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domingo, 7 de setembro de 2014

As distorções das mídias


Entre o eleitor e o candidato existe uma tela onipresente. E, se o meio é também uma mensagem, é preciso saber qual a mensagem dessa tela.

Ela é plural: grande, no cinema; média, na televisão; pequena, nos computadores e assemelhados; micro, nos comunicadores portáteis.

Ela não conduz à realidade, mas ao reality-show: isso que ela mostra, não nos atinge. Geralmente, nos distrai por um momento – e vamos para o próximo. É um meio superficial, gôndola de supermercado, sai um produto, entra outro. Aqui e ali se recolhe uma informação útil. E, como o nosso cérebro não é infinito, memorizamos essa informação e apagamos o resto.

No cinema, a tela é unidirecional. Ela passa um recado, mas só aquele, e vai direto para a impressão emocional. Filmes com temas políticos são sempre de propaganda (como “A rainha” e “O discurso do rei”, feitos para compensar o efeito Lady Di sobre a família real inglesa) e apelam diretamente para o subliminar. Graças a Deus, são difíceis de fazer e quase sempre chatos de ver.

Na televisão, a tela onipresente é também fracionária: ela se divide em segundos. Assim, há que falar em segundos. Se o tema é complexo, terá que ser simplificado. O resultado é uma vala comum de chavões, porque não há como explicar em segundos nenhuma política pública. A distorção do meio é cruel, reduz a insulto o que deveria ser crítica. Enéas se apresentou ao país em 30 segundos com um bordão de teatro que lhe rendeu votos mas nenhuma densidade política. É politicamente inexpressivo.

Nos computadores e nas telas dos portáteis ligados à internet, onde a leitura é obrigatória, há mais espaço para conteúdos e também menos pressa: você sempre pode guardar para ler depois. Mas aqui é o brilho da tela que cria outro tipo de distorção. Um quadro de Van Gogh na tela do computador emociona muito mais do que o quadro real: este não tem brilho nem transparência. A mistura desordenada com os anúncios (que saltam em cima do que você está lendo) nivela por baixo qualquer assunto, o transforma num produto a ser consumido. Além disso, o texto deve ser também sintético: ler com luz na cara cansa. O leitor desiste logo.

Finalmente, a telinha do portátil que recebe e transmite mensagens e clipes. Aí só dá para algumas palavras, para a discussão curta e grosseira. Ou seja, xingamentos, que também são parte de toda campanha eleitoral que se preze. Mas que só permitem um juízo de valor: avaliar a capacidade do candidato na pronta resposta e o grau de civilidade que tem.

O meio que transmite a mensagem cria distorções enormes, pois: o eleitor tem somente uma imagem do candidato; não tem a possibilidade de contribuir com seu esforço para a vitória de A ou B; não consegue saber a diferença entre uns e outros, exceto quando a proposta é radical. O resultado é o que estamos vendo: uma campanha vazia, produto direto da sua concentração nas mídias audiovisuais.

As mídias audiovisurais deveriam ser apenas uma parte da campanha; mas, com as restrições draconianas impostas por um falso moralismo – afinal de contas, ninguém vota contra seus próprios interesses imediatos e posso contar muitos causos que comprovam isso – o debate político virou, mesmo, um show ensaiado. Conseguiram acabar com a festa das ruas. O candidato emergente – aquele que fazia uma coleta entre amigos para pagar meia dúzia de camisas ou imprimir seus santinhos, financiar o som da festa do santo, contratar a van para levar seus eleitores à urna – dançou. Tem que barganhar com os caciques um tempinho para se apresentar na tevê – e esperar que seu carisma, se o tiver, faça o resto.


Que pena!

quarta-feira, 12 de março de 2008

Alzheimer

Nos últimos meses, recebi vários textos sobre o mal de Alzheimer.

A demência é um terror ancestral e atávico. Ela ameaça mais que o indivíduo, ameaça a espécie, e o sofrimento que provoca em quem está próximo, atinge para além da superfície emocional e das ligações individuais mais profundas: chega aos medos elementares. Humanos que somos, nossa diferença com os demais animais é o cérebro, que nos garantiu ser espécie dominadora e até fazer com que nos consideremos nobres. A perda progressiva das capacidades geradas pelo cérebro nos atira cara a cara com o inumano. E isso dói.

O último texto que recebi fala em exercitar o cérebro, de todas as maneiras possíveis, quebrando rotinas e isso e aquilo, como prevenção. Eu não acredito muito em pesquisas isoladas; elas são fragmentos pequenos de conhecimento, pequenos demais até para serem interpretadas corretamente. São grãos de areia: o conjunto é poderoso, enfrenta o mar. Sozinhas, sucumbem de roldão. Mas o texto que li fez saltar uma pergunta, decorrente, creio, diretamente do fato de ter ouvido o discurso de Pedro Bial no BBB de anteontem: tevê provoca Alzheimer?

Ouvir aquela lenga-lenga depois de ler uma página de Calvin & Haroldo me fez pensar também em abismos de desigualdades. E em emergentes, daqueles que colocam “Ulisses” debaixo do braço e vão ver “Os 300 de Esparta”. Essa desigualdade às vezes é dramática: não saber pode ser fatal para indivíduos de uma espécie que depende de saber. Fatal na forma do Alzheimer, fatal nas perdas quotidianas e fatal nas perdas coletivas. A ignorância coletiva impede, às vezes, a sobrevivência até. E nesta época de plenárias, consultas às bases, assembléias e orçamentos participativos, fico pensando que condições um votante do BBB tem para aprovar ou condenar uma usina de fissão nuclear.

Eu não sou pessimista, e nem vejo um mundo perdido e pior. Pelo contrário: milhões de pessoas vivem melhor hoje do que antes, mesmo na linha da pobreza ou abaixo dela. Mas nesta civilização há buracos negros, à semelhança do que o Alzheimer faz com o cérebro, e esses buracos precisam ser reconhecidos, para que possam ser tratados.

É preciso lembrar, ainda, que a humanidade não seria tão bem sucedida se não tivesse a enorme capacidade de superação, e, de alguma maneira, conseguir evitar a demência. Uma civilização substitui outra, tem sido assim desde o início dos tempos. A questão é: chegou a nossa vez de sermos substituídos?

Assistir a tevê brasileira aumenta as probabilidades do Alzheimer individual? Induz o Alzheimer coletivo? Ou é apenas mais uma droga para sossegar as massas, como diriam alguns combativos companheiros que acabam de votar a favor da tevê pública e burocrática?