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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Brasil profundo


O Congresso é a cara do Brasil. É ele que espelha, física e moralmente, o Brasil profundo, do litoral, do sertão e das cidades. Especialistas políticos caracterizaram o Congresso que iniciou suas sessões ontem como de centro-direita, com o avanço de das bancadas religiosas e da chamada bancada da bala.

E esse Brasil mostrou a sua cara, ontem, ao eleger Eduardo Cunha.

Infelizmente, não é a cara que eu gostaria de ver.

A cara que vejo hoje é enrugada por práticas corruptas, hidratada pelos panos quentes postos sobre os escândalos, maquiada pelo marketing irresponsável, enfeitada com ouro de tolo e com o olhar esquivo dos trapaceiros.

Ontem, o Brasil estendeu um tapete para tentar esconder o lixo.

Mas o Congresso se esqueceu que o lixo fede. A podridão se impõe para muito além do ponto onde ocorre. E quando o lixo é muito, e é antigo, faz escorrer chorume. O chorume contamina tudo o que toca, terra e água. E também tapetes.

Na semana passada um título de jornal ilustrou essa contaminação: dizia que o desvio na Petrobrás sustentaria o programa bolsa-família por uma década. A leitura subliminar dessa manchete é a seguinte: esse dinheiro que está no bolso deles devia estar no meu. O chorume toca, aqui, o inconsciente coletivo.

Cunha não fará oposição – aliás, ele declarou isso sem subterfúgios – e sim, lado a lado com Renan Calheiros e Michel Temer, a acomodação dos fichas sujas, sejam eles de que partido forem. Esse foi o pano de fundo que garantiu sua eleição. O site “Congresso em Foco” informa que essa é a bancada mais numerosa do Congresso. Em 2012, era composta por 191 deputados ou senadores. Nas últimas eleições saíram 34 deputados e entraram 40 com processos, em sua maioria por corrupção. Esse contingente de deputados representa 18% da Câmara. Entre eles está o próprio Eduardo Cunha. E entre eles não estão (ainda) os envolvidos nos desmandos da Petrobrás.

No entanto, precisamos ter esperança. Num artigo publicado neste domingo passado, Fernando Henrique coloca as suas no Judiciário. Em outro artigo, despedindo-se da política partidária, José Sarney apela para a pressão suprapartidária, a fim de evitar males maiores para o Maranhão. Lula, em vídeo circulante na internet, grita pela mobilização do PT. Os três ex-presidentes, de posições tão diferentes entre si, manifestam simultaneamente extrema preocupação com o momento nacional.

Mas, para os parlamentares eleitores de Eduardo Cunha, que reivindicam aumento das mordomias e das respectivas remunerações, a preocupação parece ser somente a que mobiliza hoje o Brasil profundo: que fantasias usarão daqui a duas semanas, no Carnaval.

Porque as fantasias de palhaço já têm donos: somos nós.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Jatene e Serra (declaração de voto)

No ano em que completei 14 anos, dois fatos importantes me marcaram para toda vida. Em uniforme de colégio, de saia comprida e meias curtas, à noitinha, com medo e emoção, eu participava, na escadinha do cais do porto, de um primeiro comício. Era em defesa da Petrobrás. Pouco depois também conseguia meu primeiro trabalho regular: correção de textos escritos em português por um cientista alemão, em troca de um curso de datilografia, que não podia pagar. Seis meses de trabalho duro.

Desde então não parei na militância e no trabalho. A lista de atividades é longa e não vem ao caso descrevê-la. Este ano completei 50 anos de militância e, finalmente, livrei-me dos patrões, tanto os públicos, como os privados.

Como não sou de omissões, escolhi um partido político. Minha geração lutou muito, sofreu, e muitos morreram para garantir o direito de voto e de livre escolha para todos. Nós sabemos o quanto custa não ter.

Desde então, tenho sofrido patrulhamentos de muitos que, naquela época, dividiam o pão e o medo, e de outros que, nestas épocas recentes, usufruem a liberdade conquistada. Alguns se recusam até reconhecer minha participação naquelas lutas... Como se estar num partido que não continue atirando pedras a esmo, sem compromisso de construção, fosse um delito, um crime, uma traição.

Mas foi com enorme prazer que vi, finalmente, uma disputa eleitoral em que os candidatos a presidente tinham passado limpo, honrado, militante – foi a disputa entre Fernando Henrique e Lula. Nada de Collor, Sarney etc. À época, participando da campanha de Fernando Henrique, pensava que, qualquer que fosse o resultado, seria um avanço para o país.

Continuo certa de que foi. Fernando Henrique recompôs o Brasil, enfrentando uma oposição dura e leviana. Mais tarde conclui que a democracia também ensina a fazer oposição. Aquelas pessoas não sabiam: eram habituadas aos combates, não às discussões. Eram impermeáveis ao diálogo; dividiam o mundo em duas partes, a “nossa” e a “deles”. Brizola foi uma exceção. Um oposicionista capaz de conversar. Hoje, querem riscar Brizola da História do Brasil.

No Pará, Almir Gabriel, como vários outros governadores que assumiram então, encontrou o Estado esfacelado. Muitos de nós trabalhamos sem nomeação, àquela época, porque o Governo do Estado não tinha dinheiro nem crédito e antes de qualquer coisa era preciso negociar as dívidas, escalonar, sair do sufoco.

Algumas pessoas foram essenciais nesse processo. O próprio Fernando Henrique, com um apoio discreto e interessado; jogando todo o poderio de São Paulo em favor do Pará, José Serra e Mário Covas. E, indo e vindo de Brasília, discutindo com credores a enorme dívida do Estado, procurando aliados, assumindo compromissos, Simão Jatene.

Em três meses, a administração começou a fluir, contando centavos. As condições da recomposição eram extremamente duras. A oposição petista, que insultara Fernando Henrique no dia da posse e atirara pedras no governador Mário Covas, aproveitou-se da fragilidade e falta de recursos do governo para transformar o massacre de Eldorado num episódio com contornos muito maiores do que realmente era. Apesar disso – que provocou, aliás, um retraimento de investidores, por conta da imagem de que o Pará era um caldeirão prestes a explodir, o que precisou de convencimento até pessoal para mudar o quadro – a recuperação do Pará foi construída.

O PT exigia conselhos deliberativos em todas as instâncias de governo. Conselhos com poderes de cercear o executivo. Exigia eleições em toda parte. Exigia padrões de vida europeus – sem nem querer saber de onde vinha o dinheiro.

Nenhum membro do PT mexeu uma palha para recuperar o Pará. Quando eles podiam, arrumavam mais palha para complicar.

Lula e Ana Júlia assumiram os respectivos governos com a moeda estável, as contas em dia, os impostos suportáveis, reserva financeira para as primeiras folhas de pagamento, e o trem no trilho.

E aí, o PT atirou-se desbragamente à demagogia. Os conselhos viraram Fóruns, esvaziados. O governo passou a girar em torno das multidões de eleitores. O dinheiro – é, o dinheiro – passou a centralizar todas as decisões. Um núcleo econômico mais conservador que o de Fernando Henrique se encarregou de levar à escala de massa a filantropia dos grandes milionários. Pouco importa se a renda continua cada vez mais concentrada, se a desigualdade regional continua mais profunda. Os petistas dirão que a miséria diminuiu, e é verdade. O que não dizem, é que a classe média também diminuiu, sufocada pelos impostos, e o topo da pirâmide continua igual: os mesmos ricos, com mais dinheiro ainda.

Ouço Dilma na tevê, defendendo uma reforma tributária cruel, que aumenta a carga sobre os consumidores. Explicando que, ao distribuir dinheiro para os pobres, o governo move a máquina do consumo e dizendo que isso é crescimento econômico, no modelo capitalista mais primário e duro. Ela resume com precisão o pensamento do PT, e, com isso, desvenda as razões do apoio que recebe do grande capital: o sonho dourado tornado realidade, conservadorismo vestido de cor-de-rosa. O que eles não conseguiram com Collor, conseguiram com Lula: o país vive o mais selvagem capitalismo, onde os excluídos são mortos, e está feliz.

No último ano de seu governo, Lula visita e reúne com os piores ditadores do mundo. Posa para foto ao lado de sanguinários fundamentalistas, que matam mulheres e chicoteiam gays. Renega os cristãos, que o apoiaram quando perseguido, em prol de uma falsa liberalidade. Alia-se com toda a banda podre do país e garante imunidades. Sua mulher, deslumbrada, não tem vergonha de pedir cidadania italiana para os netos...

Nos oito anos do governo Lula, o Norte foi descartado. Ele não tem multidões de eleitores... A pressão do grande capital instalado em Manaus levou algumas migalhas para o Amazonas. Um recente discurso do próprio Lula, com críticas ferozes à legislação ambiental, e a ausência de propostas em favor do meio ambiente, no programa de Dilma, retratam como eles vêem a Amazônia: o grande território a ser explorado até a última espinha de peixe.

Jatene enfrentou quatro anos de governo Lula, tratado como oposição nortista, ou seja – o último dos últimos da fila. No entanto, o Pará continuou o crescimento econômico acima da média brasileira. Em três anos, Ana Julia conseguiu reduzir o crescimento para abaixo da média.

Eis porque, da mesma forma como enfrentei o golpe militar, chamado de “revolução” por milhões de brasileiros que festejavam as tropas com chuvas de papel picado e aplausos nas ruas – o que não aconteceu apenas em Copacabana – enfrento hoje a miragem ilusionista do lulismo. Pouco importa se as fardas verdes foram substituídas por camisetas vermelhas: o que importa é quem as comanda.
E para reconhecer os verdadeiros comandantes, os barões do império que nunca se desfez, basta procurar os sobrenomes...

É por isso que eu voto Serra e Jatene.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O presidente e Sakineh

Bem, agora o presidente do Irã chamou Lula de “emotivo”, para não dizer coisa pior... porque o contexto da declaração é de coisa pior, mesmo.

Eu não consigo pensar em diálogo com o presidente do Irã.

Não depois do que o fanatismo dessas pessoas fez com as mulheres iranianas.

Não depois de olhar a história de sua ascenção ao poder.

Os fundamentalistas não depuseram o Xá. Eles não participaram da organização da República.

Eles cobriram o Irã de uma camada de obscurantismo.

Azar Nafisi conta o que eles fizeram com as mulheres que resistiram às absurdas leis que reduziram a idade nupcial das mulheres para nove anos – é, nove anos de idade e uma iraniana pode ser entregue para casar -, deram aos maridos o direito de espancar, proibir, trancar e amordaçar – mordaças de couro, às vezes máscaras com abertura apenas para respirar – e, às milícias encarregadas dos costumes, o chicoteamento nas ruas.

As mulheres reagiram e se manifestaram, lado a lado com milhares de homens que não aceitaram o retrocesso. Elas iam para as passeatas; eram presas e chicoteadas. Centenas delas foram mortas – e, sob a alegação de que, se fossem virgens, iriam para o céu, eram entregues em “casamento” aos guardas das prisões, que as estupravam antes de matá-las. Mulheres consideradas adúlteras – muitas vezes por uma simples acusação do marido – eram metidas num saco e apedrejadas até morrer.

Lula se disse chocado com a condenação de Sakineh – considerada adúltera e condenada a morrer apedrejada – neste julho de 2010.

Antes tarde do que nunca, mas o governo dos aiatolás dura desde 1980, numa trilha sanguinária que inclui milhares de mulheres submetidas a crueldade e morte; soldados crianças, mandados deliberadamente para a morte explodindo minas terrestres na guerra com o Iraque; tortura e morte de homossexuais; mutilação de pessoas; prisão, confisco de bens e dos filhos, e morte para bahá’is, budistas e demais seguidores de religiões orientais.

A lista de atrocidades é longa, e a quantidade de vítimas sobe a centenas de milhares.

A distensão, verificada na última década, não mudou as leis. Apenas diminiu sua aplicação.

Lula faz de conta que não sabe de tudo isso.

Mas não saber é coisa grave para um presidente.

Lula diz que aceita o Irã porque é preciso dialogar para superar diferenças.

Mas, no caso, a questão não é de diálogo. É de justiça.

A violência indiscriminada contra as mulheres no Irã não é um simples assunto interno do Irã. O estupro legal de uma menina de nove anos não pode ser admitido. Dialogar com pessoas que defendem isso é impossível, porque a conversa já está comprometida desde o início.

Que o Irã queira chamar os Estados Unidos de Grande Satã – é problema dele. Que queira desafiar os controles do enriquecimento nuclear – também é problema dele. Mas não se pode admitir a violência legalizada a que as mulheres do Irã estão submetidas. E a questão não é islâmica – é de direitos humanos. E a grande maioria dos países islâmicos há muito abandonou essas práticas.

Nós, brasileiros, nos orgulhamos de nossa tolerância. Mas não podemos permitir que alguém se aproveite dessa tolerância para ser intolerante.

Também não podemos aceitar que, em nome das exportações, se reconheça como parceiro um regime atolado de sangue. Seria como vender princípios junto com o café.

Traduzindo: o pragmatismo tem limite. E este limite não é emotivo.

sábado, 13 de março de 2010

Lula e Cuba

Minha amiga me olhou furiosa quando lhe disse que não acreditava que o sistema de saúde de Cuba fosse o melhor do mundo. “Simples lógica – eu lhe disse – eu não conheço os números, mas os países nórdicos têm muito mais de tudo para ter um sistema melhor. E tenho a impressão que por lá as pessoas vivem mais tempo, e com uma boa qualidade de vida”. Ela então disse que eu estava esquecendo do embargo econômico. E aí seguiu-se um discurso que ouço desde meados do século passado. Eu não discuto mais essas coisas; é inútil. Para muitos brasileiros, Cuba é uma questão de paixão. Tipo Flamengo.

Para mim, Cuba foi uma referência nos primeiros anos de vida adulta. Eu li tudo o que pude sobre a ilha, a revolução, Fulgencio Batista, os americanos, até mesmo a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, que começou em Havana. Mas os anos se passavam, e Fidel Castro continuava no poder. Depois veio Kennedy e o episódio da baía dos Porcos. O que me chocou naquele episódio foi o armamento atômico posto em Cuba pelos soviéticos. Foi minha primeira decepção – como Fidel Castro pôde permitir uma tal exposição do povo cubano?

Nesse meio tempo, um outro fato contribuía para aluir minha referência. O banho de sangue chileno, na instalação da ditadura por lá. Quando Fidel assumiu, os fuzilamentos em massa comandados por Che Guevara nos chegavam tingidos de idealismo. Anos depois, quando Allende morreu no palácio incendiado, e os chilenos viviam os fuzilamentos em massa, eu compreendi de repente o que Fidel fizera em Cuba. O paredón crivado de balas atrás das pessoas vendadas era igual.

Vinham notícias pelas vias clandestinas: ah, o povo cubano adora Fidel! E eu pensava: os portugueses também adoram Salazar! Porque Salazar comparado a Fidel? Por uma questão de escala: Cuba e Portugal têm quase o mesmo tamanho – cerca de 100 mil metros quadrados – uma população equivalente, e, embora Portugal não seja uma ilha, depende do mar para tudo – ou tem que pedir licença para a Espanha. E por uma questão de semelhança política: Fidel e Salazar chegaram ao poder pela via militar, e ambos foram implacáveis com os adversários; ambos fizeram belíssimas reformas educacionais e colocaram os sistemas de saúde em dia; ambos censuraram tudo o que puderam, de anúncios a tratados técnicos. Ambos eram intransigentes defensores de uma causa: Fidel, a de Cuba socialista; Salazar, a de Portugal imperialista. Ao final, ambos governaram por quase meio século. E todos dois nunca pararam de falar em democracia... de extrema esquerda, o primeiro; de extrema direita, o segundo. E eu sei que as paralelas se encontram em algum lugar.

E, depois, os auto-exilados cubanos, povoando a Flórida. E os protestos contra o embargo comercial norte-americano – imposto, aliás, pelo Congresso dos Estados Unidos. Mas os soviéticos suprem Cuba! – eu pensava. Eram de 4 a 6 bilhões de dólares por ano em subsídios embutidos em preços irrisórios e cooperação gratuita. Cuba nunca teve que pagar caro combustível, nem com o choque do petróleo. Quando a fonte secou, com a queda do império soviético, a Venezuela e a China tentaram manter o dinheiro correndo. Era muito menos, mas, ainda assim, um ou dois bilhões de dólares anuais, representam uma considerável injeção de dinheiro sem encargos.

Cuba tem área equivalente à do Estado de Pernambuco. Em 2009, a estimativa da população residente em Pernambuco era de cerca de 9 milhões de pessoas; em Cuba, 11 milhões. O orçamento de 2009 em Pernambuco foi equivalente a 12 bilhões de dólares; podemos agregar aí algo entre 2 a 3 bilhões, oriundos de recursos da União aplicados diretamente no Estado. O orçamento de Cuba, a 47 bilhões. (Fontes: sites oficiais da Fazenda cubana e do governo pernambucano). Cuba não é, pois, tão pobrezinha assim: por pessoa, Cuba pode gastar cerca de 4.200 dólares por ano; Pernambuco, 1.700 dólares por ano. É óbvio que esta comparação não tem rigor acadêmico: faço-a apenas para estabelecer um paralelo com algo mais próximo de nós. Se compararmos o orçamento de Cuba ao de Portugal, a discrepância é brutal: em 2009, Portugal orçou 161 bilhões de euros – ao câmbio de 1,46, algo em torno de 230 bilhões de dólares. Pobre Pernambuco!

Desculpem a chatice dos dois parágrafos anteriores, mas é preciso sempre dar uma olhada nos números, porque são eles que confirmam – ou não – os discursos e as intenções dos governantes.

Sim, e depois? A guerra fria terminou. Ondas democráticas substituíram o duro chão das ditaduras sul-americanas. Os países começaram a navegar: anistias, julgamentos, pensamento aberto, perdão, reparação. Comunistas hastearam suas bandeiras por todo o continente, livres enfim de quase um século de perseguição. Todos navegam, menos Cuba. Nenhuma mão estendida para a solução dos impasses: ano após ano, Fidel cobra contas como se o fato de o mundo todo não estar contra os Estados Unidos fosse suficiente para ser devedor de Cuba.

Aí Fidel sai do governo. Ainda como Salazar, unge um herdeiro. Um golpe militar derrubou o herdeiro salazarista, e os cravos sinalizaram uma nova época para Portugal. O herdeiro fidelista continua. Relatórios insuspeitos mostram a piora da condição nutricional da população (OMS), aumento da mortalidade, a redução da produção cubana (ainda ONU) e etc – um nítido caminho para o esfacelamento. Minha amiga dirá: Culpa do embargo!

Mas este bordão não cola mais. Cuba, que desde os anos 90 comercia com o mundo todo – exceto os Estados Unidos – não consegue mais aguentar a fachada socialista. Os dirigentes latino-americanos sabem disso, e cada qual do seu lado, aproximam-se para conquistar um espaço na mudança que virá rapidamente. E foi isso o que Lula foi fazer em Cuba: negociar, entrar num mercado prestes a se abrir: o financiamento de um porto de 300 milhões de dólares, uma fábrica da Petrobrás por lá, disputando espaço com a Venezuela e com o México... Não sabiam? Pois é, o governo brasileiro não explica direito. Mas os estrangeiros estão de olho, e foi ninguém menos que Mário Vargas Llosa quem informou a agenda lulista.

Nada demais, digo eu e dizem vocês, ele está no seu papel.

Pois é. Mas o caso é que havia um morto e 84 famintos presos políticos no caminho. Eles pediram ajuda a Lula. E Lula recusou. Razões de Estado? Que razões são essas, meu Deus, que se alicerçam em cadáveres? Em que é proibida a caridade de uma esperança? Aqueles homens não são assassinos, nem ladrões, nem pedófilos ou estupradores. Eles defendem uma causa e se imolam por ela. São presos de consciência, porque há, sim, uma ditadura em Cuba.
Este presidente, que foi e está sendo incapaz de socorrer corretamente o Haiti, avança sobre Cuba em busca de lucros pisoteando liberdades. E se diz estadista... Para mim, ele virou um Bush barbado – deixou os escrúpulos, a vergonha e a consciência em algum lugar no passado.

terça-feira, 24 de julho de 2007

A verdade à tona

Ouço o presidente da República dizer que “a verdade virá à tona”, após a investigação que está sendo feita sobre o acidente da TAM. E vejo o pai do co-piloto morto, pedindo que a morte de tantos não seja inútil, mas que sirva para evitar outras mortes.

Este pai sabe: só o conhecimento resgata a dor, dá-lhe um sentido. Porque permite que o insuportável se torne um degrau a mais na evolução humana, e, por isso, consola.

E tem razão em outra coisa que disse: não há apenas um culpado, mas várias responsabilidades, porque de muitas coisas depende uma viagem aérea. De muitas mãos, de muitos cérebros e de muitas máquinas. Uma verdade simples e óbvia, não?

Como essa, algumas outras verdades estão à tona, ou melhor, flutuando no ar. Pelo jeito, Lula, que costuma não saber o que fazem seus auxiliares mais próximos, agora também não vê o que acontece diante do seu nariz. Ele não vê, por exemplo, que o finca-pé com os controladores de vôo não leva a lugar nenhum, e poderia recorrer a toda a sua experiência sindical para ver isso. Os controladores têm algumas razões e alguns excessos; é preciso separar o joio do trigo e, de uma vez por todas, ter reservas em elementos estratégicos – inclusive controladores de vôo.

Ele não vê que, menos que saber quem teve ou não culpa nos acidentes aéreos, o que se quer é respeito no tráfego aéreo. Entre outras coisas, não existe razão alguma para que metade do país tenha que ir a São Paulo pegar um avião para o exterior, ou que todo turista que use a aviação comercial seja obrigado a entrar por São Paulo ou pelo Rio. Não é necessário nenhum investimento novo para resolver isso. Basta ter capacidade de negociação e autoridade com as companhias aéreas. E também, ver o problema onde ele está.

Há cinco anos se discute o portão aéreo Norte – o hub amazônico, a ser definido entre Belém e Manaus. As exposições saem de uma gaveta para outra. O portão Nordeste, em Natal, está totalmente esvaziado: as companhias aéreas não dão a mínima para a desconcentração de vôos, e quem vem da Europa e quer ir para Salvador ou Fortaleza, tem que ir mesmo por São Paulo ou Rio.

Lula também não vê que a ponte aérea Rio/São Paulo, a ser operada entre Congonhas e Santos Dumont, foi dimensionada para aviões com menos de duzentos lugares. A permissão de uso dos grandes aviões não é de seu governo. Mas a bagunça originada pela liberação geral de uso desses dois aeroportos, é. Congonhas é usado como se Guarulhos fosse. O resultado está aí.

Não é preciso esperar que a verdade venha à tona, porque ela está dissecada há muito tempo, em relatórios e advertências, algumas vindas do exterior. Mas, para Lula, será a Polícia Federal quem vai descobrir as verdades. Aliás, eu e a maioria dos brasileiros não sabíamos que a Polícia Federal entende de política aeroportuária, de aviões e de acidentes aéreos...

Na segunda-feira passada, aviões que saíra de Nova Iorque para o Brasil, voltaram para os Estados Unidos, porque o controle aéreo saiu do ar. E Lula continua cego: o governo diz que foi um sargento que errou, só isso!