domingo, 22 de fevereiro de 2015
A flor da Guiné
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Brasil profundo
domingo, 4 de janeiro de 2015
O pacto necessário
domingo, 1 de junho de 2014
Padrão Fifa
domingo, 30 de março de 2014
O crepúsculo e a Petrobrás
sábado, 5 de dezembro de 2009
De panetones e pensamentos
"A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele".
O romano Catão comenta:
“Os ladrões de bens particulares passam a vida na prisão e acorrentados; aqueles de bens públicos, nas riquezas e nas honrarias”.
Antonio Vieira observa:
“Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência”.
Aparteia Bill Gates:
"O sucesso é um professor perverso. Ele seduz as pessoas inteligentes e as faz pensar que jamais vão cair."
Mas Benjamim Constant volta para o foco:
“Os depositários do poder têm uma disposição desagradável a considerar tudo o que não é eles como uma facção. Eles chegam a incluir às vezes a própria nação nessa categoria”.
La Rochefoulcault reflete:
“Raramente conhecemos uma pessoa de bom senso além daquelas que concordam conosco”.
Stanislaw Ponte Preta reforça:
“A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”.
Jean-Jacques Rousseau abranda:
“O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece.”
Georges Clemenceau brada:
“A democracia? Sabem o que é? O poder dos piolhos comerem os leões!”
Napoleão Bonaparte objeta:
“Não tenhais medo do povo. Ele é mais conservador do que vós”.
E acrescenta:
“O erro está nos meios, bem mais que nos princípios”.
Volta Aparício:
"O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato”.
E o Marquês de Maricá acrescenta:
“Há duas coisas que não se perdoam entre os partidos políticos: a neutralidade e a apostasia”.
Roberto Campos, ácido:
“A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro brilhante”.
Maquiavel comenta:
“O primeiro método para estimar a inteligência dos governantes é olhar para os homens que tem à sua volta.”
E Getúlio Vargas:
“No Ministério há homens capazes. O problema é que alguns são capazes de tudo.”
Aparício comenta logo:
“Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio!”
Giordano Bruno murmura:
“Que ingenuidade, pedir para quem tem o poder para mudar o poder!”
E Aparício, de volta:
“Os vivos são e serão, sempre, governados pelos mais vivos”.
Nelson Rodrigues, amargo:
“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos...”
E Aparício conclui:
“O Brasil é feito por nós. Só falta desatar os nós..."
segunda-feira, 16 de março de 2009
O dinheiro na cueca
O que me fez lembrar o outro dinheiro na cueca – aquele do PT, e perguntar: em que deu aquilo tudo?
Foi em 2005. Três anos depois, foi preso um dos réus no caso do mensalão, também com dinheiro na cueca. Logo depois, um traficante com mais de um milhão. Em seguida, um sequestrador, que trazia as notas marcadas de um resgate – 14 mil. Agora, esse chinês, que ninguém sabe direito porque tinha a cueca cheia de grana.
Exceto o último, todos foram denunciados pelo Ministério Público Federal.
Em 2007 uma comissão do Congresso aprovava emenda à lei contra a lavagem do dinheiro enquadrando o dinheiro na cueca como crime.
Dei uma busca: todos os processos ainda se encontram em primeira instância, nenhum foi julgado. Os recursos sobem e descem dos tribunais, apenas para que se comece o julgamento.
Pois bem. Transcrevo uma das informações que encontrei:
“Uma empresa especializada em material de defesa/espionagem colocou no mercado a “Brief Safe”, uma cueca com bolso de velcro e “marcas de freiada” pré-impressas. O objetivo é guardar seus bens mais valiosos (se bem que isso toda cueca faz) à vista de todos.” O lançamento é de 2007. A empresa é a Shomer Tec., que vende, também, uma caneta de tinta fantasma com selo da KGB. Cada cueca custa 11 dólares.
É fácil culpar o Judiciário e o sistema de recursos e contra-recursos que eterniza os processos civis ou penais brasileiros. Mas a questão fundamental é outra: todos se queixam do Judiciário mas ninguém faz nada para consertar o estrago.
Porque a sociedade não quer, nem o Estado. Um sociólogo ou um economista poderiam explicar essa situação como característica de países emergentes: o dinheiro ilegal pesa muito no PIB para ter um combate sério. É como a questão dos temporários: se os parafusos forem apertados demais, a máquina explode.
Eu me consolo lendo algumas coisas antigas. No momento, a história dos bucaneiros do Caribe, no século XVII. A descrição das condições de vida dos colonizadores ilhéus (Cuba, Tortuga, Trinidad, Tobago, Hispaniola – hoje Haiti e República Dominicana) é de arrepiar. Mas o que mais me chama atenção é a existência de investidores por detrás dos capitães piratas, e governadores que investiam no ramo ou compravam, para revender, produtos de saque. Àquela época, não havia cueca que comportasse o dinheiro – era todo em moedas, e a própria cueca ainda não existia – e, talvez por isso, a forma de desviar a prata real era muito mais violenta.
As coisas se suavizaram em meio milênio – pelo menos podemos nos proteger em casa, e não no oco de árvores.
Mas as ameaças continuam as mesmas: a penúria ainda é um fantasma persistente, já não mais na forma de navios com caveiras e ossos cruzados, mas agora em forma de assinaturas eletrônicas. Não se morre com freqüência de exaustão física, mas, agora, de exaustão moral: o suicídio já é, no Brasil, a terceira maior causa de morte de jovens, perdendo apenas para os homicídios e acidentes de trânsito.
A sensação que tenho é que navegamos muito – ciência, tecnologia, medicina de massa – mas o fundamental, que é o respeito mútuo, ainda está tão atrasado como antes.
E as cuecas testemunham isso.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Meta número um
Leio nos jornais que a Previdência está-se aparelhando, há oito anos, para cumprir sua meta número um: combater as fraudes e a corrupção.
A noite caiu na minha’alma. / Fiquei triste sem querer./ Uma sombra veio vindo/ veio vindo e me abraçou... – como disse uma vez Carlos Drummond de Andrade.
Pois que a meta número um não pode, não deve ser essa. E porque essa meta está descolada do resto, não entendem essas pessoas que mandam há tanto tempo na Previdência que fraude e corrupção são derivadas, não são premissas. São consequência do mau serviço, da ideologia de Estado, que não vê o cliente, mas apenas a si mesmo.
Por exemplo: todas as empresas são obrigadas a entregar ao empregado o contracheque, a discriminação dos valores que compõem a remuneração. A Previdência não entrega. Você recebe, quando recebe, um tal de “extrato” de benefício. Nem tente reclamar – não há resposta. A Previdência confessa dívidas e não paga, manda para a Justiça porque sabe que, qualquer que seja o valor, vai durar anos para decidir, e ela não pagará a atualização monetária integral; não disponibiliza perícias, principalmente para os incapacitados por Alzheimer e Parkinson; não verifica absolutamente nada.
Imersos na enorme papelada, submersos na burocracia, os funcionários trabalham, na verdade, num enorme cartório. Pensa que o computador eliminou o carimbo? Engano seu. Ele continua lá, firme e forte. Mas o cliente pode receber tiras de impresso automático, impossíveis de serem lidas e entendidas.
Além disso, o grande golpe previdenciário é dado pela remuneração paga aos bancos para que eles controlem o dinheiro do aposentado. É aí o maior vazamento da Previdência – pagamentos por pessoa atendida, com a vantagem do crédito consignado, que não tem riscos mas tem juros altos, que, agora, os bancos estão achando pouco.
Mas a Previdência não está isolada. A ideologia de Estado preside o Brasil. A evolução salarial dos servidores públicos mostra isso: são as categorias repressivas as que ganham mais. Fiscalização, polícia, tribunais e derivados: Procuradoria, Advocacia, Ouvidoria, Controladoria... Compare a remuneração de um professor ou médico com a de um desses togados ou fardados. E depois vêm-me dizer que saúde e educação é que interessam...
O escandaloso, na Previdência, é que ela não cumpre absolutamente nada dos deveres exigidos para qualquer mortal neste país. Está acima do bem e do mal, paira acima da lei (e por isso está fora dela). Como pode falar em combater fraude e corrupção, se é a primeira a descumprir tudo o que propõe?
Eu gostaria muito de saber quantos foram eliminados injustamente no último recadastramento, e voltaram a receber. Desconfio que são a maioria dos cadastros cancelados, porque há milhares de pessoas que vivem em locais remotos ou cujos documentos não estão em dia. Mas essa informação eu jamais conseguirei: a Previdência só diz o que quer, e isso ela não quer dizer.
É uma sombra – que nos rouba a alegria.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Dantas, Nahas e nós
Nada conta um sujeito que manobra finanças como o Lars Grael manobra o seu barco – se ele está na regra da lei.
Mas é vexante que o cidadão de classe média pague, depois dos abatimentos, 24% de imposto de renda cobrado sobre o salário – que é remuneração de trabalho, e não ganho adicional, e Dantas e Nahas não paguem nem um décimo disso. Não pagam. Dez para o Silvio Santos, o maior contribuinte individual do imposto de renda no Brasil. Silvio não discute. Paga. Chegou à conclusão que é melhor para ele e para todos. É tão milionário como Dantas. E Silvio é argentino...
Eike Batista é financista como Nahas, e mais rico que este. E também paga. Seu primeiro bilhão teve mais 24%, correspondente à gorda fatia do Tesouro. Pode-se dizer que Eike é um filhote dos tempos da ditadura, em que os grandes negócios eram fechados às escuras. Há dezenas de filhos d’algo iguais a ele por aí – mas só ele conseguiu ser bilionário. E pagando imposto, normal, igual a nós.
Dantas e Nahas cospem na nossa cara. Dantas embarcou na canoa petista desde o início; era o homem que “resolvia as coisas”, fazia aparecer o dinheiro eleitoral. A corrupção de Nahas vem de mais longe, é fruto direto da inflação descontrolada, quando as pessoas convertiam cruzeiros e cruzados em dólar para tentar manter o valor do seu dinheiro. Nahas arranjava os dólares, no mercado negro que todos toleravam porque todos usavam, inclusive as autoridades. De onde vinham? De vez em quando um brasileiro se encrencava nos EUA com os dólares do Nahas... Mas dentro do Brasil eles resolviam, e ponto. Ele é, portanto, um desses seres cinzentos, que servem de ponte entre o legal e o ilegal, no gueto entre a lei e a realidade. Muito houve como ele, que, estabilizada a economia, pegaram seus ganhos e abriram financeiras, empresas de turismo, capitalizaram as relações que haviam construído com os dólares em negócios legais. Nahas manteve-se à margem, e, agora, a tolerância acabou para ele.
Dantas e Nahas são produtos da violenta distorção provocada pela concentração de renda no país, pela discrepância entre as leis e os costumes, pelo cipoal burocrático que envolve os processos judiciais, que evita soluções simples e diretas, e exige quatro, cinco anos, de investigação para que se consiga blindar como prova o que todo mundo sabe há muito tempo. Sua atuação reforça as distorções e discrepâncias. Beneficiam-se do cipoal, e, cada vez mais ricos, nos vêem como uns fracassados, só porque não colocamos o dinheiro como o foco principal de nossas vidas.
Mas Dantas e Nahas são também aquelas pessoas cujo dinheiro move a máquina do crime – e não estou falando de crime de colarinho branco, sofisticado e de computador. Estou falando é do garoto executado pela polícia no Rio de Janeiro, dos rapazes mortos pelo tráfico. Pois afinal, de onde vêm os dólares do mercado negro, a praia de Nahas onde desagua o banco de Dantas? Esses dólares são ondas criminosas que vão e vem, deixando os lucros na praia. Eles vêm da arma clandestina, do crack, dos assassinatos de encomenda, do preço, enfim, da violência, que leva boa parte dos 24% que descontamos de nossos salários. Seus piores crimes não são os elencados no processo: são a geração de mais violência, de mais tráfico, de mais crimes.
E nós – nós, pagamos.
terça-feira, 29 de abril de 2008
República sindical
Ele poderia ter usado a máquina do Estado à sua discrição. O regime assim o permitia.
Mas seu governo foi austero e sua discrição pessoal se tornou lendária.
Ele enfrentou guerras na fronteira sul, mas a inflação ficou sob controle.
Depois dele, não quisemos mais imperadores. Criou-se a república militar, e, depois dessa, criaram-se mais três, apenas uma delas totalmente civil.
A quinta república, lançada por Tancredo Neves e inaugurada por José Sarney corre o risco de terminar agora, ainda viva a geração que lutou por ela, e dar lugar à sexta, a República Sindical.
Nos sindicatos, os dirigentes apóiam-se na inércia da maioria e podem eternizar-se mediante o simples expediente de manter as pessoas em casa mediante a distribuição de vantagens – bons negócios, no caso de empresários, aumentos anuais, no caso de empregados.
Assembléias ditas gerais, em sindicatos de milhares de associados, reúnem cem ou duzentas pessoas. Geralmente belicosas, geralmente agressivas, geralmente corruptas.
A história dos sindicatos é uma história de corrupção. Alguns filmes tratam do assunto (o mais recente, “A Invasão dos Bárbaros”, é canadense) e muitos trabalhos acadêmicos, convenientemente “esquecidos” pela maioria, também.
Sindicatos, no Brasil, têm seus recursos desviados para campanhas eleitorais – e foi por isso que empregados e empregadores se uniram para impedir que prestem contas do dinheiro que recebem. Lula disse que é a defesa da autonomia sindical. Mas prestar contas não quebra autonomia de ninguém: quebra a corrupção.
Dirigentes sindicais se apóiam no populismo. No irresponsável populismo que tornou o emprego extremamente difícil, graças à enorme burocracia pendurada nele: Justiça do Trabalho, Ministério Público do Trabalho, Ministério do Trabalho, Ministério da Previdência, Sistema S, e mais de mil sindicatos. Para manter cem empregos abertos, um desses terá que ser dedicado exclusivamente à papelada do emprego.
E eis que, agora, o modelo chega ao Planalto: vamos para o terceiro mandato?
Lula repete Floriano e Getúlio: “o povo me quer”.
Ele vendeu a alma da mãe ao diabo para chegar à Presidência: fez o acordo com os banqueiros, do jeitinho mesmo que eles queriam: eles financiaram a campanha dele, por via dos sindicatos. Agora, vai vender a própria alma a Satanás, para manter-se nela. Está rompendo todos os limites da dignidade, da ética, da consciência política, da coerência pessoal. Está sendo mais um caudilho, figura que se pensava tivesse o Brasil excluído de sua vida política.
A corrupção grassa solta, os meios e modos mais sórdidos para eternizar-se no poder são usados de maneira escancarada. A autorização de roubar é dada pelo próprio presidente: condena-se o governador do Ceará por ter levado a sogra para a Europa, mas Lula levou antes o filho para o Chile e para Antártida. De fato, não há proibição expressa em lei nenhuma, como alega o governador. Mas é preciso?
O país inteiro sabe dos meios escusos da camarilha presidencial. E é isso, mais que tudo, o que enfraquece as ações de segurança pública. Mas, afinal, quem se importa? Da mesma maneira como ninguém se importa com o que acontece com o dinheiro do imposto sindical. Porque não houve um só protesto quando Lula impediu que os sindicatos prestassem contas do dinheiro que recebem.
Se ficarmos quietos, teremos que chamar Lula de Pai dos Pobres, como a Perón, ou Pai da Pátria como a Stálin. Ou talvez tenhamos uma caricatura de imperador: o que não quisemos há mais de século, agora feito no Paraguai. Ou na China.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Ressaca de elefante
A notícia me lembrou o Senado. Cerveja feita em casa – mordomias, cumplicidades, safadeza miúda paga pelo Estado – e um pileque de poder. Renan coçou as costas no lugar errado – daí por diante, os elefantes perderam o controle de si mesmos.
É necessário interromper a farra da manada. Mas que a tropa de elite não se assanhe: não queremos trocar uma manada por outra. Não queremos ditadores à la Hugo Chavez (que afinal, apenas repete o que os militares fizeram: um Congresso fantoche para fazer de conta que havia democracia). Muito menos Lula ad aeternum. Pessoalmente, eu quero a coragem, a austeridade e a competência de José Serra. Ele enfrentou e venceu os grandes laboratórios multinacionais, e isso, para mim, o credencia a enfrentar quem quer que seja, se Presidente da República. Afinal, os grandes laboratórios multinacionais são a vaca sagrada do capitalismo mundial. A vitória de Serra serviu ao Brasil, e a todos os pobres do mundo. Lula, o eterno protestador de passeata, faz um enorme agá com uma política externa pelos pobres, mas não fez até agora nada por eles – e não aguentou nem meia pressão de Bush. Aliás, não aguentou nem a pressão interna dos bancos, hoje os maiores beneficiários da Previdência Social. Duvida? Pergunte à Previdência quanto cada banco recebe, por cabeça e por mês, para permitir que os miseráveis aposentados recebam seu dinheirinho no caixa eletrônico...
O país está criando, aos poucos, as condições para uma grande ressaca cívica, depois do pileque dos elefantes senatoriais. A crítica circula livre na rede, graças a Deus, porque a censura é quem circula nas tevês abertas. Censura de interesses: ah, é cliente, deixa... Que aliás é a pior censura que existe, porque não tem regras nem parâmetros. Mais dia, menos dia, a crítica vai pular fora da rede e ganhar o espaço mais importante: a consciência cidadã de quem não dá, não dá mais.
A primeira onda da ressaca apareceu na praia do PAN, na forma de uma vaia que cassou a palavra de Lula. A segunda, na praia da seleção, na forma de um gigantesco coral de palavrões destinados a Galvão Bueno e à rede Globo. O que tem a ver? Ora, ora, não me decepcionem! Com quem dorme a Vênus Platinada?
Outras ondas virão, e talvez a gente tenha de volta um pouco de decência pública. Vergonha, sabe? Aquele sentimento que faz com que a gente preze a opinião que os outros têm da gente, que faz com que a gente se comporte civilizadamente, mesmo que esteja querendo voltar para a barbárie, mesmo que esteja querendo tomar um porre de elefante. A vantagem de ter vergonha na cara é que, depois de vencer a tentação, a gente pode ter orgulho de si mesmo. Ou de seu país. Ou de seu Senado. Ou de seus aldeões, capazes de desviar a manada e salvar os elefantes e o povoado.
sábado, 14 de julho de 2007
Todo político é corrupto?
Eu lhe respondi que sim, e isto não é tão raro quanto se pensa. Poderia citar Pedro II, nosso imperador de muitos defeitos, mas cuja honradez jamais foi colocada em dúvida – e ele exercia poderes autocráticos. Poderia citar dois ditadores, com poderes semelhantes: Getúlio Vargas e Ernesto Geisel. Jamais tiveram a sua honra questionada – o seu pelourinho foi outro.
No nosso Congresso tão achincalhado, hoje há vultos como Eduardo Suplicy, Jefferson Peres, Denise Frossard, Pedro Simon e Álvaro Valle – cada qual de um partido diferente, e selecionei de propósito assim – de quem ninguém discute a seriedade. Sobre eles não pesa nem a sombra de uma suspeita.
A questão – disse eu ao psiquiatra – é que nós todos, humanamente, muito humanamente, nos deliciamos com um escândalo qualquer. E por isso é o escandaloso que ocupa a mídia. Mas, se Maluf se elegeu em São Paulo, Suplicy também veio de lá. Ou seja: há quem vote em Maluf e quem vote em Suplicy. Há quem vote nos dois. E este último é senador, enquanto o outro é apenas deputado. O eleitorado sabe o que quer...
Além disso, o exercício da política é intrigante. Em todos os sentidos: não só intriga as pessoas, como vive de intrigas. Em política, boato pode gerar fatos, e há os especialistas em boatos. Como Iago: uma suspeita aqui, outra ali, uma história mal contada em cima de um gesto mal interpretado – e as conclusões começam a aparecer. O intrigante fica na dele. Mas o fato está criado.
Mais ainda: política é como pista de patinação, skate, surfe. É uma arte de acrobacias vivenciais. Um político me disse uma vez, exasperado com um eleitor: “Você fez dez coisas pelo sujeito, deixa de fazer uma, pronto, lá vai ele para outro gabinete.” Queixa comum, essa. O que ocorre de fato é que o eleitor interpreta o não-feito, por quem sempre fez, como perda de poder. O político já não pode mais representá-lo...
Em que consiste um bom político? De que qualidades será ele feito? Essa pergunta raramente é feita; embora a maioria das pessoas julgue de pronto “os políticos”, e geralmente julgue mal, não se preocupa em definir o que é qualidade em política.
Como o político pratica acrobacias, ele tem que ser ágil. No caso, a agilidade tem que ser mental, por raciocínio ou intuição. Não existe atividade mais competitiva que a política - nem a esportiva é tão radical assim, competindo todos os dias, de manhã à noite - e por isso ele tem que tentar estar sempre um pouco à frente dos adversários. E os adversários podem ser os membros de outro partido, ou podem ser os próprios correligionários (como por exemplo, numa eleição), dependendo da ocasião. Como ele depende do voto, ele deve manter-se dentro da expectativa do eleitorado, o que significa que seus gestos e atos devem pautar-se pela opinião e demandas alheias. E, finalmente, ele precisa alcançar um número suficiente de eleitores, ou manter-se ao alcance deles, para poder atendê-los, o que significa estabelecer meios de comunicação contínua.
Esses são os parâmetros, as condições básicas, ou melhor, as condições limitantes.
São condições duras. Para enfrentá-las, o bom político deve ser um articulador – uma pessoa capaz de convencer os outros, inclusive seus pares, para seguir num determinado rumo; um bom ouvinte, para ser capaz de entender o que lhe diz a população e principalmente seus eleitores; ter criatividade suficiente para ultrapassar os impasses, ou para apresentar propostas novas; tomar cuidado com sua imagem, de forma a apresentar-se sempre pelo melhor ângulo; e, finalmente, arrumar seu plano de despesas a partir do seu eleitorado.
Tudo isto, no chão marítimo de uma sociedade em permanente transformação, na corda bamba das flutuações da opinião pública, e nas curvas radicais dos fatos sociais. E como a sociedade é plural, há lugar para tudo num Congresso Nacional: a virtude e o pecado estarão lá representados na mesma proporção que existem na sociedade. Combatendo entre si do mesmo jeito como acontece em toda parte. E incapazes de vencer, uma ou outra, porque, sempre, na nossa humaníssima insatisfação permanente, quando se consegue uma coisa já se quer outra, e, na política, o que se alcança vira passado, porque há sempre um novo problema para resolver...