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domingo, 22 de fevereiro de 2015

A flor da Guiné


Desde o dia em que saiu o resultado do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro que ando matutando sobre a Guiné Equatorial. Que bela flor viu lá o colibri carioca?

Tão bela e tão perfumada que eclipsou qualquer preocupação, todos os desgastes e todas as dificuldades para representar na avenida um país com 400.000 habitantes (dado oficial da Embaixada da Guiné no Brasil, mas há quem diga que são mais, e outros, que são menos), duramente marcado pela colonização, estigmatizado pelas violações constantes de direitos humanos, com 77% da população abaixo da linha da pobreza e descoberto por um navegador português chamado Fernando Pó.

É, Fernando Pó.

Bem, a Petrobrás está lá. Ela adquiriu, em janeiro de 2006, 50% de participação num contrato de partilha de produção de petróleo (bloco L, na bacia do rio Muni) operado pela Chevron, que perfurou dois poços que deram em nada e, no ano seguinte, abandonou o bloco e o país. A Petrobrás continua tentando, talvez acreditando que “é preciso mais que cinco poços secos para condenar uma bacia.” Em 2009 o NY Times dizia que poucos países simbolizam tão bem a corrupção e o nepotismo do óleo como a Guiné Equatorial e que as petroleiras que trabalham ali estavam preocupadas com a imagem do país.

Bingo? Não sei, ouso pensar, mas não ouso opinar sobre isso.

Mas esse contrato que a Petrobrás assinou parece um pouco com a história de Pasadena, não? O ano é o mesmo e a Petrobrás comprou mico nos dois casos: na Guiné, comprou em janeiro uma participação de exploração de um bloco que ia ser perfurado no mesmo ano; no ano seguinte, fica com um poço seco... Toyin Akinosho, analista do Africa Oil+Gas Report, jornal mensal dedicado à indústria do petróleo, comenta que a decisão de ficar, tomada pela Petrobrás, talvez se deva ao fato de que os dirigentes de estatais não têm a mesma responsabilidade que têm os das empresas privadas perante os acionistas...

E de repente a Beija Flor repete Fernando Pó e descobre a Guiné Equatorial. E ganha o campeonato. E com certeza será convidada a se apresentar lá: bateria, mulatas, dirigentes da escola e da Liga das Escolas de Samba. E voltará dizendo que o povo da Guiné se entusiasmou tanto que todos pensam numa continuação por lá.

E Neguinho da Beija Flor dá entrevista dizendo que é a contravenção que financia o carnaval carioca.

E o governo da Guiné diz que foram as empresas, no papel de animadores culturais, que financiaram a escola. Empresas ansiosas para melhorar a imagem do país. Mas empresas que podem reunir alguns milhões de reais numa vaquinha assim, informal, para financiar uma agremiação cultural cuja importância se restringe ao Brasil, e uma vez por ano? E a responsabilidade com os acionistas? Bem, se o acionista principal for uma viúva rica, é só seduzir a viúva, não?

Ainda tentando descobrir a flor que encantou o colibri carioca, leio, por meio do Trip Advisor, relato de viagens feitas a esse país. Num deles, o viajante escreve: “Museus? Bem, a Air France tem voos diários” para acrescentar que só a natureza, que ele qualifica de magnífica, é que oferece o que ver.

Eu imagino o Pó navegando para descobrir a ilha de Bioko. Visualizando alegorias e fantasias, com árvores de renda franzida e mulheres seminuas. Fissurado depois da longa viagem por novos cheiros, que o façam esquecer o que vem do interior das caravelas. Atraído pelo brilho da riqueza negra.

O que o Brasil está fazendo com os africanos? Meu Deus!


domingo, 13 de abril de 2014

Meiguices


Estive fora do ar na semana passada por conta do que chamo “a gripe de abril” – ela me derruba todos os anos, no mesmo mês. Mudança de estação, acho. Por conta da gripe, eu gostaria de escrever só sobre coisas belas e suaves – meigas, como diz a Mônica do Maurício Souza. Mas as meiguices que encontro... Vejo e ouço o ministro Mantega dizer na televisão que a inflação é sazonal. Pois vejam o que ele disse no ano passado, como publicou a e-revista “Época”, em sua edição de 15 de abril de 2013, sob o título “A inflação do tomate”:

O governo só se pronunciou sobre o assunto depois que o índice foi divulgado, na última quarta-feira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não pouparia esforços para evitar a alta de preços e quis demonstrar otimismo. Afirmou que a entressafra agrícola terminará em breve, que as pressões sobre o setor de serviços estão mais brandas. Também lembrou que a inflação de março foi a mais baixa do ano - segundo ele, um bom sinal.

Igual ao que ele disse agora – mas o bom sinal foi para o espaço, porque o IPCA (índice de preços ao consumidor ampliado) de março de 2014 foi o mais elevado dos últimos 11 anos. A presidente vai para a tevê para dizer que chove demais de um lado, seca demais de outro e, por isso... E aí o pessoal da carne vem e diz que sabe como é, a estiagem anual começou muito cedo e, então... E o padeiro da esquina explica, pela décima vez, que o dólar subiu e o trigo é argentino e, desse jeito...

Meigo demais para o meu bolso. Mais meigo ainda quando vem o Lula dizer que “temos que defender a Petrobrás com unhas e dentes” depois de ter permitido que a empresa chegasse ao ponto que chegou. As unhas e os dentes do Lula se mostraram mesmo foi na desmoralizante pizza antecipada proporcionada pela chamada base aliada. Se, antes, as CPIs acabavam em pizza, agora começam com pizza. Eu só queria saber quanto essa pizza rendeu para a base. Porque quanto custou para nós, cidadãos, eu sei: a Petrobrás.

Pensando bem, o problema é ser ex. Ex-aliado, como Eduardo Campos, que foi ministro lulista e agora ousa ser ex. Renan Calheiros o ameaçou de devassa no Ministério que comandou. O que o Renan sabe que a gente não sabe? A intimidade do governo. Que, pelo jeito, é mais podre do que se pensa.

E aí vem o falso ranqueamento da ONU colocando Belém como a 23ª cidade mais violenta do planeta. Mas, rapaz! O disparate é tanto que nem precisaria conferir. Mas eu fui conferir. Bem, a ONU não fez ranqueamento (nem pode; as estatísticas dependem de registro que, em países pobres ou emergentes, são muito falhos; o relatório até tem um mapa das cidades mais populosas do mundo – do Brasil, só S. Paulo aparece – mas com mais casas em branco que números). Dos dados existentes, as capitais do Panamá e de El Salvador aparecem com as maiores taxas: 53 e 52 homicídios no ano para cada grupo de 100 mil habitantes.

Agora eu gostaria de saber quem foi a alma penada que listou as 30 cidades brasileiras.  Dei uma zapeada nas principais agências de notícias: nenhuma delas apresenta o tal ranqueamento. Vou mais adiante e descubro que o ranqueamento foi feito “pelo jornal O Globo com base em um documento do relatório”, informa Renan Truffi, no “Carta Capital”. Vou a O Globo: Marcelo Remigio é o nome do homem. Ele usou dois relatórios, um da ONU e um de uma ONG mexicana. Fez uma bela salada e serviu um fake, um engodo. Daí todo mundo reproduziu, sem citar a fonte (mau jornalismo, mas muito comum), dando uma aparência de verdade. Quero ver se O Globo se retrata, agora. Porque não tem ranqueamento e sequer base de dados completa no relatório da ONU.

E por falar em violência: se não forem tomadas medidas enérgicas agora, por quem de direito (leia-se Justiça Militar) o motim feito pela Polícia Militar na semana passada vai ser só um ensaio geral. Certas coisas não são meigas, motim é motim e funções de Estado são inegociáveis.

domingo, 30 de março de 2014

O crepúsculo e a Petrobrás


Eu saíra do colégio direto para a escadinha do cais. Cursava então o ensino médio e nem me apercebia que o berrante uniforme do Santa Rosa (pus e sangue, era como as garotas do Gentil qualificavam) chamava muita atenção. Caía a noite e do alto falante a música veio, para ficar para sempre gravada em minha memória:

Ouro negro que jorra da terra
do Brasil a grandeza serás
pelo valor da riqueza que encerras
Petrobrás, Petrobrás, Petrobrás!

Adivinharam, era um comício em defesa da Petrobrás. Eram os anos 1960, o país fervia. Eu fora ali sem licença e correndo risco, se alguém me denunciasse no colégio: as freiras eram muito rigorosas sobre o que as alunas faziam quando de uniforme. Ouvi outra música (A Petrobrás foi a nossa vitória, nossa primeira vitória!), vi as bandeiras vermelhas dos comunistas e nem me apercebi que o comício era deles. Eu sabia o que era a Petrobrás e Monteiro Lobato, n’O Sítio do Picapau Amarelo me ensinara o valor do petróleo. Mas nada além disso.

Eu saí logo, a noite apenas começara, mas a desculpa que dera em casa para chegar um pouco mais tarde tinha prazo para vencer. O comício terminou em pancadaria, como muitos daquele tempo, entre o pessoal do Sindipetro e o CCC - Comando de Caça aos Comunistas, uma organização civil de ultradireita. A polícia separou a briga, prendeu uns e outros, soltou os uns porque Jango ainda estava no poder e os outros porque eram filhos d’algo. A Petrobrás ficou indelevelmente ligada na minha memória a uma profunda emoção em que se misturam o civismo e a magia do crepúsculo.

Agora eu vejo a Petrobrás num outro crepúsculo, este, sem beleza alguma. Nestas sombras se sobrepõem aos rostos corruptos as caras quebradas e ensanguentadas dos que apanharam na rua para constituí-la e mantê-la. Ela está sendo liquidada: em 2008 valia 510 bilhões de dólares; hoje, vale 200 bilhões e valerá cada vez menos se continuar com a administração desastrosa que tem. O caso da refinaria de Pasadena – uma compra superfaturada que torna ridículas as multas aplicadas a gestores municipais pelos Tribunais de Contas por causa de dois ou três mil reais não corretamente justificados – é só a ponta de um edifício de corrupção. A ele se soma o calote do governo (que obriga a estatal a vender combustível com prejuízo, sem subsidiar a diferença) e um aparelhamento partidário da gestão. A Petrobrás está mal, num processo descendente, crepuscular.

Estamos meio século distantes daquele comício na escadinha do cais, o país mudou, a sociedade mudou e o papel que a Petrobrás deve desempenhar mudou. Ainda se apela para a emoção ao falar da empresa (é só analisar os anúncios da tevê) mas ela é agora uma gigante mundial do petróleo. E é assim que deve ser administrada, não como uma simples ferramenta antinflacionária. Se o governo quer manter o preço dos combustíveis baixo, pague. Não desvalorize uma das maiores empresas do mundo. Não desperdice o patrimônio construído com muito esforço – e, literalmente, com sangue derramado.

Este sangue derramado não pode se misturar à lama da corrupção que apodrece os frutos de tantas lutas. A Petrobrás precisa de uma faxina em regra. O Brasil precisa da Petrobrás limpa, valiosa, corretamente gerida e capaz de manter aceso o patriotismo que a gerou e o civismo que a construiu.