Mostrando postagens com marcador costumes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador costumes. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de maio de 2014

Pelas mães de Ajuba


Não é possível ficar indiferente.

Qualquer uma de nós sentirá um estremecimento só em pensar em sua filha como uma delas, embora nós estejamos do outro lado do Atlântico, num outro mundo cultural, muito longe da Nigéria e da insanidade tribal desse grupo islâmico.

As duzentas mães de Ajuba precisam de solidariedade e de esperança no resgate de suas filhas sequestradas e escravizadas somente por desejarem uma vida melhor para si e para o seu povo. Por estudarem. Por sonharem os sonhos comuns a todas as nossas filhas: um diploma, uma profissão, respeito social.

Essas mães à beira do desespero são uma situação extrema da difícil maternidade de nossos tempos. Antigamente as mães temiam as guerras e as doenças. Elas viviam um corpo-a-corpo contra a morte, em meio ao embrutecimento do trabalho doméstico contínuo. Hoje a função materna se tornou complexa. Se, antes, as mães preocupavam-se com as más companhias, hoje devem se preocupar também com as más informações, essas coisas fluidas que entram na casa da gente por variados meios e distorcem o pensamento das crianças. Aos cuidados tradicionais com alimentos, roupas, ciclos de crescimento, estudo e formação de caráter, somaram-se a guerra contra o consumismo induzido pela publicidade exagerada, contra a droga, contra o aliciamento; a necessidade de inserção num mundo em rápida transformação; a iniciação à vida adulta numa sociedade exigente e complicada. As meninas não sonham mais somente com um príncipe encantado, elas não querem mais o poleiro dourado da prisão doméstica. Elas querem viver integralmente.

Uma coisa não mudou, entretanto: a culpa. É sempre da mãe.

Imagino essas mães nigerianas ouvindo dos parentes, maridos inclusive: “Porque você insistiu em manda-la para a escola?”. Ou, ainda: “Era melhor ter deixado a garota em casa”. Em situações muito menos dramáticas, ouvimos isso quase todos os dias. E, agora, atribuem-nos culpas até mesmo pelos genes que transmitimos, como se pudéssemos controlá-los...

São as mães que continuam indo nas reuniões de pais. São as mães que fazem fila nos cadastramentos de bolsas, na espera das senhas para qualquer tipo de atendimento social. São as mães as responsabilizadas pelo desempenho, escolar ou social, do garoto. “Tua mãe não te educou, não?”.

Pois é exatamente para responder a essa cobrança que as mães nigerianas tentam educar melhor as suas filhas. Com o coração apertado, mas lutando pelo futuro delas, enfrentando o machismo e a intolerância, como nós fazemos todos os dias por nossas filhas. Só que em nosso país as garotas correm riscos, que são a ameaça do perigo, ao ir para a escola. Em Ajuba, correm perigos reais.

As lágrimas e o sofrimento dessas mães nigerianas exigem de nós um gesto de apoio, principalmente hoje, em que celebramos a maternidade.

No mínimo, uma oração. 

domingo, 3 de julho de 2011

Passarelas globais

Tudo começou com uma coleção de fotografias dos desfiles de moda desta estação pelo mundo. Antes disso, eu havia lido uma entrevista da Carmen Mayrink Veiga, um dos ícones da elegância de alta costura, em que ela dizia que o que se vê nos desfiles é puro lixo – mau gosto, no vocabulário de uma socialite como ela.

Depois, fui olhar as fotos dos vestidos que estão sendo leiloados em Hollywood, da coleção de Debbie Reynolds (os mais velhos vão lembrar-se dela, a mocinha ingênua de quem Liz Taylor tomou o marido), que não conseguiu montar um museu com eles; as fotos de alguns vestidos da princesa Diane, também leiloados, mas em New York; e o tapete vermelho do Festival de Cannes.

Bem, os vestidos que estão sendo leiloados (alguns por pequenas fortunas) são todos clássicos, o que deve consolar a Carmen: a permanência exige um padrão estético bem definido, porque mesmo a simplicidade do vestido branco plissado de Marilyn Monroe só existe com um corte perfeito.

Daí, fui tentar entender porque as passarelas do mundo inteiro vêm apresentando coisas no mínimo absurdas: na Ucrânia, um casal desfilou apenas com tapassexos – só que o dele era uma máscara de caveira e o dela era uma raiz de planta; na França, havia um modelo masculino com uma capa de folhos que lhe cobria metade do corpo, rosto inclusive; na Alemanha, mulheres descabeladas com os rostos pintados de tal forma que pareciam ter saído de uma surra, combinando, aliás, com a roupa rasgada; na Dinamarca, vestiram árvores com a roupa de gente.

Li uns quatro ou cinco artigos, entre eles o resumo de uma dissertação de mestrado e uma reportagem tentando explicar o que acontece. Eis o resumo: a globalização está uniformizando tudo; então as pessoas estão tentando desesperadamente mostrar sua individualidade. Desconstruindo a indumentária para gritar “eu existo, sou um indivíduo, não sou um apenas um número de cadastro”.

O problema é que, mesmo assim, a estética é implacável. Sua base matemática limita as assimetrias, por exemplo; elas têm que ter proporção, ou o olhar se retrai instantaneamente, recusando a desmedida. Então, a desconstrução – misturar estampados com listras, verde com rosa ou roxo com laranja, oncinha com grafismo – também tem um padrão estético indispensável ou vira, como diz a Carmen, lixo.

Um milímetro a mais no rasgão da roupa transforma o sofisticado em brega. É um limite tênue e, como a desconstrução deve ser individual, acaba sendo encontrado no coletivo – aquilo que “todo mundo está usando agora”.

E aí o “eu sou diferente” vira igual, novamente. As roupas descontruídas se tornam tão comuns que um clássico é que será o diferente. Tal como fez Jane Fonda no Festival de Cannes – a mais bem vestida, disseram, a mais elegante, num vestido que a cobria inteira. Com joias, bolsa e sapatos combinando.

Hoje, o que as passarelas da moda devem exibir são ideias para o mercado global. A roupa para vestir é mostrada no interior dos ateliês ou dos salões de venda das lojas de vestuário. A mulher com o rosto cruzado por trancinhas do próprio cabelo, ou o sujeito com metade do rosto pintada de verde, que desfilaram em Paris, são apenas polos radicais e indigestos de uma nova abordagem. As ideias serão tornadas digeríveis nos ateliês pessoais ou industriais que sabem perfeitamente que o que as pessoas vestem está muito aquém da desconstrução. Qualquer foto, de qualquer esquina do mundo retratará gente vestida com tênis, camisa de malha e calça comprida. As variações repousam sobre este conjunto, porque é prático, é barato – e é comum. Sim, comum. Semelhante a todo mundo.

É que há algumas coisas que, de tão evidentes, os teóricos se esquecem. Ninguém gosta de ser notado o tempo todo. Há momentos para aparecer, mas na maior parte de sua vida as pessoas querem passar despercebidas, por milhares de razões. A principal delas talvez seja por que é muito difícil manter, todos os dias, uma boa aparência o dia inteiro e combinar isso com conforto.

O distanciamento dessa realidade vem deixando as passarelas da moda como uma Sapucaí desordenada, combinando show de horrores com exageros de plumas sem nenhum enredo para desenvolver. É divertido, escandaloso e só para aquele momento. A moda, mesmo, rola por fora. Na plateia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O traje da posse

Abro o convite, posse do governador pela manhã e a indicação é seca: traje passeio.
Solenidade a céu aberto, no mínimo 35 graus Celsius positivos. Choveu muito, na véspera; o ar está limpo de qualquer poeira que atenue o sol equatorial.

Saí de casa pensando que a indicação seca do convite permitia um voo da imaginação, porque o conceito de “traje passeio” difere conforme a cabeça da pessoa e o próprio traje é feito, também, conforme a renda. E uma posse, num governo democrático, vai reunir todos os níveis de renda.

Bem, foi um divertido espelho do jeito de vestir no início do século XXI, em Belém do Pará. Roupa é também um conjunto de sinais que informam ao olhar do estranho a classe, a disposição de ânimo, o objetivo de quem veste. E, para além da moda do momento, também informam os parâmetros sociais exigíveis – ou aceitos - numa solenidade dessas.

No caso dos homens, a margem de manobra é limitada, porque o parâmetro “traje passeio” é quase um uniforme: paletó, gravata, meia e sapato.
Mas tem o sujeito do paletó alugado, com uma transparente falta de hábito de envergar o traje: sobram botões e bolsos, a gravata despenca para um lado e o sapato é o único, geralmente sem nada a ver com o resto. Esse tipo não tem punhos de camisa: a camisa por baixo do paletó é de mangas curtas e colarinho, às vezes, até pólo.

Tem o cidadão que cheira a tira a quilômetros de distância. Eles parecem comprar ternos na mesma fábrica e não adianta mudar a cor. A gravata é de nó corrediço, sempre, não sei porque, embora eu ache perigoso um segurança andar com um nó de forca no pescoço; o cinto está sempre à mostra, porque como eles nunca fecham o paletó, ele despenca nos dois lados, por força da gravidade, voeja em torno dos quadris.

Há o impecável. O terno de corte perfeito geralmente é tão discreto que sobressai do resto, principalmente porque a gola e os punhos da camisa são alvíssimos. Nos sapatos, nem um grão de poeira, sugerindo que jamais entram em contato com asfalto e reles calçadas; de vez em quando, um fugaz brilho no pulso indica o relógio.
Em contraponto, o contestador veste um terno claro e põe uma gravata de tal modo e com tal arte que informa imediatamente que ela, a gravata, está ali contrariada, por pura obrigação. Eu observei cuidadosamente um deles: a gravata estava direitinha, com um nó Windsor, mas ele deixara uma ponta tão comprida que ela balançava um “não” redondo. Nos pés desse indivíduo você pode achar um mocassim, um sapato de elástico, um sapato cavado – jamais vai encontrar uma fieira amarrando as abas do rosto.

E tem o militante entusiasmado. Ele pôs o seu melhor paletó, ou talvez seu único terno, que pode ser marrom ou quadriculado, até azul marinho, mas jamais é preto.
Ele toma cuidado com essa roupa, volta e meia olha para ela. A camisa geralmente é de cor, com os punhos, às vezes puídos, bem abotoados. A calça é outra história. Pode ser do terno, mas pode ser jeans, pode ser preta, pode ser de qualquer cor, mas será a melhor do guarda-roupa, e estará muito bem passada. O sapato, como é único, é um social clássico e, por isso, a gente pode medir-lhe a idade comparando a ponta com a moda do momento.

Este homem, se estiver acompanhado, será de uma mulher que foi ao cabelereiro na véspera especialmente para a ocasião, estará com as unhas pintadas na cor da moda, bem viva, e veste, também, o melhor vestido, aquele que usou na última festa a que foi – é decotado e tem brilhos. E como o vestido pede, o sapato é muito alto, combinando com a bolsa, que, evidentemente, é de festa.

Ela encontrará lá um outro tipo de mulher: a que precisa aparecer. Pode ser que esse precisa seja por necessidade, mesmo – fazer-se notar para conseguir subir na carreira ou arranjar emprego – ou pode ser que seja por temperamento. Os cabelos delas ou são louros, ou são negríssimos, ou são mechados de dourado, mas sempre pintados. As mais velhas, com esse perfil, usam tons azulados ou, então, um louro claro, mas fogem do acaju padrão como o diabo da cruz. Elas brilham nas orelhas, nos braços e nas mãos. Os vestidos são planejados para disfarçar ou valorizar o que interessa: curtos, se as pernas são bonitas, decotados, se o colo é notável, semilongos, se há necessidade de cobrir os joelhos. Mas são sempre vestidos.

Diferente desta, há aquela que de longe se apresenta como executiva. Está toda em tons pastel, ou então de preto; usa terninho ou tailleur; o cabelo é correto, a maquilagem é discreta, o sapato é de saltinho e, geralmente, fechado. A roupa cai arrumadamente e não há um fio de cabelo, quanto mais uma gola, fora de lugar.

Há, ainda, as festeiras. A roupa é arrumada de última hora, mas elas capricharam nos adereços e nas pinturas. Nessa categoria, as visões na posse foram diversas e, algumas vezes, até divertidas. Alguém apareceu de longo cheio de brilhos, outra levava um vestido de malha justo, com listras horizontais, que cairia muito bem numa magríssima – mas o caso é que ela era gordíssima. Decotes de todos os tipos e profundidades, e os cabelos, um espetáculo à parte: pirâmides, cachos, presilhas, piranhas, até uma tiara apareceu com uma flor presa do lado. Indiferentes aos resultados, elas fizeram, cada qual, a sua festa: abraçaram, abordaram, tagarelaram. Levaram ao pé da letra a indicação do convite: traje passeio, roupa para passear. E passearam, coloridas, alegres, felizes por estarem ali.

Bem, havia também os que consideram irrelevante o traje pedido: estes estavam sem paletó, eles, e elas usando rasteirinhas. Eram poucos, tentando uma originalidade que passou despercebida na multidão. E apenas conseguiram se confundir com os assistentes de cinegrafistas, que, em roupas de trabalho, enrolavam os fios.
No final da manhã, todos estavam nivelados pelo suor, apertados nas sombras dos palanques ou das mangueiras, pés pedindo trégua. E saíram, todos, com o ato de presença, em traje passeio, carimbado nas retinas alheias, esperando ter deixado uma boa imagem de si.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Natal, 2010

Mais uma vez é Natal, e barbudos fantasiados preenchem de concretude a imaginação das crianças. Os sininhos tocam, neve de mentirinha cai nos cartões eletrônicos, chegam as listas, ah, as listas: gêneros para as cestas católicas, protestantes, espíritas, filantrópicas e nem tanto; dinheiro para as caixinhas dos porteiros, dos lixeiros, dos empregados do açougue e da padaria; brinquedos para as promoções das ongs, e você não vai ver a apresentação das crianças do balé?

Mais uma vez é Natal, e tenho a impressão que a caridade, ela também, foi industrializada, massificada, despersonalizada: chamam isso de redes sociais, essa coisa de anônimos para anônimos, o horror dos eventos de entrega de brinquedos – uma boneca para a menina, um carrinho para o menino – e o pai ou a mãe na fila com a criança, e pessoas de boa vontade, com sorrisos de beatitude organizando a fila e repreendendo, e cadê o olho brilhante da criança abrindo seu pacote na manhãzinha, com o cheiro do café e o sorriso terno da mãe anunciando o Natal?

Mais uma vez é Natal, e no correio eletrônico as caprichadas apresentações recheadas de pensamentos nobres sobre Amizade, Amor, Agradecimento, Prece, Jesus, se sucedem ao som inevitável da Ave Maria, Gounod ou Schubert, em megabaites e megabaites de bons sentimentos e erros gramaticais, e no correio comum cartões recortados em forma de presentes oferecem juros estratosféricos e objetos desnecessários, com mensagens otimistas disfarçando a rapina.

Mais uma vez é Natal e os bazares se abrem, mas os bordados e rendas cederam espaço para as pinturas em tons fortes, cítricos, rápidos e baratos, e a beleza vai buscar refúgio nas joalherias, mais e mais inacessível, ensurdecida pelas músicas em duas escalas e duas vozes, três notas acima, três notas abaixo, a percussão fingindo qualidade e animação, purpurina sonora que desaparece no primeiro movimento, deixando somente feias marcas na memória.

Mais uma vez é Natal e os olhos dos ladrões com e sem gravata se arregalam diante do rio de dinheiro que corre, jorrando dos bancos e espraiando-se nas lojas, nas bancas de camelôs, nas barracas de feira e nas sorveterias, e é preciso participar, ir buscar, tomar e levar, não importa como, pode ser com um buraco de bala e pode ser com um buraco no bolso do cliente, tem que ser agora porque logo, logo, este rio voltará ao seu leito e então será a dureza de sempre.

Mais uma vez é Natal e os espaços se enchem de estórias de boas ações e também das boas ações com que as pessoas se absolvem dos malfeitos do ano todo, e nos olhamos uns aos outros admirando a espécie humana, tão generosa e tão nobre, tão rica de bem dizeres, ah, sim, podemos até considerar pitoresco o fato de que as luzes coloridas se refletem nas ruas inundadas de água represada e suja pelo descaso com o saneamento básico, e podemos olhar com beatitude corais cantando doces músicas de confraternização.

Mais uma vez é Natal e colegas de trabalho trocam seus ressentimentos junto com presentinhos de baixo valor, com tapinhas nas costas e murmúrios por detrás delas, alguém fazendo karaokê e os brindes dos fornecedores, em pacotes fechados, acendendo desejos entre as mesas.

Mais uma vez o Natal chegou com seu cortejo sentimental e sua crueldade difusa, risos e lágrimas entre luzes e ceias, entre orações e cânticos, entre incensos e velas, entre saudades e alegrias.

E se não chegasse, nós seríamos, com certeza, muito, muito piores do que somos. Por isso, armemos árvores e presépios e façamos esta noite feliz.

E em paz.

São meus votos, leitor.