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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Oh, liberdade!

O poema a seguir, que traduzi livremente, é a versão francesa para o coro dos escravos da ópera Nabuco, de Verdi – ária mundialmente conhecida como “Va, pensiero”.

Está aqui porque quero falar dessas eleições que acabaram de acontecer. Porque finalmente elas foram inteira, total, integralmente livres.

Muitos encontraram nelas diversos problemas éticos. Eu também, mas nada além do que se pratica todos os dias no Brasil: o político que coloca a mulher para continuar governando através dela; a legenda que aproveita a popularidade de um comunicador (nesta eleição foi a vez do Tiririca) para eleger terceiros; os instrumentos da baixaria, que existem em toda parte em pequena escala.

Mas, tirando o argueiro do olho, poderemos contemplar também o povo erguendo sua voz, em campanhas – algumas podem até ser consideradas inoportunas - e obrigando os candidatos a ouvir. Podemos sorrir felizes do caldeirão na internet, rir dos disparates da campanha na tevê. Se nos posicionamos mais distantes, podemos avaliar o poderoso duelo que se travou de norte a sul do país – pela primeira vez sem dicotomias, e pela primeira vez sem medo algum.

Foi para isso, exatamente para isso que lutamos tanto. Então meu pensamento vai nas asas douradas de Verdi com as palavras de Claude Lemesle - ao lado, na voz de Nana Moskouri:

Quando tu cantas, eu canto contigo, liberdade!
Quando tu choras, eu choro também tuas dores!
Quando tu tremes, eu rezo por ti, liberdade!
Na alegria ou nas lágrimas eu te amo.
Lembras-te dos dias de tua miséria,
Meu país, teus barcos eram galeras.

Quando tu cantas, eu canto contigo, liberdade!
E quando estás ausente, eu te espero.
Quem és tu? Religião ou simples realidade?
Uma idéia de um revolucionário?
Eu creio que tu és a única verdade,
A nobreza de nossa humanidade
Eu compreendo que alguém morra para te defender,
Que alguém passe sua vida te esperando.

Quando tu cantas, eu canto contigo, liberdade!
Na alegria ou nas lágrimas eu te amo.
As canções da esperança têm teu nome e tua voz
O caminho da História nos conduzirá para ti,
Liberdade, liberdade!

sábado, 13 de setembro de 2008

Waldick, a marca

Eu não me dera conta o quanto Waldick, Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Angela Maria, Jackson do Pandeiro, e outros desses estavam presentes na minha vida até descobrir, de repente, que todas as músicas que sabia de cor sem ter decorado deliberadamente a letra eram aquelas cantadas por essas pessoas.
Essas foram as músicas da minha infância e pré-adolescência, ouvidas nas rádios e nos alto-falantes das esquinas. Decorei por ouvir, ouvir e ouvir, porque todos os discos de vinyl que comprei, a partir dos quinze, dezesseis anos, passavam muito longe deles.
E aí fiquei pensando o quanto essas pessoas – essas músicas, esse estilo de cantar – influenciaram minha vida e meus gostos e desgostos.
E o quanto elas foram – ainda são – importantes.
Eu não gosto nem gostava do Waldick, sua voz de aguda e, para mim, desagradável. Nunca decorei o “cachorro não” – já não ouvia tanto os alto-falantes. Mas “Quem eu quero não me quer” – impossível não repetir mentalmente a música enquanto escrevo este texto.
Uma outra música, gravada pelo Waldick, chega até mim na voz de outro cantor, este latino: “Perfume de Gardênia”. Eu nunca vi uma gardênia, e acredito que a maioria das pessoas desta Belém do Pará, também não. A gardênia era mexicana, não sei o cantor, mas o perfume de gardênia me adverte sobre a poderosa influência da música hispânica nesta região – da salsa ao bolero, e letras inteiras em espanhol me afluem, como “cierta vez un ruiseñor”, ou vereda tropical.
Mas, neste mesmo momento, estou ouvindo música sertaneja, exatamente da mesma maneira com que ouvia Waldick. À revelia, porque ninguém obedece a posturas públicas nesta cidade e os bares, casas noturnas e que tais fazem o barulho que querem, do jeito que entendem, e acabo de descobrir que era assim quando eu era menina, também. A música entra ouvidos a dentro, chateia, mas fica. Mais dia, menos dia, acaba-se decorando uma letra indesejada.
Há que tolerar? Ou tenho direito de não ouvir? Se eu colocasse meu som, com toda a potência do subwoofer, com o dueto de Siegfried, seriam os apreciadores da música sertaneja obrigados a tolerar? Ou não?
E até onde isso contamina o gosto e a estética? Meus filhos riem-se quando olham alguns de meus discos: Nelson Gonçalves, Jamelão, Gregorio Barrios... E, exceto Jamelão, cuja voz, quando jovem, era de uma pureza excepcional, nem eu mesma sei porque às vezes ainda ouço. Creio que um vírus antigo, inoculado pelos alto-falantes e pelos rádios, quando eu era menina. Sei as letras, e isso é algo íntimo, conhecido, terreno seguro – mas essas letras sempre me levam a um conflito, porque, em sua maioria, são horrorosas, em suas músicas em duas escalas e harmonias simples. Muitas, eu gostaria de esquecer – mas não posso. Afinal, durante anos e anos e anos eu ouvi “Minha mãezinha querida / mãezinha do coração”, coisa que detestava mesmo aos dez anos de idade, mas que ficou em minha memória como uma marca, mas de que?
Agora o Waldick morreu, e eu sou obrigada a reconhecer que ele esteve presente em minha vida, sem que eu percebesse sequer, mais do que eu supunha, e muito, muito mais, do que eu gostaria que tivesse estado. Muito mais do que esteve o outro ilustre morto do mês, o Fernando Torres.
A morte dele me leva a constatar que Chitãozinho e Xororó, Leandro (ou Leonardo?), Daniel e outros semelhantes hoje estão presentes na minha vida muito mais que os cantores que eu curto de verdade. Eu ouço as imitações destas figuras quatro vezes por semana, algumas horas por dia, graças ao desgoverno desta cidade – enquanto só pude ouvir “St. James Infirmery” uma única vez, nos últimos dois meses...
Porque também este som descarado impede que a gente ouça o que gosta. Ópera e jazz são como champanha, dificilmente alguém, por mais tiete que seja, aguenta uma dose às dez da manhã; a música romântica, clássica ou popular, pede o frescor noturno – 35 graus de calor são incompatíveis com Pixinguinha; e a alucinação do rock – Hendrix, Floyd, Malmsteen – exige que você já tenha acabado o trabalho do dia, para poder mergulhar na emoção.
Waldick, o cabotino, me marcou e eu nem sabia. Estou danada com isso.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Há limites?

Vejo Lula na tevê dizendo que é inadmissível que bandidos tomem conta do morro.

De fato, é inadmissível.

Que dizer, então, de pessoas suspeitas tomarem conta do país inteiro?

Jornalistas têm feito essa afirmação – que é inadmissível que pessoas suspeitas tomem conta do país inteiro.

Um deles disse que toda a verdade já foi descoberta, mas nada acontece. Que o governo é psicopata, e que existe uma quadrilha enfiada no governo.

Vai daí, Lula manda que lhe tirem o programa do ar e o demitam da emissora de rádio.

Como a rainha de copas do livro de Alice: “Cortem-lhe a cabeça!”

Trata-se de Arnaldo Jabor.

De antemão devo dizer que não concordo que um jornalista agrida como agride Jabor – que usa insultos em seus discursos.

Mas os delitos de imprensa são legalmente previstos, e neste momento, deve haver dezenas de milhares de processos contra jornalistas por pessoas que se sentem atingidas.

O próprio Jabor foi processado e condenado por crime de imprensa no seu programa de rádio, do qual foi demitido. Dois processos que resultaram numa conta de 250 mil reais, movidos por deputados que não se acham canalhas, como ele os chamou no rádio.

Mas Lula atira de bazuca no passarinho – manda demitir, tirar o programa do ar. Usa o enorme poder do Estado em proveito próprio, visto que o jornalista não atacou o presidente da República, mas o governante, não atacou a instituição, mas a pessoa que eventualmente ocupa o cargo.

Da mesma forma como Lula vai ao Rio de Janeiro falar contra bandidos.

Depois que essa operação-favela terminar, o que vai acontecer? A polícia vai ficar mandando lá? Teremos um Iraque no morro do Alemão? Forças permanentes de ocupação do morro?

Porque, é óbvio, depois que a polícia sair de lá, outros traficantes vão ocupar a vaga.

Os dois episódios são frutos da mesma árvore. E essa árvore tem seiva de violência. Metralhadoras e granadas (a indústria de armas deve estar rindo), e silêncio forçado para quem achar ruim.

A paz social não pode ser fruto de batalhas de homens mascarados. E os policiais que subiram o morro usam máscaras. Porque? Para matar impunemente? Porque só isso justifica que um policial esconda a cara.

De qualquer forma, a máscara dos policiais é apenas a expressão física da mascarada que este governo impingiu ao país: usa a mesma política que Perón usou na Argentina com os “descamisados”, nas primeiras décadas do século XX e chama isso de distribuição de renda. Compra votos com bolsas, e chama isso de política social.

Criou agora o tal do PAC, pseudo programa de aceleração de crescimento, colcha de retalhos de ações que já existiam, e concentração de dinheiro eleitoreiro.

No fundo, Jabor tem razão: depois de Lula, Garotinho. Com o PAC, há meio bilhão de reais para pavimentar o caminho do ex-governador do Rio de Janeiro rumo ao Planalto: sai Roriz, mas Renan fica. Renam é do PMDB, da ala dos garotos de ouro – ouro de pilhagens, entenda-se.

E Jabor tem razão de novo, quando diz:

“Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma neo-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo.”

E este é um trecho do discurso que lhe valeu a perda do emprego e do programa...