Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de abril de 2014

Meiguices


Estive fora do ar na semana passada por conta do que chamo “a gripe de abril” – ela me derruba todos os anos, no mesmo mês. Mudança de estação, acho. Por conta da gripe, eu gostaria de escrever só sobre coisas belas e suaves – meigas, como diz a Mônica do Maurício Souza. Mas as meiguices que encontro... Vejo e ouço o ministro Mantega dizer na televisão que a inflação é sazonal. Pois vejam o que ele disse no ano passado, como publicou a e-revista “Época”, em sua edição de 15 de abril de 2013, sob o título “A inflação do tomate”:

O governo só se pronunciou sobre o assunto depois que o índice foi divulgado, na última quarta-feira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não pouparia esforços para evitar a alta de preços e quis demonstrar otimismo. Afirmou que a entressafra agrícola terminará em breve, que as pressões sobre o setor de serviços estão mais brandas. Também lembrou que a inflação de março foi a mais baixa do ano - segundo ele, um bom sinal.

Igual ao que ele disse agora – mas o bom sinal foi para o espaço, porque o IPCA (índice de preços ao consumidor ampliado) de março de 2014 foi o mais elevado dos últimos 11 anos. A presidente vai para a tevê para dizer que chove demais de um lado, seca demais de outro e, por isso... E aí o pessoal da carne vem e diz que sabe como é, a estiagem anual começou muito cedo e, então... E o padeiro da esquina explica, pela décima vez, que o dólar subiu e o trigo é argentino e, desse jeito...

Meigo demais para o meu bolso. Mais meigo ainda quando vem o Lula dizer que “temos que defender a Petrobrás com unhas e dentes” depois de ter permitido que a empresa chegasse ao ponto que chegou. As unhas e os dentes do Lula se mostraram mesmo foi na desmoralizante pizza antecipada proporcionada pela chamada base aliada. Se, antes, as CPIs acabavam em pizza, agora começam com pizza. Eu só queria saber quanto essa pizza rendeu para a base. Porque quanto custou para nós, cidadãos, eu sei: a Petrobrás.

Pensando bem, o problema é ser ex. Ex-aliado, como Eduardo Campos, que foi ministro lulista e agora ousa ser ex. Renan Calheiros o ameaçou de devassa no Ministério que comandou. O que o Renan sabe que a gente não sabe? A intimidade do governo. Que, pelo jeito, é mais podre do que se pensa.

E aí vem o falso ranqueamento da ONU colocando Belém como a 23ª cidade mais violenta do planeta. Mas, rapaz! O disparate é tanto que nem precisaria conferir. Mas eu fui conferir. Bem, a ONU não fez ranqueamento (nem pode; as estatísticas dependem de registro que, em países pobres ou emergentes, são muito falhos; o relatório até tem um mapa das cidades mais populosas do mundo – do Brasil, só S. Paulo aparece – mas com mais casas em branco que números). Dos dados existentes, as capitais do Panamá e de El Salvador aparecem com as maiores taxas: 53 e 52 homicídios no ano para cada grupo de 100 mil habitantes.

Agora eu gostaria de saber quem foi a alma penada que listou as 30 cidades brasileiras.  Dei uma zapeada nas principais agências de notícias: nenhuma delas apresenta o tal ranqueamento. Vou mais adiante e descubro que o ranqueamento foi feito “pelo jornal O Globo com base em um documento do relatório”, informa Renan Truffi, no “Carta Capital”. Vou a O Globo: Marcelo Remigio é o nome do homem. Ele usou dois relatórios, um da ONU e um de uma ONG mexicana. Fez uma bela salada e serviu um fake, um engodo. Daí todo mundo reproduziu, sem citar a fonte (mau jornalismo, mas muito comum), dando uma aparência de verdade. Quero ver se O Globo se retrata, agora. Porque não tem ranqueamento e sequer base de dados completa no relatório da ONU.

E por falar em violência: se não forem tomadas medidas enérgicas agora, por quem de direito (leia-se Justiça Militar) o motim feito pela Polícia Militar na semana passada vai ser só um ensaio geral. Certas coisas não são meigas, motim é motim e funções de Estado são inegociáveis.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A normalidade anormal


Desculpem-me a irregularidade, mas a precariedade dos serviços telefônicos – instalações e linhas – contribuiu para minhas falhas. A indiferença dos prestadores, a inércia dos fiscalizadores e a falta de eficácia do Judiciário estão banalizando o serviço ruim que temos. Torna-se “normal” ter falhas, interrupções, esperar dias e dias por uma providência e, afinal, saber que nada está resolvido, apenas adiado para outro ciclo mais adiante.

Da mesma forma torna-se “normal” pagar um ingresso caro para o jogo de futebol mais importante do Estado que, de maneira “normal”, registra uma falta a cada dois minutos e nada além disso. Ou assistir um telejornal onde não está a notícia que corre boca a boca pela cidade. Ou, ainda, ser assaltado num estacionamento de supermercado.

Estamos nos sujeitando, cada vez mais, a “normalidades” que nos empurram para uma vida completamente anormal, para a barbárie do justiçamento vingativo, para o salve-se como puder das múltiplas agressões que sofremos diariamente: os impostos e taxas escorchantes cobrados pelos administradores públicos para que façam do dinheiro o que bem quiserem; o completo desrespeito ao cliente, ao consumidor por parte de toda a iniciativa privada, do padeiro da esquina à multinacional, passando pelos bancos e grandes conglomerados de negócios; o transporte ruim, o trânsito mal administrado, o ambiente poluído.

Gradualmente deixamos de confiar em quem quer que seja e, se damos crédito a alguém, nos chamam de otários ou nos advertem porque nos arriscamos demais. Aos poucos, está-se criando uma cultura em que você, vítima, você, a pessoa que foi lesada, você, a pessoa que foi assaltada, é o culpado: facilitou, dizem. Ah, ele reagiu a um assalto, por isso levou um tiro...  Ah, você não fiscalizou a compra, por isso perdeu o dinheiro... Ah, você devia ter reclamado antes...

Se alguém disser que vai aproveitar o silêncio e a beleza da manhã de domingo para uma caminhada, alguém próximo dirá logo: não faça isso, as ruas estão desertas, é perigoso! E a pessoa fica, sem perceber que é anormal não poder usufruir um belo dia. Que é anormal ter que ficar circunscrito na toca.

Se alguém reclama no supermercado, os circunstantes olham com estranheza. Não percebem que a passividade com que aceitam as fraudes diárias é que é estranho. Sua normalidade é de ter um risco em cada compra, uma batata estragada em cada pacote, produtos fora da validade na prateleira. E censuram: porque você não prestou atenção? Você, a vítima da fraude, é o culpado...

Em suma: salve-se como puder, porque ninguém virá salvá-lo. Entregue os anéis para conservar os dedos. Transija e agradeça continuar vivo.

E como o que a maioria das pessoas quer é viver em paz, entrega os anéis e transige, sem perceber que, com isso, torna cada vez mais sólida a falta de paz.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A morte do homem de bem

Domingo, 28 de fevereiro de 2010, nove da manhã, Beto conversava com o sogro na porta da sua casa, no bairro da Cremação, em Belém.

Ele morava numa casa de madeira, construída no quintal do sogro, desse jeito paraense muito comum de resolver a moradia mantendo os familiares por perto. Desde rapaz novo ele montara uma vendinha de açaí. Aos poucos, conseguiu abrir uma pequena estância – nome que damos a um tipo de loja que vende material de construção, incluindo madeira. Fazia fiado para os vizinhos, e atendia a todos sem hora para trabalhar – e isto lhe dava, além do suado dinheirinho, uma popularidade grande. Num bairro marcado pelo tráfico, Beto construía sua prosperidade e sua reputação como homem de bem, e jamais se ouviu dizer que se metera nesta ou naquela falseta. Seu casamento não ia muito bem, e, às vezes, Beto pulava a cerca – mas sua mulher trabalhava com ele, ombro a ombro. Era ela quem tomava conta do dinheiro e da papelada da loja. Ele atendia os clientes e cobrava as contas. Os desacertos conjugais não afetavam o pequeno negócio.

Nesse domingo, um homem foi procurá-lo. Perguntou se ele era o Beto, e pediu que lhe vendesse um ralo de banheiro. Beto lhe disse que não abria aos domingos; estava cansado; o homem insistiu – era um fim de serviço, e precisava do ralo e mais alguma quantidade de areia, pedra e cimento. Beto relutou, mas acabou cedendo: chamou a esposa, e, juntos, foram buscar um carreteiro amigo, morador na mesma rua, para que trouxesse o carrinho de mão e ganhasse também o seu.

Na estância, o homem escolheu o material, e, enquanto Beto e o carreteiro carregavam o carrinho, disse de repente que tinha esquecido o dinheiro em casa, e ia buscar. Beto e o carreteiro trabalhavam quando chegaram dois motoqueiros, ambos de capacete. Um deles perguntou: “Tu é que és o Beto?” Ele respondeu: “Sou, sim”. O homem puxou uma arma: “Te ajoelha”. E, olhando para a mulher e o carreteiro: “Vocês, aí, se virem de costa”. Os dois obedeceram e ele disparou três tiros na cabeça do homem ajoelhado. E foi embora, com o outro motoqueiro.

Simples assim. Eram umas nove e meia da manhã. No centro da cidade. Sem assalto, sem explicação.

O alarme correu a vizinhança, e os tititis falavam de uma dívida de 600 reais, que Beto vinha cobrando, ou de uma mulher casada, com quem Beto aparecera recentemente. Mas ninguém sabe ao certo porque o Beto morreu, mandado matar com certeza, porque nem o assassino, nem o homem que serviu de isca, o conheciam pessoalmente.

Na semana anterior, autoridades policiais haviam dado entrevista nos jornais dizendo que o banho de sangue em que Belém mergulhou nos últimos tempos se deve a acerto de contas entre traficantes. Os números oficiais, inconfiáveis porque maquiados (para se ter uma idéia, no último trabalho apresentado pela Segup, em dezembro de 2009, são excluídos os três últimos meses dos anos de 2008 e 2009) apontam entre 92 e 114 mortos por homicídio na região metropolitana de Belém, por mês. O que resulta em três ou quatro por dia. Desse volume de mortes, o que resulta elucidado é mínimo – não chega à metade.

Beto é um desses números – ele não era missionário, nem turista, nem doutor. Não participava de movimento que hoje cobre resultados da polícia. Era apenas um homem comum, um homem de bem. O que, nesta cidade cada vez mais violenta, parece ser delito suficiente para uma pena de morte.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A falência da escola

Belém foi abalada por um assassinato em sala de aula, envolvendo duas jovens. Não é fato único, nem incomum no mundo – basta lembrar algumas chacinas nos Estados Unidos, e homicídios semelhantes em outros países, mais ou menos desenvolvidos que o Brasil.

A reação das autoridades escolares tem sido chamar a polícia. Belém não fugiu à regra que tem precedentes no Rio de Janeiro e em outras capitais. Mas a polícia não pode substituir, nem esconder um fato terrível, cada vez mais claramente exposto: a total perda da autoridade escolar, a perda das rédeas disciplinares por parte do magistério.

Um ex-reitor me disse uma vez que o professor, hoje, trabalha acuado, principalmente nas classes de adolescentes e de jovens adultos. Revistas policiais são feitas dentro das escolas; e as próprias Universidades, que eram tão ciosas de sua capacidade auto-disciplinadora, hoje recorrem à polícia para resolver seus problemas com alunos.

Eu não tenho receitas nem soluções para esta situação; estou apenas constatando um fato. Muitos estudos já foram feitos para saber das causas, e algumas iniciativas têm sido tomadas para encontrar uma solução. Mas a violência varre as escolas, em graus cada vez maiores, como curto-circuitos contínuos. E esta figura, a do curto-circuito, é correta, porque as faíscas estão em todos os lugares, com diversas e variadas causas, dando a entender que é a inserção da escola na sociedade que hoje se faz de forma inadequada e deficiente. O plugue entra na tomada, mas com voltagem errada.

As escolas são depredadas com frequência; mas ninguém depreda o que lhe é útil, o que lhe serve; ninguém quebra o que ama, exceto alguns tipos de doentes mentais, e não são doentes mentais os que depredam as escolas.

Qualquer professor pode testemunhar – qualquer um, mesmo, em qualquer lugar – sobre ameaças de morte e agressões, atingindo professores, alunos, funcionários administrativos, diretores, todos os membros da comunidade escolar. Policiais militares podem contar o quanto são chamados para intervir nos ferozes choques de turmas, tribos e gangues – no pátio do recreio. Ou seja: o ambiente escolar tornou-se hostil, inóspito. Para qualquer um e para todos. O que quer dizer que o modelo passou do tempo. A escola, hierarquizada e vertical, formatadora de pessoas, está desajustada com a sociedade.

No modelo atual, milhões de jovens são impelidos para a escola em busca de um diploma. E é nisso que a escola – a maioria das Universidades, também – se transformou: numa máquina de fornecer certificados e diplomas. Pouco importa o grau de ajustamento do jovem à máquina: ele deverá passar por ela de alguma forma, e de alguma forma sair formatado. Máquinas não pensam, agem. São lubrificadas pelos cálculos econômicos, pelas relações de modelo produtivo. Dia destes vi uma relação destas numa Universidade pública: a pouca demanda para determinado curso fazia com que o custo/aluno estivesse muito acima da média. Solução: fechar o curso e aumentar as vagas de maior demanda. Não se considerava sequer a necessidade estratégica, ou o fato de ser o curso basilar para o conhecimento. Levou-se em conta somente o mercado.

A máquina escolar transformou os professores em peças, e os está desumanizando rapidamente. A presença de um professor do fundamental maior diante da turma adolescente é só de passagem. Ele esquecerá rapidamente aqueles rostos, enquanto os donos dos rostos tentarão se livrar dele o mais rápido que possam. Nessa passagem pela turma, trava-se um duelo. E todo o cuidado é pouco para que o duelo seja apenas intelectual. Volta e meia, desborda: o professor tenta ser mais rigoroso e esbarra na própria máquina. Como o que interessa é a quantidade do produto-padrão, os alunos reagem à alteração da regra do jogo e contam, para isso, com o apoio do sistema escolar. O professor tem que recuar rapidamente, para escapar de agressões e ameaças.

É preciso recriar a escola, transformar o modelo clássico para que o plugue se ligue na tomada. Para isso, há necessidade de uma vontade política, que a maior parte dos envolvidos, infelizmente, não tempo, e de competência arejada, isto é: gente que saiba imaginar, criar e sonhar. Sem modelos prévios.