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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Tiririca, boa sorte!

Ele é o legítimo representante de alguns milhões de brasileiros. Talvez nem dos que votaram nele, mas dos milhões de brasileiros semianalfabetos, ou, na linguagem politicamente correta atual, analfabetos funcionais.

Lembra-me o cacique Juruna, eleito pelo Rio de Janeiro politizado, para ser o primeiro índio no Congresso Nacional – seus representados eram os índios, que não votavam; então o Rio de Janeiro cedeu uma vaga para eles. Juruna andava com um gravador pendurado no pescoço para testemunhar suas audiências. Sua presença no Congresso – determinou uma alteração substancial na política indigenista. Principalmente porque os índios passaram a ser vistos pela população: aquelas imagens exóticas das revistas foram aos poucos substituídas pelas imagens dramáticas e contemporâneas. Ele conseguiu apoio suficiente no Congresso para trazer para as mesas de negociação a questão das terras indígenas.

Era um só índio, eleito por não-índios, cumpriu um só mandato e fez enorme diferença até ser politicamente devorado.

Se Tiririca vai fazer ou não diferença, não sei. Mas ele é um homem que batalha a vida, igual a milhões de outros espalhados pelo Brasil, que não votaram nele mas que vivem o drama das poucas letras.

Eu vi a cartilha que ele distribuiu, e gostei. Simples, fácil, pobre, direta e decente. Se essa vai ser sua marca, ótimo: o elitista Mercadante, que mandou tirar seu nome da propaganda dele, terá que enfrentá-lo.

Se o alcançasse, diria a Tiririca que marque o seu mandato em algumas coisas essenciais para esse povo de analfabetos funcionais: sinalização gráfica, por exemplo, nos transportes públicos (é terrível a dificuldade que um analfabeto desses tem para pegar um ônibus); prioridade para o combate ao analfabetismo, hoje chamado sofisticadamente de Programa EJA (Educação de Jovens e Adultos), relegado a segundo plano governo após governo; mídia de rádio em massa para prevenção de doenças; e muitas outras coisas pelas quais lutar. E mais: contrate um tradutor de vernáculo, ou seja, uma pessoa capaz de lhe explicar a complicada linguagem burocrática.

Como não o alcanço, limito-me a desejar-lhe sorte melhor que a do Juruna que, ao perder a eleição, perdeu também a tribo e ficou num desvão entre a floresta e a cidade, numa velhice miserável até morrer. É extremamente difícil o combate com armas desiguais, e nem sempre se tem a pontaria de um Davi, que derrubou Golias com uma pedrada (mas que teve que usar a espada do gigante para matá-lo, ou seja: teve que armar-se no padrão do outro). Não ler fluentemente, e escrever com dificuldade é como enfrentar espadachins com uma atiradeira na mão.

Por outro lado, espadachins podem ser detidos pela sabedoria, mesmo que esta use pedras. Os romanos aprenderam isso da forma mais dura e literal, na guerra contra Cartago, de onde o sábio Arquimedes lhes atirava pedras com tanta sabedoria que afundava as galeras antes que chegassem ao porto. Mas era Arquimedes, não era Tiririca: este terá que se ater com a sabedoria comum que, se nos deu Carolina Maria de Jesus (“Quarto de Despejo”) e Cartola, ainda não nos mostrou ninguém capaz de escalar as muralhas do sistema sem a escada do alfabeto.

Não estranhem, meus amigos, estas linhas. Eu não tenho vergonha de ter o Tiririca no Congresso: ele é um pedaço grande do Brasil. Tenho vergonha é da existência desse pedaço, de seu tamanho e da nossa incompetência em fazer com que renasça na leitura.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Vergonha!

O que aconteceu na Grande Belém, no dia 5 de outubro, a quando das eleições municipais, é uma vergonha.
E não adianta os tribunais eleitorais e o Ministério Público fazerem de conta que tudo está bem. A população sabe. A população viu. A população sentiu.
Cerca de trinta mil eleitores foram objetivamente impedidos de votar em Belém, e alguns outros milhares em Ananindeua; e se eu digo “objetivamente impedidos”, não estou exagerando. Urnas que deviam ser substituídas, não o foram; e não havia cédulas para a votação manual.
É ridículo dizer-se que os resultados estão dentro da normalidade: não estão. Basta conferir a abstenção havida nas eleições, desde 2000: em todas as votações, ela fica muito longe dos 19% registrados nesta.
Choro de perdedor? Não, nada disso. Eu não estive na campanha, não apoiei qualquer candidato. Mas reclamo em memória dos que sofreram, morreram, foram exilados, humilhados, perseguidos para defender o direito do eleitor de escolher seus representantes; para defender a liberdade de julgamento no Judiciário, a dignidade da toga. Não é tanto tempo assim: ainda não se passaram 50 anos que Herzog morria na cadeia, Ulisses Guimarães era humilhado em público, Juscelino e Jango morriam em acidentes suspeitos, Teotônio Vilela percorria o país pedindo liberdade.
O que aconteceu em Belém ofende a memória destes homens.
Sabem os juízes e procuradores eleitorais, tão bem quanto eu, que trinta mil votos em Belém alteram a composição da Câmara de Vereadores. Sabem que as diferenças entre os candidatos foram pequenas demais, para que se desconsidere a quantidade de eleitores impedidos. Sabem que a eleição está sob suspeita.
Não adianta dizer que “foi o sistema”. O sistema que fez isso não é o de informática, o programado nos computadores. O sistema que fez isso é o mesmo que mantém a impunidade, é o mesmo que só fiscaliza os adversários, é o mesmo não viu uma garota presa entre homens em Abaetetuba, dias e dias a fio.
Esse sistema tenta convencer que a urna eletrônica é inviolável e que todos aqueles que a manipulam estão acima de qualquer suspeita. Tenta convencer, aliás, que todos os que organizam e executam o processo eleitoral estão isentos de qualquer paixão, inclusive da cobiça. Que os resultados são puros, isentos, livres.
Seriam – se não fosse o fato de que cerca de trinta mil eleitores não tiveram meios nem maneira de expressar sua escolha em Belém. Seriam – se não fossem as centenas de milhares de testemunhos sobre as condições de funcionamento das urnas eletrônicas, das trocas de disquete no meio da votação, das recomendações dos mesários dizendo ao povo que fosse para casa, às vezes até de maneira desaforada e direta. Seriam – se as urnas tivessem sido testadas, se tivessem sido conferidas, se a eleição tivesse sido preparada corretamente, com todo o respeito ao eleitor, à democracia, e àqueles que lutaram, sofreram e morreram para que esta eleição acontecesse.
É possível até que o resultado da majoritária não fosse alterado, se todos os que deveriam votar, votassem. Mas não se pode dizer o mesmo da eleição proporcional. A bagunça, fortuita ou não, acidental ou não, coloca em dúvida a legitimidade do mandato de todos os vereadores de Belém e Ananindeua.
E nos envergonha.
Uma vez, o ex-prefeito de Belém, Lopo de Castro, me disse que a oposição fazia campanha no Pará, nas décadas de 940, 950, com porretes de maçaranduba, para garantir a inviolabilidade das urnas, tanto quanto possível. A oposição terá que voltar a eles?

sábado, 4 de outubro de 2008

Doce festa

Hoje é véspera de eleições, e por toda parte eu ouço críticas.
Alguém, no supermercado, diz que é melhor anular o voto a votar nesses que estão aí.
Outros reclamam da falta de propostas. Outros da falta de senso dos candidatos, dispostos a tudo para fazer-se notar. Outros, ainda, da repetição indefinida da propaganda eleitoral. Alguns se recusam a assistir qualquer coisa. Outros assistem como a um circo, com pipoca, refrigerante, prontos para rir.
Intelectuais torcem o nariz, donas de casa falam em altos brados, homens confessam não saber em quem votar. Nada presta, salvo para os militantes dos partidos políticos, cujo argumento principal é: me ajuda.
Mas eu, eu gosto de ver as bandeiras desfraldadas, os raps e as paródias da propaganda musicada, as idéias fora de propósito e a cara-de-pau de alguns candidatos. Gosto de ver a política explodindo nas ruas, com opiniões, mesmo fora de propósito e de senso, com porta-bandeiras inertes como postes, demonstrando claramente que estão ali só para ganhar um dinheirinho.
Eu gosto do ar de festa cívica que as eleições trazem consigo. Não é uma festa em honra da Pátria, como na Independência, é a festa da Pátria amada, idolatrada, salve, salve: estamos decidindo nossos destinos, diz a expressão de cada um, nas ruas, saindo da cabine de votação carregando o segredo de seu voto.
Eu gosto de sentir o pulsar o coração da democracia.
Gosto de ouvir a cidade dizer-se pela boca de muitos. Nada é diferente do que sempre foi, mas é sempre uma coisa nova inaugurando o seu dia, como disse João Cabral de Melo Neto. Intriga-me a sabedoria do voto, do rumo traçado por milhares ou milhões de mãos, indicando o futuro, agindo e reagindo de uma maneira intuitiva, mas sempre com poderosas razões movendo os dedos.
Sou daqueles que discordam de quem diz que o povo não sabe votar, que o povo é manipulado, que vai pela onda do marketing e da mídia, do voto comprado e coisa e tal. Isto porque eu já vi candidatos distribuírem dinheiro, cesta básica, remédios, óculos – e perderem fragorosamente eleições. Discordo de quem acha que o povo não sabe o que quer, que se ilude com falsas promessas. O povo sabe muito bem o que quer, e vota no sonho que tem. Só dormindo alguém sonha com o que não conhece e nunca viu.
Aprecio o estágio político em que estamos, eleição após eleição. Na primeira metade do século XX, os candidatos imprimiam e distribuíam suas cédulas de papel, situação e oposição eram obrigados a defender seus votos até com jagunços. Havia urna emprenhada, mapismo e roubo, puro e simples, de cédulas, para que não estivessem disponíveis para o eleitor. Na segunda metade do século XX, o regime era bipartidário e os candidatos de situação e oposição tinham que passar pelo crivo dos serviços secretos antes de poderem mostrar a cara ao povo. Não havia propaganda: o nome próprio (nada de apelidos), uma foto, um número, e estamos conversados.
A eleição era sem-graça, até porque, se a oposição tivesse votos demais, seria cassada.
Hoje, bicicletas sonoras circulam o dia todo, alto-falantes lembram fulano e cicrano, as carreatas e caminhadas assinalam as opções e nós – nós podemos criticar à vontade. Podemos dizer tudo o que nos vem à cabeça, podemos até elogiar se quisermos, podemos fazer propaganda e podemos não fazer nada.
A liberdade é doce e suave. A Pátria livre se enfeita de faixas, panfletos, cartazes, se enfeita sobretudo de vozes dissonantes, mas harmoniosamente democráticas.
E de repente sabemos que somos brasileiros, profundamente brasileiros.