali estavam preocupadas com a imagem do país.

Bingo? Não sei, ouso pensar, mas não ouso opinar sobre isso.

Mas esse contrato que a Petrobrás assinou parece um pouco com a história de Pasadena, não? O ano é o mesmo e a Petrobrás comprou mico nos dois casos: na Guiné, comprou em janeiro uma participação de exploração de um bloco que ia ser perfurado no mesmo ano; no ano seguinte, fica com um poço seco... Toyin Akinosho, analista do Africa Oil+Gas Report, jornal mensal dedicado à indústria do petróleo, comenta que a decisão de ficar, tomada pela Petrobrás, talvez se deva ao fato de que os dirigentes de estatais não têm a mesma responsabilidade que têm os das empresas privadas perante os acionistas...

E de repente a Beija Flor repete Fernando Pó e descobre a Guiné Equatorial. E ganha o campeonato. E com certeza será convidada a se apresentar lá: bateria, mulatas, dirigentes da escola e da Liga das Escolas de Samba. E voltará dizendo que o povo da Guiné se entusiasmou tanto que todos pensam numa continuação por lá.

E Neguinho da Beija Flor dá entrevista dizendo que é a contravenção que financia o carnaval carioca.

E o governo da Guiné diz que foram as empresas, no papel de animadores culturais, que financiaram a escola. Empresas ansiosas para melhorar a imagem do país. Mas empresas que podem reunir alguns milhões de reais numa vaquinha assim, informal, para financiar uma agremiação cultural cuja importância se restringe ao Brasil, e uma vez por ano? E a responsabilidade com os acionistas? Bem, se o acionista principal for uma viúva rica, é só seduzir a viúva, não?

Ainda tentando descobrir a flor que encantou o colibri carioca, leio, por meio do Trip Advisor, relato de viagens feitas a esse país. Num deles, o viajante escreve: “Museus? Bem, a Air France tem voos diários” para acrescentar que só a natureza, que ele qualifica de magnífica, é que oferece o que ver.

Eu imagino o Pó navegando para descobrir a ilha de Bioko. Visualizando alegorias e fantasias, com árvores de renda franzida e mulheres seminuas. Fissurado depois da longa viagem por novos cheiros, que o façam esquecer o que vem do interior das caravelas. Atraído pelo brilho da riqueza negra.

O que o Brasil está fazendo com os africanos? Meu Deus!


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Brasil profundo


O Congresso é a cara do Brasil. É ele que espelha, física e moralmente, o Brasil profundo, do litoral, do sertão e das cidades. Especialistas políticos caracterizaram o Congresso que iniciou suas sessões ontem como de centro-direita, com o avanço de das bancadas religiosas e da chamada bancada da bala.

E esse Brasil mostrou a sua cara, ontem, ao eleger Eduardo Cunha.

Infelizmente, não é a cara que eu gostaria de ver.

A cara que vejo hoje é enrugada por práticas corruptas, hidratada pelos panos quentes postos sobre os escândalos, maquiada pelo marketing irresponsável, enfeitada com ouro de tolo e com o olhar esquivo dos trapaceiros.

Ontem, o Brasil estendeu um tapete para tentar esconder o lixo.

Mas o Congresso se esqueceu que o lixo fede. A podridão se impõe para muito além do ponto onde ocorre. E quando o lixo é muito, e é antigo, faz escorrer chorume. O chorume contamina tudo o que toca, terra e água. E também tapetes.

Na semana passada um título de jornal ilustrou essa contaminação: dizia que o desvio na Petrobrás sustentaria o programa bolsa-família por uma década. A leitura subliminar dessa manchete é a seguinte: esse dinheiro que está no bolso deles devia estar no meu. O chorume toca, aqui, o inconsciente coletivo.

Cunha não fará oposição – aliás, ele declarou isso sem subterfúgios – e sim, lado a lado com Renan Calheiros e Michel Temer, a acomodação dos fichas sujas, sejam eles de que partido forem. Esse foi o pano de fundo que garantiu sua eleição. O site “Congresso em Foco” informa que essa é a bancada mais numerosa do Congresso. Em 2012, era composta por 191 deputados ou senadores. Nas últimas eleições saíram 34 deputados e entraram 40 com processos, em sua maioria por corrupção. Esse contingente de deputados representa 18% da Câmara. Entre eles está o próprio Eduardo Cunha. E entre eles não estão (ainda) os envolvidos nos desmandos da Petrobrás.

No entanto, precisamos ter esperança. Num artigo publicado neste domingo passado, Fernando Henrique coloca as suas no Judiciário. Em outro artigo, despedindo-se da política partidária, José Sarney apela para a pressão suprapartidária, a fim de evitar males maiores para o Maranhão. Lula, em vídeo circulante na internet, grita pela mobilização do PT. Os três ex-presidentes, de posições tão diferentes entre si, manifestam simultaneamente extrema preocupação com o momento nacional.

Mas, para os parlamentares eleitores de Eduardo Cunha, que reivindicam aumento das mordomias e das respectivas remunerações, a preocupação parece ser somente a que mobiliza hoje o Brasil profundo: que fantasias usarão daqui a duas semanas, no Carnaval.

Porque as fantasias de palhaço já têm donos: somos nós.


domingo, 4 de janeiro de 2015

O pacto necessário


Os governos e a Justiça estarão cumprindo os papéis que se espera deles: se punirem exemplarmente os corruptos e os corruptores. (Discurso de posse da presidente Dilma Roussef, 2015).

Temperamental e desbocado como era, D. Pedro I por certo daria um soco na mesa, acompanhado de meia dúzia de palavrões, ao ouvir esta frase, mais de 180 anos depois de ter falado do trono, para a Assembleia Geral Legislativa, abrindo a sessão de 1827:

O governo necessita que esta Assembleia o autorize, da forma como achar conveniente, para que possa estorvar a marcha dos dilapidadores da Fazenda Pública, aos que não desempenharem bem os seus empregos e aqueles que quiserem perturbar a ordem estabelecida por todos nós jurada; já demitindo-os, já dando-lhes castigos correcionais. (Falla do Throno, abertura de 1827 – Biblioteca do Senado. Atualizei a ortografia).

Nesse discurso, um dos mais longos que fez, D. Pedro I ressaltou à Assembleia a urgência da matéria: “um sistema de finanças bem organizado deverá ser o vosso particular cuidado nesta sessão, pois o atual, como vereis do relatório do ministro da Fazenda, não só é mau, mas é péssimo, e dá lugar a toda qualidade de dilapidações. Um sistema de finanças, torno a dizer, que ponha cobro, não digo a todos, mas à maior parte dos extravios, que existem, e que as leis dão lugar a que existam e por isso o governo, por mais que trabalhe, não pode evitar.

Bem, ele não conseguiu, assim, de primeira. Convocou mais duas sessões legislativas ordinárias e duas extraordinárias, repisando a urgência e a necessidade de arrumar as finanças públicas; não conseguiu nada. Finalmente, em 1830, deu o soco na mesa: convocou uma sessão extraordinária com pauta específica para discussão e foi assim que o Brasil teve sua primeira lei do orçamento.

Mas foi somente com D. Pedro II, em 1847, que o imperador pôde anunciar orgulhosamente que as receitas e as despesas estavam equilibradas, graças a “judiciosas medidas”, e que brevemente começaria a reduzir a dívida interna. As judiciosas medidas começavam pela vida austera do imperador que disse uma vez: Também entendo que despesa inútil é furto a Nação”.

Quase dois séculos se passaram desde Pedro I e novamente o chefe de Estado coloca no futuro a punição dos corruptos e corruptores. A burocracia multiplicou-se, as leis, também. A monarquia constitucional deu lugar à República, que alternou períodos ditatoriais e eleitorais – e a corrupção continua lá, plantada, florescente, imbatível, no dizer da presidente, envolvendotodas as esferas de governo e todos os núcleos de poder, tanto no ambiente público como no ambiente privado.

Como em todos os ambientes sociais existem núcleos de poder – poder familiar, poder comunitário – de matizes e gradações diversas, vejo no discurso da presidente uma generalidade inaceitável: somos cleptocratas, somos corruptos, todos!

Eu não aceito essa generalidade porque não é isso o que eu vejo todos os dias. Eu vejo todos os dias uma multidão que tenta viver honestamente, que trabalha duro e que paga suas contas. E que é furtado na prestação de serviços de telefonia, eletricidade, transporte público; nos juros excessivos, tarifas bancárias não explicadas, produtos enganosos; tem seu tempo furtado nas imensas filas de cadastramento (a última do ano foi na Caixa, para inscrição em programa oficial) ou nas filas de espera para qualquer serviço público. Eu vejo uma multidão que tenta manter seu nome limpo de dívidas e que está exasperada porque finalmente consegue ver para que bolsos está fluindo toda essa ladroagem.

Não, presidente, não é de pacto que precisamos, é de rompimento: do rompimento de seu governo com a corrupção que grassa à sua sombra. Não tente justificar isso jogando a responsabilidade para a sociedade, para o povo, para nós. Comece a senhora a luta: deixe de lotear ministérios alegando uma falsa governabilidade. Só isso já bastaria para que a senhora pudesse anunciar, como D. Pedro II o fez aos vinte anos de idade, o equilíbrio das receitas e despesas. Só isso já faria o país acreditar que sim, é possível ultrapassar de vez a cultura dos extravios que vem de tão longe.


É a senhora quem precisa fazer um pacto com a res publica. Rompa com a corrupção, presidente, e descobrirá que os brasileiros preferem ser honestos.

domingo, 1 de junho de 2014

Padrão Fifa


Transcrevo, do Portal da Copa (www.copa2014.gov.br), este trecho da matéria publicada em maio deste ano quando o Supremo Tribunal Federal validou, contra o voto de Joaquim Barbosa, a lei geral da Copa. O ministro Lewandowski foi o relator no processo:

Lewandowski apontou as vantagens econômicas (materiais) e imateriais de o Brasil sediar eventos esportivos como a Copa do Mundo, entre elas melhora da imagem do país, o aumento das exportações, o incremento ao turismo, a melhora da qualidade dos produtos e serviços, a incorporação de novas tecnologias e maior conforto aos cidadãos.

Mesmo nesse início de maio a nação brasileira já tinha descoberto que a lista de vantagens apontada pelo juiz se não era um simples embuste, conversa de vendedor, no caso a Fifa, para convencer cliente, não resultaria em benefícios nem a curto, nem a médio prazos. Porque o Brasil constatou, com uma boa dose de amargura, que o padrão Fifa é tomar dinheiro dos outros. Muito, muito dinheiro.

Os direitos concedidos à Fifa pela lei geral da Copa são extraordinários. Aliás, a lei é extraordinária: ela manda pagar um prêmio de cem mil reais para todos os jogadores, titulares ou reservas, que foram campeões do mundo em 1958, 1962 e 1970. Ou para os herdeiros deles.  Curiosamente, Paulo Maluf foi processado e condenado por ter premiado os jogadores com um fusca no tri de 1970. Mas o Brasil é a terra de Macunaíma: o que vale para um, não vale para outro. Questão só de peso e de medida, como diz a música de Billy Blanco.

Blatter deve ter ficado feliz quando viu a lei aprovada, e mais ainda quando a viu referendada pelo Supremo. Mas ele ainda não identificou Macunaíma. Vai rapidamente descobrir que a lei é só... uma lei. Os Levandowski da vida levarão de dez a vinte anos para garantir sua eficácia.

Agora Joseph Blatter tem se preocupado em demonstrar ao mundo que problemas porventura ocorrentes durante a realização da Copa são culpa dos brasileiros. Ele se empenha em reclamar, de forma se isentar completamente das responsabilidades. Quando identificar Macunaíma vai ver que a sua expertise é coisa pouca diante da esperteza brasileira.

Certo de uma arrecadação milionária nos licenciamentos, defronta-se com uma feroz concorrência dos sem-marca: o Brasil não quer logomarca da Fifa, quer preço baixo nos badulaques. Os chineses sabem disso muito bem: eles é que estão levando o grosso da receita. Blatter vai brigar com a China?

A lei lhe garante toda a segurança que quiser, mas a polícia dificilmente vai se mexer pelos belos olhos dele. Ele terá que contratar sua própria segurança se quiser chegar a qualquer estádio.

Estádios, aliás, padrão Fifa: ilhas de luxo num mundo faminto. Versalhes modernos. Pouco importa o preço que custem. Pouco importa se ficarão vazios ou mal utilizados. Eles obedecem ao padrão Fifa: seus alicerces estão enterrados na lama da corrupção. Ricamente escondidos.

Ontem uma testemunha de Jeová, no seu apostolado humilde, discreto e persistente, bateu à minha porta, entregou um folheto e pediu que eu lesse a Bíblia. Pois é da Bíblia que eu tiro o fecho desta crônica:

Porque nada há encoberto que não haja de ser manifesto; e nada se faz para ficar oculto, mas para ser descoberto. (Marcos 4:22)



domingo, 30 de março de 2014

O crepúsculo e a Petrobrás


Eu saíra do colégio direto para a escadinha do cais. Cursava então o ensino médio e nem me apercebia que o berrante uniforme do Santa Rosa (pus e sangue, era como as garotas do Gentil qualificavam) chamava muita atenção. Caía a noite e do alto falante a música veio, para ficar para sempre gravada em minha memória:

Ouro negro que jorra da terra
do Brasil a grandeza serás
pelo valor da riqueza que encerras
Petrobrás, Petrobrás, Petrobrás!

Adivinharam, era um comício em defesa da Petrobrás. Eram os anos 1960, o país fervia. Eu fora ali sem licença e correndo risco, se alguém me denunciasse no colégio: as freiras eram muito rigorosas sobre o que as alunas faziam quando de uniforme. Ouvi outra música (A Petrobrás foi a nossa vitória, nossa primeira vitória!), vi as bandeiras vermelhas dos comunistas e nem me apercebi que o comício era deles. Eu sabia o que era a Petrobrás e Monteiro Lobato, n’O Sítio do Picapau Amarelo me ensinara o valor do petróleo. Mas nada além disso.

Eu saí logo, a noite apenas começara, mas a desculpa que dera em casa para chegar um pouco mais tarde tinha prazo para vencer. O comício terminou em pancadaria, como muitos daquele tempo, entre o pessoal do Sindipetro e o CCC - Comando de Caça aos Comunistas, uma organização civil de ultradireita. A polícia separou a briga, prendeu uns e outros, soltou os uns porque Jango ainda estava no poder e os outros porque eram filhos d’algo. A Petrobrás ficou indelevelmente ligada na minha memória a uma profunda emoção em que se misturam o civismo e a magia do crepúsculo.

Agora eu vejo a Petrobrás num outro crepúsculo, este, sem beleza alguma. Nestas sombras se sobrepõem aos rostos corruptos as caras quebradas e ensanguentadas dos que apanharam na rua para constituí-la e mantê-la. Ela está sendo liquidada: em 2008 valia 510 bilhões de dólares; hoje, vale 200 bilhões e valerá cada vez menos se continuar com a administração desastrosa que tem. O caso da refinaria de Pasadena – uma compra superfaturada que torna ridículas as multas aplicadas a gestores municipais pelos Tribunais de Contas por causa de dois ou três mil reais não corretamente justificados – é só a ponta de um edifício de corrupção. A ele se soma o calote do governo (que obriga a estatal a vender combustível com prejuízo, sem subsidiar a diferença) e um aparelhamento partidário da gestão. A Petrobrás está mal, num processo descendente, crepuscular.

Estamos meio século distantes daquele comício na escadinha do cais, o país mudou, a sociedade mudou e o papel que a Petrobrás deve desempenhar mudou. Ainda se apela para a emoção ao falar da empresa (é só analisar os anúncios da tevê) mas ela é agora uma gigante mundial do petróleo. E é assim que deve ser administrada, não como uma simples ferramenta antinflacionária. Se o governo quer manter o preço dos combustíveis baixo, pague. Não desvalorize uma das maiores empresas do mundo. Não desperdice o patrimônio construído com muito esforço – e, literalmente, com sangue derramado.

Este sangue derramado não pode se misturar à lama da corrupção que apodrece os frutos de tantas lutas. A Petrobrás precisa de uma faxina em regra. O Brasil precisa da Petrobrás limpa, valiosa, corretamente gerida e capaz de manter aceso o patriotismo que a gerou e o civismo que a construiu.

sábado, 5 de dezembro de 2009

De panetones e pensamentos

Aparício Torelli começa:
"A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele".

O romano Catão comenta:
“Os ladrões de bens particulares passam a vida na prisão e acorrentados; aqueles de bens públicos, nas riquezas e nas honrarias”.

Antonio Vieira observa:
“Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência”.

Aparteia Bill Gates:
"O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair."

Mas Benjamim Constant volta para o foco:
“Os depositários do poder têm uma disposição desagradável a considerar tudo o que não é eles como uma facção. Eles chegam a incluir às vezes a própria nação nessa categoria”.

La Rochefoulcault reflete:
“Raramente conhecemos uma pessoa de bom senso além daquelas que concordam conosco”.

Stanislaw Ponte Preta reforça:
“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.

Jean-Jacques Rousseau abranda:
“O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece.”

Georges Clemenceau brada:
“A democracia? Sabem o que é? O poder dos piolhos comerem os leões!”

Napoleão Bonaparte objeta:
“Não tenhais medo do povo. Ele é mais conservador do que vós”.
E acrescenta:
“O erro está nos meios, bem mais que nos princípios”.

Volta Aparício:
"O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato”.

E o Marquês de Maricá acrescenta:
“Há duas coisas que não se perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade e a apostasia”.

Roberto Campos, ácido:
“A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro brilhante”.

Maquiavel comenta:
“O primeiro método para estimar a inteligência dos governantes é olhar para os homens que tem à sua volta.”

E Getúlio Vargas:
“No Ministério há homens capazes. O problema é que alguns são capazes de tudo.”

Aparício comenta logo:
“Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio!”

Giordano Bruno murmura:
“Que ingenuidade, pedir para quem tem o poder para mudar o poder!”

E Aparício, de volta:
“Os vivos são e serão, sempre, governados pelos mais vivos”.

Nelson Rodrigues, amargo:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...”

E Aparício conclui:
“O Brasil é feito por nós. Só falta desatar os nós..."

segunda-feira, 16 de março de 2009

O dinheiro na cueca

Nesta sexta, 13, um chinês foi preso transportando 300 mil na cueca.
O que me fez lembrar o outro dinheiro na cueca – aquele do PT, e perguntar: em que deu aquilo tudo?
Foi em 2005. Três anos depois, foi preso um dos réus no caso do mensalão, também com dinheiro na cueca. Logo depois, um traficante com mais de um milhão. Em seguida, um sequestrador, que trazia as notas marcadas de um resgate – 14 mil. Agora, esse chinês, que ninguém sabe direito porque tinha a cueca cheia de grana.
Exceto o último, todos foram denunciados pelo Ministério Público Federal.
Em 2007 uma comissão do Congresso aprovava emenda à lei contra a lavagem do dinheiro enquadrando o dinheiro na cueca como crime.
Dei uma busca: todos os processos ainda se encontram em primeira instância, nenhum foi julgado. Os recursos sobem e descem dos tribunais, apenas para que se comece o julgamento.
Pois bem. Transcrevo uma das informações que encontrei:
“Uma empresa especializada em material de defesa/espionagem colocou no mercado a “Brief Safe”, uma cueca com bolso de velcro e “marcas de freiada” pré-impressas. O objetivo é guardar seus bens mais valiosos (se bem que isso toda cueca faz) à vista de todos.” O lançamento é de 2007. A empresa é a Shomer Tec., que vende, também, uma caneta de tinta fantasma com selo da KGB. Cada cueca custa 11 dólares.
É fácil culpar o Judiciário e o sistema de recursos e contra-recursos que eterniza os processos civis ou penais brasileiros. Mas a questão fundamental é outra: todos se queixam do Judiciário mas ninguém faz nada para consertar o estrago.
Porque a sociedade não quer, nem o Estado. Um sociólogo ou um economista poderiam explicar essa situação como característica de países emergentes: o dinheiro ilegal pesa muito no PIB para ter um combate sério. É como a questão dos temporários: se os parafusos forem apertados demais, a máquina explode.
Eu me consolo lendo algumas coisas antigas. No momento, a história dos bucaneiros do Caribe, no século XVII. A descrição das condições de vida dos colonizadores ilhéus (Cuba, Tortuga, Trinidad, Tobago, Hispaniola – hoje Haiti e República Dominicana) é de arrepiar. Mas o que mais me chama atenção é a existência de investidores por detrás dos capitães piratas, e governadores que investiam no ramo ou compravam, para revender, produtos de saque. Àquela época, não havia cueca que comportasse o dinheiro – era todo em moedas, e a própria cueca ainda não existia – e, talvez por isso, a forma de desviar a prata real era muito mais violenta.
As coisas se suavizaram em meio milênio – pelo menos podemos nos proteger em casa, e não no oco de árvores.
Mas as ameaças continuam as mesmas: a penúria ainda é um fantasma persistente, já não mais na forma de navios com caveiras e ossos cruzados, mas agora em forma de assinaturas eletrônicas. Não se morre com freqüência de exaustão física, mas, agora, de exaustão moral: o suicídio já é, no Brasil, a terceira maior causa de morte de jovens, perdendo apenas para os homicídios e acidentes de trânsito.
A sensação que tenho é que navegamos muito – ciência, tecnologia, medicina de massa – mas o fundamental, que é o respeito mútuo, ainda está tão atrasado como antes.
E as cuecas testemunham isso.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Meta número um


Leio nos jornais que a Previdência está-se aparelhando, há oito anos, para cumprir sua meta número um: combater as fraudes e a corrupção.

A noite caiu na minha’alma. / Fiquei triste sem querer./ Uma sombra veio vindo/ veio vindo e me abraçou... – como disse uma vez Carlos Drummond de Andrade.

Pois que a meta número um não pode, não deve ser essa. E porque essa meta está descolada do resto, não entendem essas pessoas que mandam há tanto tempo na Previdência que fraude e corrupção são derivadas, não são premissas. São consequência do mau serviço, da ideologia de Estado, que não vê o cliente, mas apenas a si mesmo.

Por exemplo: todas as empresas são obrigadas a entregar ao empregado o contracheque, a discriminação dos valores que compõem a remuneração. A Previdência não entrega. Você recebe, quando recebe, um tal de “extrato” de benefício. Nem tente reclamar – não há resposta. A Previdência confessa dívidas e não paga, manda para a Justiça porque sabe que, qualquer que seja o valor, vai durar anos para decidir, e ela não pagará a atualização monetária integral; não disponibiliza perícias, principalmente para os incapacitados por Alzheimer e Parkinson; não verifica absolutamente nada.

Imersos na enorme papelada, submersos na burocracia, os funcionários trabalham, na verdade, num enorme cartório. Pensa que o computador eliminou o carimbo? Engano seu. Ele continua lá, firme e forte. Mas o cliente pode receber tiras de impresso automático, impossíveis de serem lidas e entendidas.

Além disso, o grande golpe previdenciário é dado pela remuneração paga aos bancos para que eles controlem o dinheiro do aposentado. É aí o maior vazamento da Previdência – pagamentos por pessoa atendida, com a vantagem do crédito consignado, que não tem riscos mas tem juros altos, que, agora, os bancos estão achando pouco.

Mas a Previdência não está isolada. A ideologia de Estado preside o Brasil. A evolução salarial dos servidores públicos mostra isso: são as categorias repressivas as que ganham mais. Fiscalização, polícia, tribunais e derivados: Procuradoria, Advocacia, Ouvidoria, Controladoria... Compare a remuneração de um professor ou médico com a de um desses togados ou fardados. E depois vêm-me dizer que saúde e educação é que interessam...

O escandaloso, na Previdência, é que ela não cumpre absolutamente nada dos deveres exigidos para qualquer mortal neste país. Está acima do bem e do mal, paira acima da lei (e por isso está fora dela). Como pode falar em combater fraude e corrupção, se é a primeira a descumprir tudo o que propõe?

Eu gostaria muito de saber quantos foram eliminados injustamente no último recadastramento, e voltaram a receber. Desconfio que são a maioria dos cadastros cancelados, porque há milhares de pessoas que vivem em locais remotos ou cujos documentos não estão em dia. Mas essa informação eu jamais conseguirei: a Previdência só diz o que quer, e isso ela não quer dizer.

É uma sombra – que nos rouba a alegria.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Dantas, Nahas e nós

Nada contra um sujeito que sai do nada para ser milionário, construindo sua fortuna na regra da lei.


Nada conta um sujeito que manobra finanças como o Lars Grael manobra o seu barco – se ele está na regra da lei.


Mas é vexante que o cidadão de classe média pague, depois dos abatimentos, 24% de imposto de renda cobrado sobre o salário – que é remuneração de trabalho, e não ganho adicional, e Dantas e Nahas não paguem nem um décimo disso. Não pagam. Dez para o Silvio Santos, o maior contribuinte individual do imposto de renda no Brasil. Silvio não discute. Paga. Chegou à conclusão que é melhor para ele e para todos. É tão milionário como Dantas. E Silvio é argentino...


Eike Batista é financista como Nahas, e mais rico que este. E também paga. Seu primeiro bilhão teve mais 24%, correspondente à gorda fatia do Tesouro. Pode-se dizer que Eike é um filhote dos tempos da ditadura, em que os grandes negócios eram fechados às escuras. Há dezenas de filhos d’algo iguais a ele por aí – mas só ele conseguiu ser bilionário. E pagando imposto, normal, igual a nós.


Dantas e Nahas cospem na nossa cara. Dantas embarcou na canoa petista desde o início; era o homem que “resolvia as coisas”, fazia aparecer o dinheiro eleitoral. A corrupção de Nahas vem de mais longe, é fruto direto da inflação descontrolada, quando as pessoas convertiam cruzeiros e cruzados em dólar para tentar manter o valor do seu dinheiro. Nahas arranjava os dólares, no mercado negro que todos toleravam porque todos usavam, inclusive as autoridades. De onde vinham? De vez em quando um brasileiro se encrencava nos EUA com os dólares do Nahas... Mas dentro do Brasil eles resolviam, e ponto. Ele é, portanto, um desses seres cinzentos, que servem de ponte entre o legal e o ilegal, no gueto entre a lei e a realidade. Muito houve como ele, que, estabilizada a economia, pegaram seus ganhos e abriram financeiras, empresas de turismo, capitalizaram as relações que haviam construído com os dólares em negócios legais. Nahas manteve-se à margem, e, agora, a tolerância acabou para ele.


Dantas e Nahas são produtos da violenta distorção provocada pela concentração de renda no país, pela discrepância entre as leis e os costumes, pelo cipoal burocrático que envolve os processos judiciais, que evita soluções simples e diretas, e exige quatro, cinco anos, de investigação para que se consiga blindar como prova o que todo mundo sabe há muito tempo. Sua atuação reforça as distorções e discrepâncias. Beneficiam-se do cipoal, e, cada vez mais ricos, nos vêem como uns fracassados, só porque não colocamos o dinheiro como o foco principal de nossas vidas.


Mas Dantas e Nahas são também aquelas pessoas cujo dinheiro move a máquina do crime – e não estou falando de crime de colarinho branco, sofisticado e de computador. Estou falando é do garoto executado pela polícia no Rio de Janeiro, dos rapazes mortos pelo tráfico. Pois afinal, de onde vêm os dólares do mercado negro, a praia de Nahas onde desagua o banco de Dantas? Esses dólares são ondas criminosas que vão e vem, deixando os lucros na praia. Eles vêm da arma clandestina, do crack, dos assassinatos de encomenda, do preço, enfim, da violência, que leva boa parte dos 24% que descontamos de nossos salários. Seus piores crimes não são os elencados no processo: são a geração de mais violência, de mais tráfico, de mais crimes.


E nós – nós, pagamos.

terça-feira, 29 de abril de 2008

República sindical

Uma vez nós tivemos um imperador que perdeu o trono por ter libertado os escravos.

Ele poderia ter usado a máquina do Estado à sua discrição. O regime assim o permitia.

Mas seu governo foi austero e sua discrição pessoal se tornou lendária.

Ele enfrentou guerras na fronteira sul, mas a inflação ficou sob controle.

Depois dele, não quisemos mais imperadores. Criou-se a república militar, e, depois dessa, criaram-se mais três, apenas uma delas totalmente civil.

A quinta república, lançada por Tancredo Neves e inaugurada por José Sarney corre o risco de terminar agora, ainda viva a geração que lutou por ela, e dar lugar à sexta, a República Sindical.

Nos sindicatos, os dirigentes apóiam-se na inércia da maioria e podem eternizar-se mediante o simples expediente de manter as pessoas em casa mediante a distribuição de vantagens – bons negócios, no caso de empresários, aumentos anuais, no caso de empregados.

Assembléias ditas gerais, em sindicatos de milhares de associados, reúnem cem ou duzentas pessoas. Geralmente belicosas, geralmente agressivas, geralmente corruptas.

A história dos sindicatos é uma história de corrupção. Alguns filmes tratam do assunto (o mais recente, “A Invasão dos Bárbaros”, é canadense) e muitos trabalhos acadêmicos, convenientemente “esquecidos” pela maioria, também.

Sindicatos, no Brasil, têm seus recursos desviados para campanhas eleitorais – e foi por isso que empregados e empregadores se uniram para impedir que prestem contas do dinheiro que recebem. Lula disse que é a defesa da autonomia sindical. Mas prestar contas não quebra autonomia de ninguém: quebra a corrupção.

Dirigentes sindicais se apóiam no populismo. No irresponsável populismo que tornou o emprego extremamente difícil, graças à enorme burocracia pendurada nele: Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Ministério do Trabalho, Ministério da Previdência, Sistema S, e mais de mil sindicatos. Para manter cem empregos abertos, um desses terá que ser dedicado exclusivamente à papelada do emprego.

E eis que, agora, o modelo chega ao Planalto: vamos para o terceiro mandato?

Lula repete Floriano e Getúlio: “o povo me quer”.

Ele vendeu a alma da mãe ao diabo para chegar à Presidência: fez o acordo com os banqueiros, do jeitinho mesmo que eles queriam: eles financiaram a campanha dele, por via dos sindicatos. Agora, vai vender a própria alma a Satanás, para manter-se nela. Está rompendo todos os limites da dignidade, da ética, da consciência política, da coerência pessoal. Está sendo mais um caudilho, figura que se pensava tivesse o Brasil excluído de sua vida política.

A corrupção grassa solta, os meios e modos mais sórdidos para eternizar-se no poder são usados de maneira escancarada. A autorização de roubar é dada pelo próprio presidente: condena-se o governador do Ceará por ter levado a sogra para a Europa, mas Lula levou antes o filho para o Chile e para Antártida. De fato, não há proibição expressa em lei nenhuma, como alega o governador. Mas é preciso?

O país inteiro sabe dos meios escusos da camarilha presidencial. E é isso, mais que tudo, o que enfraquece as ações de segurança pública. Mas, afinal, quem se importa? Da mesma maneira como ninguém se importa com o que acontece com o dinheiro do imposto sindical. Porque não houve um só protesto quando Lula impediu que os sindicatos prestassem contas do dinheiro que recebem.

Se ficarmos quietos, teremos que chamar Lula de Pai dos Pobres, como a Perón, ou Pai da Pátria como a Stálin. Ou talvez tenhamos uma caricatura de imperador: o que não quisemos há mais de século, agora feito no Paraguai. Ou na China.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Ressaca de elefante

Diz a notícia que uma manada de elefantes tomou um pileque de cerveja, dessas feitas em casa, e endoideceu. Um deles foi coçar as costas num poste, que derrubou. Morreu eletrocutado, assim como todos os que tentaram salvá-lo. Até que pessoas conseguiram desviar o restante da manada – a notícia não diz como – e interromper a tragédia.

A notícia me lembrou o Senado. Cerveja feita em casa – mordomias, cumplicidades, safadeza miúda paga pelo Estado – e um pileque de poder. Renan coçou as costas no lugar errado – daí por diante, os elefantes perderam o controle de si mesmos.

É necessário interromper a farra da manada. Mas que a tropa de elite não se assanhe: não queremos trocar uma manada por outra. Não queremos ditadores à la Hugo Chavez (que afinal, apenas repete o que os militares fizeram: um Congresso fantoche para fazer de conta que havia democracia). Muito menos Lula ad aeternum. Pessoalmente, eu quero a coragem, a austeridade e a competência de José Serra. Ele enfrentou e venceu os grandes laboratórios multinacionais, e isso, para mim, o credencia a enfrentar quem quer que seja, se Presidente da República. Afinal, os grandes laboratórios multinacionais são a vaca sagrada do capitalismo mundial. A vitória de Serra serviu ao Brasil, e a todos os pobres do mundo. Lula, o eterno protestador de passeata, faz um enorme agá com uma política externa pelos pobres, mas não fez até agora nada por eles – e não aguentou nem meia pressão de Bush. Aliás, não aguentou nem a pressão interna dos bancos, hoje os maiores beneficiários da Previdência Social. Duvida? Pergunte à Previdência quanto cada banco recebe, por cabeça e por mês, para permitir que os miseráveis aposentados recebam seu dinheirinho no caixa eletrônico...

O país está criando, aos poucos, as condições para uma grande ressaca cívica, depois do pileque dos elefantes senatoriais. A crítica circula livre na rede, graças a Deus, porque a censura é quem circula nas tevês abertas. Censura de interesses: ah, é cliente, deixa... Que aliás é a pior censura que existe, porque não tem regras nem parâmetros. Mais dia, menos dia, a crítica vai pular fora da rede e ganhar o espaço mais importante: a consciência cidadã de quem não dá, não dá mais.

A primeira onda da ressaca apareceu na praia do PAN, na forma de uma vaia que cassou a palavra de Lula. A segunda, na praia da seleção, na forma de um gigantesco coral de palavrões destinados a Galvão Bueno e à rede Globo. O que tem a ver? Ora, ora, não me decepcionem! Com quem dorme a Vênus Platinada?

Outras ondas virão, e talvez a gente tenha de volta um pouco de decência pública. Vergonha, sabe? Aquele sentimento que faz com que a gente preze a opinião que os outros têm da gente, que faz com que a gente se comporte civilizadamente, mesmo que esteja querendo voltar para a barbárie, mesmo que esteja querendo tomar um porre de elefante. A vantagem de ter vergonha na cara é que, depois de vencer a tentação, a gente pode ter orgulho de si mesmo. Ou de seu país. Ou de seu Senado. Ou de seus aldeões, capazes de desviar a manada e salvar os elefantes e o povoado.

sábado, 14 de julho de 2007

Todo político é corrupto?

Certa vez um psiquiatra me fez uma pergunta análoga: é possível exercer o poder e manter-se íntegro?

Eu lhe respondi que sim, e isto não é tão raro quanto se pensa. Poderia citar Pedro II, nosso imperador de muitos defeitos, mas cuja honradez jamais foi colocada em dúvida – e ele exercia poderes autocráticos. Poderia citar dois ditadores, com poderes semelhantes: Getúlio Vargas e Ernesto Geisel. Jamais tiveram a sua honra questionada – o seu pelourinho foi outro.

No nosso Congresso tão achincalhado, hoje há vultos como Eduardo Suplicy, Jefferson Peres, Denise Frossard, Pedro Simon e Álvaro Valle – cada qual de um partido diferente, e selecionei de propósito assim – de quem ninguém discute a seriedade. Sobre eles não pesa nem a sombra de uma suspeita.

A questão – disse eu ao psiquiatra – é que nós todos, humanamente, muito humanamente, nos deliciamos com um escândalo qualquer. E por isso é o escandaloso que ocupa a mídia. Mas, se Maluf se elegeu em São Paulo, Suplicy também veio de lá. Ou seja: há quem vote em Maluf e quem vote em Suplicy. Há quem vote nos dois. E este último é senador, enquanto o outro é apenas deputado. O eleitorado sabe o que quer...

Além disso, o exercício da política é intrigante. Em todos os sentidos: não só intriga as pessoas, como vive de intrigas. Em política, boato pode gerar fatos, e há os especialistas em boatos. Como Iago: uma suspeita aqui, outra ali, uma história mal contada em cima de um gesto mal interpretado – e as conclusões começam a aparecer. O intrigante fica na dele. Mas o fato está criado.

Mais ainda: política é como pista de patinação, skate, surfe. É uma arte de acrobacias vivenciais. Um político me disse uma vez, exasperado com um eleitor: “Você fez dez coisas pelo sujeito, deixa de fazer uma, pronto, lá vai ele para outro gabinete.” Queixa comum, essa. O que ocorre de fato é que o eleitor interpreta o não-feito, por quem sempre fez, como perda de poder. O político já não pode mais representá-lo...

Em que consiste um bom político? De que qualidades será ele feito? Essa pergunta raramente é feita; embora a maioria das pessoas julgue de pronto “os políticos”, e geralmente julgue mal, não se preocupa em definir o que é qualidade em política.

Como o político pratica acrobacias, ele tem que ser ágil. No caso, a agilidade tem que ser mental, por raciocínio ou intuição. Não existe atividade mais competitiva que a política - nem a esportiva é tão radical assim, competindo todos os dias, de manhã à noite - e por isso ele tem que tentar estar sempre um pouco à frente dos adversários. E os adversários podem ser os membros de outro partido, ou podem ser os próprios correligionários (como por exemplo, numa eleição), dependendo da ocasião. Como ele depende do voto, ele deve manter-se dentro da expectativa do eleitorado, o que significa que seus gestos e atos devem pautar-se pela opinião e demandas alheias. E, finalmente, ele precisa alcançar um número suficiente de eleitores, ou manter-se ao alcance deles, para poder atendê-los, o que significa estabelecer meios de comunicação contínua.

Esses são os parâmetros, as condições básicas, ou melhor, as condições limitantes.

São condições duras. Para enfrentá-las, o bom político deve ser um articulador – uma pessoa capaz de convencer os outros, inclusive seus pares, para seguir num determinado rumo; um bom ouvinte, para ser capaz de entender o que lhe diz a população e principalmente seus eleitores; ter criatividade suficiente para ultrapassar os impasses, ou para apresentar propostas novas; tomar cuidado com sua imagem, de forma a apresentar-se sempre pelo melhor ângulo; e, finalmente, arrumar seu plano de despesas a partir do seu eleitorado.

Tudo isto, no chão marítimo de uma sociedade em permanente transformação, na corda bamba das flutuações da opinião pública, e nas curvas radicais dos fatos sociais. E como a sociedade é plural, há lugar para tudo num Congresso Nacional: a virtude e o pecado estarão lá representados na mesma proporção que existem na sociedade. Combatendo entre si do mesmo jeito como acontece em toda parte. E incapazes de vencer, uma ou outra, porque, sempre, na nossa humaníssima insatisfação permanente, quando se consegue uma coisa já se quer outra, e, na política, o que se alcança vira passado, porque há sempre um novo problema para resolver...