A alma se renova quando a gente se depara com um escritor como Ohan Pamuk. Foi preciso que ele recebesse o Nobel, em 2006, para que traduzissem seus livros e a gente o descobrisse, dois anos depois. “Meu nome em vermelho” é um arabesco: “...essas formas em conjunto, (que) constituem um padrão infinto que se estende para além do mundo visível e material”. É pura arte islâmica, com as técnicas do século XX, o que nos torna mais compreensível o que diz. Ao mesmo tempo, é a arte atemporal da literatura, a arte universal das letras:
“... o tremor nervoso dos caracteres traçados com cólera por minha amada, a progressão das curvas que, da direita para a esquerda, se contorcem e se ligam para melhor urdir seus enganos.”
“É o mais longe a que se pode chegar na pintura, é ver o que aparece na própria escuridão de Alá”.
“... o homem, qualquer que seja o seu amor, sempre acaba esquecendo um rosto que fica muito tempo sem ver.”
“Ao tentar pintar o cavalo perfeito (o pintor) revela seu amor à riqueza deste mundo e a seu criador, utilizando as cores da paixão pela vida. Somente isso e nada mais.”
****
Mas Pamuk se torna um oásis secreto, quando a gente entra no Banco do Brasil. Agora, uma máquina distribui as senhas: você é classificado pelo saldo médio. Baixa renda: suba escadas e entre na fila. Aos poucos, que o espaço é pequeno. Dois atendentes, que você tem mais é que esperar. Alta renda: quatro atendentes, conforto e rapidez. Pior: na senha do baixa-renda está escrito: “atendimento preferencial”...
E mais distante fica ainda este oásis quando você assiste um júri absolver o mandante de um assassinato, que obviamente fez um acordo com o pistoleiro para se safar da condenação. Onde colocar a revolta? Em baixo do tapete, principalmente agora que uma medida provisória legaliza praticamente toda a grilagem de terras na Região Norte, aumentando para 1.500 hectares a legalização de posses ocupadas. Sojeiros, sudanzeiros, madeireiros, festejai! E os demais, que pasmem!
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Por amor
A curiosidade de repórter me leva por caminhos diversos, e costumo me interessar por coisas inusitadas ou simplesmente diferentes – e às vezes por perguntas, ou coisas não completamente entendidas, que ficaram, antigos, na memória, e que hoje, com a rede, descubro que posso eliminá-las.
Assim é que um dia destes entrei no blog da Preta Gil. Eu queria saber o que ela iria dizer das fotos perversas exibindo suas celulites e estrias. Do conteúdo do que li, gostei – uma apaixonada defesa da individualidade, contra a estética oficial padrão. “Eu me amo assim como sou”, diz Preta Gil.
Mas eu gostaria muito que ela amasse a língua portuguesa do jeito com que se ama. Com a mesma paixão. O texto, de conteúdo ardente, fazia arder também a gramática, mesmo para os mais tolerantes. Mesmo que se considere – como eu considero, aliás – que a língua portuguesa passa por um acelerado processo de transformação, e que o “você” há muito tempo deveria estar oficialmente incluído entre os pronomes pessoais do caso reto, entre outras mudanças. E que, mais cedo ou mais tarde, “menos” vai concordar com o substantivo...
O que me pasma é a absoluta despreocupação em relação a fazer-se entender. Para que duas ou mais pessoas se entendam, é preciso haver regras e significados comuns. Escrever corretamente, ou com o mínimo de correção, é essencial para que as pessoas compreendam com clareza o que se quer dizer. Essa despreocupação não é só da Preta Gil, mas de milhares de outras pessoas também. Vendedores, inclusive, que deveriam realizar, por força do ofício, um esforço para se fazer entender bem.
Um bom exemplo disso está no Mercado Livre, onde a linguagem também é livre, desde que sem ofensas e palavrões. Leio um anúncio escrito assim: “queicha na cor begê”. Trata-se de uma estatueta de uma gueixa, vestida na cor bege. Penso que o sujeito talvez até saiba o que está vendendo, mas com certeza não vende, ou vende mal.
No Mercado, oferecem-se “bandeijas”, “tijelas” “mantequeiras”, “leiteras”, “lampeões” e “traveças”. Isto até dá para entender. Mas “ganço” (será um gancho ou um ganso?), sacarolla (era um sacarrolhas) e “galeteiro” (galheteiro) – fica mais difícil. E é quase impossível entender o que se quer dizer com “louça ágata” e “santo sacro”. No primeiro caso, o produto era uma peça de metal esmaltada, que é conhecida como ágata; no segundo, imagens barrocas em medalhões de prata – presumo que “santo sacro” seja o tipo da antiguidade. A displicência permite, também, coisas estranhas como esta: “balança de pesar bebê de farmácia”.
O que pretendo dizer com tudo o que escrevi acima é que o amor pela língua materna é também um amor por si mesmo. Comunicar-se é trafegar num terreno comum de conceitos e convenções, para que as pessoas possam entender o que se diz, e para que a gente possa entender o que as pessoas dizem. Na escrita, em que a entonação da voz e a expressão corporal são omitidas, é vital conhecer esse terreno, ou o amor próprio vai para o espaço – tanto para a Preta Gil como para os vendedores do mercado livre. Não há quem resista ao desentendimento.
Assim é que um dia destes entrei no blog da Preta Gil. Eu queria saber o que ela iria dizer das fotos perversas exibindo suas celulites e estrias. Do conteúdo do que li, gostei – uma apaixonada defesa da individualidade, contra a estética oficial padrão. “Eu me amo assim como sou”, diz Preta Gil.
Mas eu gostaria muito que ela amasse a língua portuguesa do jeito com que se ama. Com a mesma paixão. O texto, de conteúdo ardente, fazia arder também a gramática, mesmo para os mais tolerantes. Mesmo que se considere – como eu considero, aliás – que a língua portuguesa passa por um acelerado processo de transformação, e que o “você” há muito tempo deveria estar oficialmente incluído entre os pronomes pessoais do caso reto, entre outras mudanças. E que, mais cedo ou mais tarde, “menos” vai concordar com o substantivo...
O que me pasma é a absoluta despreocupação em relação a fazer-se entender. Para que duas ou mais pessoas se entendam, é preciso haver regras e significados comuns. Escrever corretamente, ou com o mínimo de correção, é essencial para que as pessoas compreendam com clareza o que se quer dizer. Essa despreocupação não é só da Preta Gil, mas de milhares de outras pessoas também. Vendedores, inclusive, que deveriam realizar, por força do ofício, um esforço para se fazer entender bem.
Um bom exemplo disso está no Mercado Livre, onde a linguagem também é livre, desde que sem ofensas e palavrões. Leio um anúncio escrito assim: “queicha na cor begê”. Trata-se de uma estatueta de uma gueixa, vestida na cor bege. Penso que o sujeito talvez até saiba o que está vendendo, mas com certeza não vende, ou vende mal.
No Mercado, oferecem-se “bandeijas”, “tijelas” “mantequeiras”, “leiteras”, “lampeões” e “traveças”. Isto até dá para entender. Mas “ganço” (será um gancho ou um ganso?), sacarolla (era um sacarrolhas) e “galeteiro” (galheteiro) – fica mais difícil. E é quase impossível entender o que se quer dizer com “louça ágata” e “santo sacro”. No primeiro caso, o produto era uma peça de metal esmaltada, que é conhecida como ágata; no segundo, imagens barrocas em medalhões de prata – presumo que “santo sacro” seja o tipo da antiguidade. A displicência permite, também, coisas estranhas como esta: “balança de pesar bebê de farmácia”.
O que pretendo dizer com tudo o que escrevi acima é que o amor pela língua materna é também um amor por si mesmo. Comunicar-se é trafegar num terreno comum de conceitos e convenções, para que as pessoas possam entender o que se diz, e para que a gente possa entender o que as pessoas dizem. Na escrita, em que a entonação da voz e a expressão corporal são omitidas, é vital conhecer esse terreno, ou o amor próprio vai para o espaço – tanto para a Preta Gil como para os vendedores do mercado livre. Não há quem resista ao desentendimento.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Deu a doida no homem!
Como é que se demite o gerúndio?
O governador do Distrito Federal acha que é por decreto. Esse decreto saiu publicado ontem. Ele não proibiu de usar o tempo do verbo, presente em todas as placas de obras (“Estamos trabalhando”), ele demitiu.
Bem, o gerúndio nunca fez concurso para o serviço público; era temporário, pois: foi-se chegando, chegando (olha ele aí!) e pronto, abancou-se. Agora o governador lhe mostra a porta da rua, pronto! Agora, é tudo ou nada: ou faz, ou fez, ou fará. Assim, como por milagre – tudo andando, nada em andamento.
O corolário desse decreto é curioso: as pessoas terão que usar o pronome “nós”, que andava arredio dos arraiais públicos. O problema é que há verbos em que a palavra é a mesma para o presente e para o passado. O verbo construir, por exemplo: nós construímos no presente, e nós construímos no passado. Foi por essa brecha que o gerúndio entrou, e como ninguém construiu ponte na brecha, ela continua esperando os incautos da linguagem erudita.
Diz o governador que não admite o uso do gerúndio para desculpar a ineficiência. Perdoe-me ele entrar na seara, mas a ineficiência é produto da incompetência, e não do pobre do gerúndio. Punir o gerúndio é o mesmo que chicotear o servo pelo erro do senhor, coisa que os nobres medievais praticavam sempre. O governador não é nobre nem estamos na Idade Média: demita ele o incompetente, mas deixe o gerúndio em paz.
Seria aliás mais producente que, em vez do gerúndio, ele demitisse o ao-ao. Ao-ao é como se denomina a trilha infindável da burocracia preguiçosa: “Ao fulano, para opinar”; “Ao chefe, para despachar”; “Ao beltrano, para consertar”; “Ao chefe maior, para avaliar”; “Ao cicrano, para considerar”; “Ao chefe menor, para informar”; o cidadão, ou sua petição, vai percorrendo o “ao-ao”. Cansa, desiste, e finalmente vem o despacho definitivo: “Ao arquivo, por desinteresse do requerente”. Às vezes, o desinteresse é justo: o requerente já se finou.
Eliminar o ao-ao é que mereceria foguetório. Ou pelo menos reduzir a quantidade, encurtar a trilha, decidir mais depressa. Mas no ao-ao não existe gerúndio: os verbos são todos no infinitivo. Assim, não incomodam o governador.
Mas governadores também precisam de gerúndio, e ele será o primeiro a sentir falta do parceiro. O gerúndio permite ganhar tempo na solução de crises, principalmente as políticas ou aquelas que envolvem pedidos absurdos feitos por prefeitos ou parlamentares. Sem ele, o governador terá que decidir na lata. E a lata, às vezes, é cheia de votos que não gostam de ser contrariados...
O governador do Distrito Federal acha que é por decreto. Esse decreto saiu publicado ontem. Ele não proibiu de usar o tempo do verbo, presente em todas as placas de obras (“Estamos trabalhando”), ele demitiu.
Bem, o gerúndio nunca fez concurso para o serviço público; era temporário, pois: foi-se chegando, chegando (olha ele aí!) e pronto, abancou-se. Agora o governador lhe mostra a porta da rua, pronto! Agora, é tudo ou nada: ou faz, ou fez, ou fará. Assim, como por milagre – tudo andando, nada em andamento.
O corolário desse decreto é curioso: as pessoas terão que usar o pronome “nós”, que andava arredio dos arraiais públicos. O problema é que há verbos em que a palavra é a mesma para o presente e para o passado. O verbo construir, por exemplo: nós construímos no presente, e nós construímos no passado. Foi por essa brecha que o gerúndio entrou, e como ninguém construiu ponte na brecha, ela continua esperando os incautos da linguagem erudita.
Diz o governador que não admite o uso do gerúndio para desculpar a ineficiência. Perdoe-me ele entrar na seara, mas a ineficiência é produto da incompetência, e não do pobre do gerúndio. Punir o gerúndio é o mesmo que chicotear o servo pelo erro do senhor, coisa que os nobres medievais praticavam sempre. O governador não é nobre nem estamos na Idade Média: demita ele o incompetente, mas deixe o gerúndio em paz.
Seria aliás mais producente que, em vez do gerúndio, ele demitisse o ao-ao. Ao-ao é como se denomina a trilha infindável da burocracia preguiçosa: “Ao fulano, para opinar”; “Ao chefe, para despachar”; “Ao beltrano, para consertar”; “Ao chefe maior, para avaliar”; “Ao cicrano, para considerar”; “Ao chefe menor, para informar”; o cidadão, ou sua petição, vai percorrendo o “ao-ao”. Cansa, desiste, e finalmente vem o despacho definitivo: “Ao arquivo, por desinteresse do requerente”. Às vezes, o desinteresse é justo: o requerente já se finou.
Eliminar o ao-ao é que mereceria foguetório. Ou pelo menos reduzir a quantidade, encurtar a trilha, decidir mais depressa. Mas no ao-ao não existe gerúndio: os verbos são todos no infinitivo. Assim, não incomodam o governador.
Mas governadores também precisam de gerúndio, e ele será o primeiro a sentir falta do parceiro. O gerúndio permite ganhar tempo na solução de crises, principalmente as políticas ou aquelas que envolvem pedidos absurdos feitos por prefeitos ou parlamentares. Sem ele, o governador terá que decidir na lata. E a lata, às vezes, é cheia de votos que não gostam de ser contrariados...
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