Mostrando postagens com marcador irã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador irã. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O presidente e Sakineh

Bem, agora o presidente do Irã chamou Lula de “emotivo”, para não dizer coisa pior... porque o contexto da declaração é de coisa pior, mesmo.

Eu não consigo pensar em diálogo com o presidente do Irã.

Não depois do que o fanatismo dessas pessoas fez com as mulheres iranianas.

Não depois de olhar a história de sua ascenção ao poder.

Os fundamentalistas não depuseram o Xá. Eles não participaram da organização da República.

Eles cobriram o Irã de uma camada de obscurantismo.

Azar Nafisi conta o que eles fizeram com as mulheres que resistiram às absurdas leis que reduziram a idade nupcial das mulheres para nove anos – é, nove anos de idade e uma iraniana pode ser entregue para casar -, deram aos maridos o direito de espancar, proibir, trancar e amordaçar – mordaças de couro, às vezes máscaras com abertura apenas para respirar – e, às milícias encarregadas dos costumes, o chicoteamento nas ruas.

As mulheres reagiram e se manifestaram, lado a lado com milhares de homens que não aceitaram o retrocesso. Elas iam para as passeatas; eram presas e chicoteadas. Centenas delas foram mortas – e, sob a alegação de que, se fossem virgens, iriam para o céu, eram entregues em “casamento” aos guardas das prisões, que as estupravam antes de matá-las. Mulheres consideradas adúlteras – muitas vezes por uma simples acusação do marido – eram metidas num saco e apedrejadas até morrer.

Lula se disse chocado com a condenação de Sakineh – considerada adúltera e condenada a morrer apedrejada – neste julho de 2010.

Antes tarde do que nunca, mas o governo dos aiatolás dura desde 1980, numa trilha sanguinária que inclui milhares de mulheres submetidas a crueldade e morte; soldados crianças, mandados deliberadamente para a morte explodindo minas terrestres na guerra com o Iraque; tortura e morte de homossexuais; mutilação de pessoas; prisão, confisco de bens e dos filhos, e morte para bahá’is, budistas e demais seguidores de religiões orientais.

A lista de atrocidades é longa, e a quantidade de vítimas sobe a centenas de milhares.

A distensão, verificada na última década, não mudou as leis. Apenas diminiu sua aplicação.

Lula faz de conta que não sabe de tudo isso.

Mas não saber é coisa grave para um presidente.

Lula diz que aceita o Irã porque é preciso dialogar para superar diferenças.

Mas, no caso, a questão não é de diálogo. É de justiça.

A violência indiscriminada contra as mulheres no Irã não é um simples assunto interno do Irã. O estupro legal de uma menina de nove anos não pode ser admitido. Dialogar com pessoas que defendem isso é impossível, porque a conversa já está comprometida desde o início.

Que o Irã queira chamar os Estados Unidos de Grande Satã – é problema dele. Que queira desafiar os controles do enriquecimento nuclear – também é problema dele. Mas não se pode admitir a violência legalizada a que as mulheres do Irã estão submetidas. E a questão não é islâmica – é de direitos humanos. E a grande maioria dos países islâmicos há muito abandonou essas práticas.

Nós, brasileiros, nos orgulhamos de nossa tolerância. Mas não podemos permitir que alguém se aproveite dessa tolerância para ser intolerante.

Também não podemos aceitar que, em nome das exportações, se reconheça como parceiro um regime atolado de sangue. Seria como vender princípios junto com o café.

Traduzindo: o pragmatismo tem limite. E este limite não é emotivo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Para não esquecer

Esta semana mergulhei em Varsóvia.

Eu não gosto de romances nem de filmes de guerra. Tanto nos romances como nos filmes, ela é maquiada. Mas eu leio documentários e vejo documentários. Tento entender como e porque acontece. O que leva as pessoas para a trilha da morte. Ainda acredito que este é um dos capítulos trancados do conhecimento, das coisas que não se sabe sobre a espécie humana.

Mas eu mergulhei em Varsóvia porque a luta polonesa na segunda guerra mundial foi algo de patético. Uma das fotos mais emblemáticas desta luta foi feita por Raymond Cartier, no seu antológico “II Guerra Mundial”: uma carga da cavalaria polonesa contra os tanques alemães. Sabres contra metralhadoras. Uma desesperada coragem, sem nenhuma chance ou alternativa.

O livro é “O Zoológico de Varsóvia”, de Diane Ackerman, e é uma história da resistência polonesa e da salvação dos judeus perseguidos.

Eu li, também, porque é preciso não esquecer até onde pode nos levar o cientificismo. Nesta época de sacralização da ciência, é preciso ter em mente que as muitas vertentes podem ser erradas, podem ser perigosas, podem nos arrastar para o excesso, para a tristeza – e, no rastro dela, à crueldade, como escreveu Drummond.

Há cerca de um mês, eu mergulhei no Gulag. Eu li Soljenitsin assim que saiu a tradução brasileira, ainda na guerra fria. Desta vez, fui pela internet, a partir dos discursos de Putín e Medvedev sobre o assunto – este último disse ser necessário ter o Gulag na memória russa, com todos os seus horrores, para que o país possa resolvê-lo. Eu queria saber como anda essa revisão. Encontrei museus, associações, páginas de depoimentos, a maioria delas ainda não traduzida.

O genocídio é semelhante, as técnicas são diferentes. O extermínio na Polônia durou quatro anos; na URSS, mais de vinte. A morte na tundra siberiana vinha por meio das doenças provocadas pela exaustão nos trabalhos forçados, fome e frio. Era lento e longo; a crueldade cotidiana, levando o horror contínuo para as vítimas, tinha formas diferentes, mas era, essencialmente, a mesma.

Os rasgos de heroísmo – aqueles gestos redentores, que nos devolvem esperanças – também são semelhantes. Em Varsóvia, alta adrenalina. No Gulag, paciência e piedade. Nos dois casos, o passado volta na forma de documentos abandonados, escritos, diários, jornais de resistência.

Eu estou tocando neste assunto, hoje, por causa da visita do presidente do Irã, e do discurso oficial da tolerância para com um homem que nega ter havido um extermínio judeu. Vejam bem: a questão não é com o presidente do Irã. É com Ahmadinejad, mesmo. Khomehini, o aiatolá-símbolo da revolução iraniana nunca chegou a esse ponto, apesar de sacerdote fundamentalista radical e de seu ódio a Israel.

Eu me pergunto até onde a tolerância com Hitler e Stálin responde por Varsóvia e pelo Gulag. E até onde irá o governo brasileiro nesta “ambição de se tornar ator importante no palco diplomático global”, como expressou o NY Times. E fico triste ao ver, nas enquetes feitas pela internet, que a grande maioria dos brasileiros acha que o Brasil não tem nada a perder proporcionando um palanque para Ahmadinejad.