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sexta-feira, 21 de março de 2008

Páscoa

Há quarenta anos, quando comecei no jornalismo, a cidade era tão religiosa que devíamos publicar o Evangelho da Paixão no jornal. Quase toda a edição era dedicada às solenidades. Por outro lado, não havia muito mais notícias para publicar naqueles dias. Belém tinha entre duzentos mil e trezentos mil habitantes, então. O poder católico era formidável. Gente não-católica, havia; que me lembre, judeus, protestantes, espíritas e maçons. Discretíssimos – a paixão religiosa era muito forte, e também aqui havia excitadíssimos personagens tentando erradicar o pecado do mundo. Todo mundo se fechava em casa, ou participava de procissões e missas. De opção, o cinema exibindo a Paixão de Cristo (o filme mudo, no Poeira) ou os Dez Mandamentos.

Meu tempo de jornalismo diário alcançou mais de vinte anos. Devo ter escrito milhares de linhas sobre a Páscoa, a Semana Santa, e, sobretudo, o que o povo faz nesse período, porque essa é a notícia. Por isso, sou sempre curiosa em saber o que faz a cidade, o povo da cidade, nesse período.

Bem, ontem, quinta, rolou quantidade de festas. O bar da quadra onde moro martelou música até à madrugada. Teve o bom-senso de silenciar o cantor desafinado às oito da noite, por meia hora, quando passou a cantoria estridente e arrastada da procissão da paróquia. Gente na rua, aos montes: uma véspera de feriado qualquer. Hoje, sexta, vizinhos montaram uma roda de canto coletivo à base de Ney Matogrosso no karaokê da tevê. Pelo menos é sem alto-falante.

Montanhas de chocolate, que parece hoje resumir a Páscoa. Pergunto para uma pessoa jovem se celebra a Páscoa. Ela me diz que não. Insisto: é importante? Responde, pressentindo uma armadilha: N-n-ã-ã-o... Então eu digo que o feriado deveria ser cancelado, porque sua razão de ser é religiosa; se não há religião, não há porque ter feriado. A reação é arrasadora: ora, mas o feriado é o feriado, já é tradição, não tem porque acabar com ela, nada a ver se a gente não vai à igreja, se a gente não curte a religião! O ovo de chocolate já foi comido até à metade. Porque esperar até domingo?

De fato, não há necessidade de expectativa, porque não há celebração. A festa é do Judas. No sábado, e com aleluia apenas para justificar a data.

A cidade de dois milhões de habitantes cumpre as formalidades, mas a data se tornou apenas uma celebração de cristãos militantes – que, pelo visto, são minoria, hoje. Pelo tamanho do noticiário, cerca de 20% do total.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Civilidade india(na)

Na esquina da minha rua, há uma sorveteria que se apresenta chique. De fato, é toda envidraçada, dispõe de bancos e palmeiras em vasos, mesinhas de alumínio e funcionários uniformizados e usando luvas. No entanto, pelo menos uma vez por semana transforma a calçada em lavanderia: põe tudo para fora e liga as mangueiras. Inunda a calçada e o pedestre que se vire.

A uma quadra, uma farmácia convive com uma calçada mal traçada e uma vala malcheirosa eternamente transbordante. A farmácia é bonita, tem portas automáticas e mantém uma elegante vitrine. Mas seu dono não se preocupou com os saltos que as pessoas devem fazer sobre o lodo, para chegar lá. Azar do cliente.

Na minha quadra, e na quadra a seguir, é extremamente comum que, principalmente aos sábados, homens em short e sandália ocupem as calçadas com baldes, mangueiras e sabão para lavar os respectivos carros. Geralmente colocam os carros atravessados na calçada; e, como fazem uma sujeira exemplar, ninguém passa. O pior é que eles acreditam estar sendo modernos e atualizados, porque vêem no cinema esse tipo de atividade sabatina. Só esquecem que ninguém faz isso na rua, mas no seu pátio.

A mesma coisa se faz na calçada de um edifício de luxo, cujo condomínio deve custar perto de dois mil reais mensais. Os carrões são lavados na calçada. Azar dos passantes e do piso de pedras portuguesas.

A umas cinco quadras, em outra direção, uma grande placa anuncia frango assado. O sujeito ocupou uma esquina inteira. Meteu ali seu forno, seus espetos, uma barraquinha auxiliar com uma imunda tábua de corte, onde prepara as aves. São frangos especiais: temperados com o diesel queimado dos escapamentos dos ônibus, devem ter um sabor peculiar. Mas a questão é o pedestre: bem, ele, que se esprema entre a parede e o forno para passar, ou desça o meio-fio e encare os carros.

No entorno do shopping Iguatemi, o espetáculo é deprimente. Os passageiros de ônibus são obrigados a ficar no asfalto: já não há calçadas para os pedestres, o meio-fio está totalmente ocupado por camelôs e a sujeira que geram. Para passar, o transeunte tem que enfrentar um verdadeiro corredor polonês. E como tudo e qualquer coisa podem acontecer ali, se não quiser riscos, terá que atravessar a rua. O trânsito não permite caminhar no acostamento.

A lista, como vêem, é variada: ricos e pobres se misturam na absoluta falta de consciência urbana. As calçadas, por aqui, ainda são consideradas quintais, lixões, tudo, menos lugar onde as pessoas transitam e se encontram, menos lugares de convivência pública. Ricos e pobres se servem da cidade como se fosse um local de despejo. Depois reclamam das condições de moradia.

Por seu turno, a Prefeitura segue o ritmo da maioria: tenta, não dá certo, desiste. Cinco prefeitos já tentaram tirar os camelôs do entorno do shopping, e não conseguiram. Quanto ao resto, nunca vi nenhuma ação nos últimos vinte anos.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A carta do Zé

Leio a carta do Zé Roberto, dou-lhe razão em se recusar a viver numa paranóia, mas...

Zé Roberto poderia talvez ter estudado um pouquinho mais – embora não se peça isso de jogadores de futebol – apenas para tentar compreender sua pátria. Descobriria que na década de 60 um francês descreveu o que chamou de Dois Brasis. Quarenta anos depois, Roger Bastide é ainda atual. As diferenças que ele identificou, Zé Roberto também identifica em sua carta: colonizadores e colonizados, alemães e brasileiros, e, no estudo do antropólogo francês, dentro mesmo do Brasil, as minorias ricas e as maiorias pobres.

Mas quarenta anos depois, essas diferenças se radicalizaram. A discussão iniciada por Bastide foi considerada subversiva nas décadas seguintes, porque afinal de contas, a propaganda dos governos militares insistia na figura do brasileiro cordial. A mascarada deu frutos: os problemas se tornaram muito maiores e, hoje, temos na verdade duas populações dividindo os espaços urbanos. Uma, mora em casa, trabalha em prédios, visita edifícios. E incursiona na rua: anda em carros peliculados e às vezes vai à praça, à praia ou ao parque.

(Sempre me divirto em ver pessoas descerem dos seus carros para correr nas praças, e depois voltarem aos carros para ir para casa... Parece-me meio surrealista, isso).

A outra, vive na rua e da rua, dos locais públicos, e incursiona nos espaços fechados. Toma banho em rodoviárias e aeroportos, usa sanitários públicos, come na barraca do camelô ou da feira, guarda a bicicleta acorrentada na porta das lojas, ou anda de ônibus e a pé. E incursiona em casa: geralmente em busca do quarto, e nem todos os dias.

Como vivem de forma diferente, obviamente essas duas populações têm prioridades diferentes. A população das casas tende à permanência: bens duráveis, planos de médio ou longo prazo, segurança, escola. A população das ruas tente ao efêmero: belas roupas, boa festa, comida descolada todos os dias e aventura.

Novidade? nem tanto. Há coisa de dez mil anos, assírios e caldeus – os primeiros, nômades, os segundos, agricultores – travaram guerras sem conta na Mesopotâmia, exatamente porque tinham prioridades desiguais. No livro “Vocês, brancos, não têm alma”, o antropólogo Jorge Pozzobon conta que, em pleno século XX, os índios makus repetiam a mesma história com os índios tukano. Para os assírios, makus e populações de rua, a propriedade não funciona para acumular, mas para usar e gastar. Ter está na razão direta da necessidade, seja qual for esta: um tênis de grife ou um prato de comida. O esforço é dosado para a satisfação das necessidades mais prementes; se sobra algum, gasta-se, porque o prazer também é uma necessidade premente. O sentido econômico tradicional da riqueza não existe para eles, não tem sentido.

Mas como faz sentido para as populações “das casas”, o conflito é inevitável. Essa situação já existia antes do acelerado processo de urbanização vivido pelo Brasil nas últimas décadas do século passado. Só que as cidades eram menores, e a cultura ainda não era de massa. Hoje, são milhões de pessoas que compõem essas duas populações, uma com medo da outra, uma sem entender a outra, uma tentando se defender da outra e resguardando suas prioridades.

O resguardo das prioridades de Zé Roberto no Brasil exige segurança máxima, e, naturalmente, se ele acha que encontrou um lugar melhor para viver, vai viver em outro local. Sem compreender que sua coragem seria necessária para ajudar os dois brasis a encontrarem um caminho comum e escaparem de conflitos maiores.

E sem memória, também: afinal, o povo alemão não é tão bonzinho assim...