domingo, 13 de abril de 2014
Meiguices
domingo, 9 de fevereiro de 2014
A normalidade anormal
sexta-feira, 5 de março de 2010
A morte do homem de bem
Ele morava numa casa de madeira, construída no quintal do sogro, desse jeito paraense muito comum de resolver a moradia mantendo os familiares por perto. Desde rapaz novo ele montara uma vendinha de açaí. Aos poucos, conseguiu abrir uma pequena estância – nome que damos a um tipo de loja que vende material de construção, incluindo madeira. Fazia fiado para os vizinhos, e atendia a todos sem hora para trabalhar – e isto lhe dava, além do suado dinheirinho, uma popularidade grande. Num bairro marcado pelo tráfico, Beto construía sua prosperidade e sua reputação como homem de bem, e jamais se ouviu dizer que se metera nesta ou naquela falseta. Seu casamento não ia muito bem, e, às vezes, Beto pulava a cerca – mas sua mulher trabalhava com ele, ombro a ombro. Era ela quem tomava conta do dinheiro e da papelada da loja. Ele atendia os clientes e cobrava as contas. Os desacertos conjugais não afetavam o pequeno negócio.
Nesse domingo, um homem foi procurá-lo. Perguntou se ele era o Beto, e pediu que lhe vendesse um ralo de banheiro. Beto lhe disse que não abria aos domingos; estava cansado; o homem insistiu – era um fim de serviço, e precisava do ralo e mais alguma quantidade de areia, pedra e cimento. Beto relutou, mas acabou cedendo: chamou a esposa, e, juntos, foram buscar um carreteiro amigo, morador na mesma rua, para que trouxesse o carrinho de mão e ganhasse também o seu.
Na estância, o homem escolheu o material, e, enquanto Beto e o carreteiro carregavam o carrinho, disse de repente que tinha esquecido o dinheiro em casa, e ia buscar. Beto e o carreteiro trabalhavam quando chegaram dois motoqueiros, ambos de capacete. Um deles perguntou: “Tu é que és o Beto?” Ele respondeu: “Sou, sim”. O homem puxou uma arma: “Te ajoelha”. E, olhando para a mulher e o carreteiro: “Vocês, aí, se virem de costa”. Os dois obedeceram e ele disparou três tiros na cabeça do homem ajoelhado. E foi embora, com o outro motoqueiro.
Simples assim. Eram umas nove e meia da manhã. No centro da cidade. Sem assalto, sem explicação.
O alarme correu a vizinhança, e os tititis falavam de uma dívida de 600 reais, que Beto vinha cobrando, ou de uma mulher casada, com quem Beto aparecera recentemente. Mas ninguém sabe ao certo porque o Beto morreu, mandado matar com certeza, porque nem o assassino, nem o homem que serviu de isca, o conheciam pessoalmente.
Na semana anterior, autoridades policiais haviam dado entrevista nos jornais dizendo que o banho de sangue em que Belém mergulhou nos últimos tempos se deve a acerto de contas entre traficantes. Os números oficiais, inconfiáveis porque maquiados (para se ter uma idéia, no último trabalho apresentado pela Segup, em dezembro de 2009, são excluídos os três últimos meses dos anos de 2008 e 2009) apontam entre 92 e 114 mortos por homicídio na região metropolitana de Belém, por mês. O que resulta em três ou quatro por dia. Desse volume de mortes, o que resulta elucidado é mínimo – não chega à metade.
Beto é um desses números – ele não era missionário, nem turista, nem doutor. Não participava de movimento que hoje cobre resultados da polícia. Era apenas um homem comum, um homem de bem. O que, nesta cidade cada vez mais violenta, parece ser delito suficiente para uma pena de morte.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
A falência da escola
Belém foi abalada por um assassinato em sala de aula, envolvendo duas jovens. Não é fato único, nem incomum no mundo – basta lembrar algumas chacinas nos Estados Unidos, e homicídios semelhantes em outros países, mais ou menos desenvolvidos que o Brasil.
A reação das autoridades escolares tem sido chamar a polícia. Belém não fugiu à regra que tem precedentes no Rio de Janeiro e em outras capitais. Mas a polícia não pode substituir, nem esconder um fato terrível, cada vez mais claramente exposto: a total perda da autoridade escolar, a perda das rédeas disciplinares por parte do magistério.
As escolas são depredadas com frequência; mas ninguém depreda o que lhe é útil, o que lhe serve; ninguém quebra o que ama, exceto alguns tipos de doentes mentais, e não são doentes mentais os que depredam as escolas.
Qualquer professor pode testemunhar – qualquer um, mesmo, em qualquer lugar – sobre ameaças de morte e agressões, atingindo professores, alunos, funcionários administrativos, diretores, todos os membros da comunidade escolar. Policiais militares podem contar o quanto são chamados para intervir nos ferozes choques de turmas, tribos e gangues – no pátio do recreio. Ou seja: o ambiente escolar tornou-se hostil, inóspito. Para qualquer um e para todos. O que quer dizer que o modelo passou do tempo. A escola, hierarquizada e vertical, formatadora de pessoas, está desajustada com a sociedade.
No modelo atual, milhões de jovens são impelidos para a escola em busca de um diploma. E é nisso que a escola – a maioria das Universidades, também – se transformou: numa máquina de fornecer certificados e diplomas. Pouco importa o grau de ajustamento do jovem à máquina: ele deverá passar por ela de alguma forma, e de alguma forma sair formatado. Máquinas não pensam, agem. São lubrificadas pelos cálculos econômicos, pelas relações de modelo produtivo. Dia destes vi uma relação destas numa Universidade pública: a pouca demanda para determinado curso fazia com que o custo/aluno estivesse muito acima da média. Solução: fechar o curso e aumentar as vagas de maior demanda. Não se considerava sequer a necessidade estratégica, ou o fato de ser o curso basilar para o conhecimento. Levou-se em conta somente o mercado.
A máquina escolar transformou os professores em peças, e os está desumanizando rapidamente. A presença de um professor do fundamental maior diante da turma adolescente é só de passagem. Ele esquecerá rapidamente aqueles rostos, enquanto os donos dos rostos tentarão se livrar dele o mais rápido que possam. Nessa passagem pela turma, trava-se um duelo. E todo o cuidado é pouco para que o duelo seja apenas intelectual. Volta e meia, desborda: o professor tenta ser mais rigoroso e esbarra na própria máquina. Como o que interessa é a quantidade do produto-padrão, os alunos reagem à alteração da regra do jogo e contam, para isso, com o apoio do sistema escolar. O professor tem que recuar rapidamente, para escapar de agressões e ameaças.
É preciso recriar a escola, transformar o modelo clássico para que o plugue se ligue na tomada. Para isso, há necessidade de uma vontade política, que a maior parte dos envolvidos, infelizmente, não tempo, e de competência arejada, isto é: gente que saiba imaginar, criar e sonhar. Sem modelos prévios.