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domingo, 11 de janeiro de 2015

Comunicação rápida, mas...


Como muita gente interessada, venho acompanhando de perto o desenvolvimento do zap, e, a partir dele, das chamadas redes sociais, geralmente saudadas como um grande instrumento renovador da comunicação. Para mim, no entanto, é só um novo tipo de comunicação, com suas vantagens e desvantagens. Está criando uma nova linguagem, quase criptográfica, em que os símbolos e abreviaturas substituem boa parte das palavras. Não conseguiu ainda vencer a divergência dos alfabetos, mas está caminhando para isso. É muito rápida, mas...

... as pessoas em breve descobrirão o que todo profissional de letras sabe: quem escreve como fala está sujeito a um bom número de incompreensões. Isto porque a palavra oral é acompanhada de vários outros sinais corporais que reforçam e explicam os conteúdos. Uma sobrancelha levantada que acompanhe uma frase dá o tom da ironia, da mesma forma que um sorriso abranda um dito mordaz. No visor eletrônico a intenção se perde: então é preciso mais cuidado com o que se escreve do que com o que se diz.

... não há diálogo entre mensagens. Cada uma é unilateral: você diz o que quer e lê se quiser. Ou interpreta como quiser o que recebe: toda leitura é assim. Uma boa intenção mal redigida ou inoportuna pode ser tomada como um insulto grave. E o insulto escrito sempre fica. É diferente da oralidade, em que a pessoa pode se explicar ao perceber a reação do outro: na mensagem, o outro está distante demais para explicações.

... o poder gerado pela velocidade e aglutinação das conexões é ilusório: parece grande, mas é pequeno. Dizer, mandar mensagens, é fácil: difícil é convencer. O convencimento só ocorre pelo diálogo, impossível no zap. Ao reunir pessoas na rua para uma manifestação, a pessoa que organizou vai descobrir que elas vão lá por motivos próprios, muitas vezes bem diferentes na ideia original, apenas para, digamos assim, aproveitar a oportunidade da multidão. Isto porque o zap é apenas uma conexão rápida de indivíduos, não é um partido nem um movimento político.

... a informação é sempre superficial, limitada pelo próprio meio usado. A mensagem só permite poucas palavras: então nada complexo pode ser tratado nela. Não há discurso, há frases curtas, exclamações e só.

... o zap nas redes sociais funciona em ondas ou em marés: uma informação circula em alta velocidade e se quebra na praia. O efeito desta onda é passageiro e, ao terminar, deixa uma impressão – não uma mudança. Marés sucessivas podem alterar alguma coisa no litoral depois de algum tempo. Mas não mudam o litoral todo, senão depois de séculos agindo da mesma maneira.

... o zap se presta maravilhosamente para a intriga e para o boato. Intriga e boato têm uma característica: são mais fáceis de fazer do que de desfazer. No zap isto é mais difícil porque a impressão deixada pela onda não é fácil de ser identificada.

... a intimidade na rede é falsa e, consequentemente, a possível confiança entre integrantes também é. Isto porque a intimidade pressupõe troca de contatos sensoriais: visão, audição, cheiro e, às vezes, tato e gosto. Sem isso não se conhece de fato uma pessoa: pode-se conhecer apenas o que ela diz. Muita gente está descobrindo isto da pior forma.

... a comunicação é fragmentada, porque o meio usado também é. Assim, a rede é ótima para fixar posições, dar rápidas informações ou respostas. É péssima para explicar essas mesmas posições. Em última análise, a rede é limitada ao sim/não. O que é apenas o primeiro estágio da comunicação, porque não há discurso nem raciocínio cabíveis nela. Quem ousar fazer isso estará perdendo tempo e ganhando fama de chato.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Por amor

A curiosidade de repórter me leva por caminhos diversos, e costumo me interessar por coisas inusitadas ou simplesmente diferentes – e às vezes por perguntas, ou coisas não completamente entendidas, que ficaram, antigos, na memória, e que hoje, com a rede, descubro que posso eliminá-las.

Assim é que um dia destes entrei no blog da Preta Gil. Eu queria saber o que ela iria dizer das fotos perversas exibindo suas celulites e estrias. Do conteúdo do que li, gostei – uma apaixonada defesa da individualidade, contra a estética oficial padrão. “Eu me amo assim como sou”, diz Preta Gil.

Mas eu gostaria muito que ela amasse a língua portuguesa do jeito com que se ama. Com a mesma paixão. O texto, de conteúdo ardente, fazia arder também a gramática, mesmo para os mais tolerantes. Mesmo que se considere – como eu considero, aliás – que a língua portuguesa passa por um acelerado processo de transformação, e que o “você” há muito tempo deveria estar oficialmente incluído entre os pronomes pessoais do caso reto, entre outras mudanças. E que, mais cedo ou mais tarde, “menos” vai concordar com o substantivo...

O que me pasma é a absoluta despreocupação em relação a fazer-se entender. Para que duas ou mais pessoas se entendam, é preciso haver regras e significados comuns. Escrever corretamente, ou com o mínimo de correção, é essencial para que as pessoas compreendam com clareza o que se quer dizer. Essa despreocupação não é só da Preta Gil, mas de milhares de outras pessoas também. Vendedores, inclusive, que deveriam realizar, por força do ofício, um esforço para se fazer entender bem.

Um bom exemplo disso está no Mercado Livre, onde a linguagem também é livre, desde que sem ofensas e palavrões. Leio um anúncio escrito assim: “queicha na cor begê”. Trata-se de uma estatueta de uma gueixa, vestida na cor bege. Penso que o sujeito talvez até saiba o que está vendendo, mas com certeza não vende, ou vende mal.

No Mercado, oferecem-se “bandeijas”, “tijelas” “mantequeiras”, “leiteras”, “lampeões” e “traveças”. Isto até dá para entender. Mas “ganço” (será um gancho ou um ganso?), sacarolla (era um sacarrolhas) e “galeteiro” (galheteiro) – fica mais difícil. E é quase impossível entender o que se quer dizer com “louça ágata” e “santo sacro”. No primeiro caso, o produto era uma peça de metal esmaltada, que é conhecida como ágata; no segundo, imagens barrocas em medalhões de prata – presumo que “santo sacro” seja o tipo da antiguidade. A displicência permite, também, coisas estranhas como esta: “balança de pesar bebê de farmácia”.

O que pretendo dizer com tudo o que escrevi acima é que o amor pela língua materna é também um amor por si mesmo. Comunicar-se é trafegar num terreno comum de conceitos e convenções, para que as pessoas possam entender o que se diz, e para que a gente possa entender o que as pessoas dizem. Na escrita, em que a entonação da voz e a expressão corporal são omitidas, é vital conhecer esse terreno, ou o amor próprio vai para o espaço – tanto para a Preta Gil como para os vendedores do mercado livre. Não há quem resista ao desentendimento.