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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O templo de Salomão


O nome foi bem escolhido. Salomão, o sábio, foi também um rei voraz. Diz a Bíblia que ele tinha 700 mulheres e 300 concubinas, de diversos povos. Diz ainda que, para abastecer sua casa, recebia diariamente de seus oficiais-governadores, encarregados de cobrar a parte do rei, 10 mil litros de flor de farinha e 20 mil litros de farinha (30 e 60 coros, respectivamente) além de “10 bois cevados, 20 bois de pasto e 100 carneiros”, afora caça e aves de criação. Ou seja, algumas toneladas de trigo e, em um ano, um imenso rebanho.

Reduziu à servidão “o que restou dos amorreus, heteus, perizeus, heveus e jebuseus”, derrotados em guerras de conquista. Construiu o grande templo mas, também, altares para deuses diversos, das religiões que algumas de suas mulheres confessavam.

Revendo essas informações antigas e os estudos que se fizeram sobre elas, e contemplando as fotos do recém-erigido templo de Salomão, não posso deixar de pensar que os milhares de anos que distam entre essas informações ainda são poucos para que a essência do fazer humano seja mudado. Lá, como cá, em nome de Deus se recolhem donativos, geralmente moralmente obrigatórios. Lá, como cá, em nome de Deus se fazem grandes edifícios: se no templo de Salomão cabem dez mil pessoas, na grande mesquita de Dubai, inaugurada em 2007, cabem 40 mil. Note-se que a cidade de São Paulo tem cinco vezes mais a população de Dubai - e uma proporção bem menor de favelas e miseráveis.

Salomão ocupou o trono de Israel depois de forçar a preterição do irmão mais velho (que depois mandou matar), casou-se com a filha do faraó do Egito e era fruto de um adultério sangrento. No entanto, lá, como cá, tudo se perdoa ao homem bem sucedido: o livro dos provérbios integra a Bíblia, novamente em nome de Deus, e o templo de Salomão é apresentado, tanto antes como agora, como produto da fé de um povo.

A enorme coleção de grandiosos monumentos religiosos que a humanidade abriga, reunindo templos, pagodes, esculturas e afins, não parou de crescer. Lamentavelmente, e em que pese a beleza da maioria deles – algumas joias de Ouro Preto, por exemplo -  eu não consigo olhar para essas realizações sem lembrar de escravos, de servos (como os sobreviventes dos povos que Salomão dizimou) ou de trabalhadores miseráveis (como os de Dubai ou os imigrantes ilegais de São Paulo) dando cotas de trabalho gratuito, todos assentando mármores.  Talvez eu esteja nadando contra a corrente: mas eu não acredito que a glória de Deus precise disso, ou que isso seja necessário para glorificar Deus. Mais me parece uma forma de disfarçar o mau cumprimento dos preceitos religiosos – tal como fez Salomão em sua dubiedade. O problema é que religião mal cumprida conduz ao fanatismo, quando a letra substitui a essência. E o fanatismo leva à intolerância e, muitas vezes, à guerra, como acontece há milhares de anos: entre budistas e zoroastristas, entre cristãos e muçulmanos, e, na Palestina, hoje como nos tempos de Salomão, entre israelitas e outros povos. Sem falar nas limpezas internas periódicas levadas a efeito pelos fanáticos de todos os credos...


Uma vez li um conto de ficção científica em que o mundo era dividido em três grandes zonas: uma de ateus, outra de cristãos, outra de muçulmanos, envolvidas numa corrida espacial de colonização de planetas. Na época, achei forçada essa divisão. Hoje, com a expansão religiosa que se exprime, também, em templos e monumentos, penso que talvez seja o rumo que a humanidade está tomando: como a milhares de anos atrás, o nome de Deus continua mágico para justificar o injustificável.

sábado, 21 de março de 2009

Menos, Dráuzio!

Li a carta aberta de Dráuzio Varella – e como eu gostaria de ter tantas certezas!

Primeiro, a certeza da ciência, la mobile donna. Esta senhora é tão volúvel! Mendel, por exemplo: durante anos a fio, isolado num mosteiro, cuidando dos jardins e fazendo pesquisas. Num mosteiro, sabe? Ele era um monge agostiniano. A inteligência médica da época abominava suas descobertas. Ele apresentou seus trabalhos; foi ignorado. Morreu em 1884, mas só no início do século XX que a inteligência médica finalmente compreendeu as leis do que se tornou moda, e hoje provoca a polêmica das células-tronco: a genética.

No século XIX, o que se aceitava como certeza médica científica passava muito longe das teorias desenvolvidas por Freud, durante todo o século, e até hoje polêmicas. Trabalhou-se a eugenia na Europa e nos Estados Unidos – o que é cuidadosamente oculto, hoje, depois que a segunda guerra mundial demonstrou, com os horrores dos campos de concentração, até onde se pode chegar na busca pelo indivíduo humano sem defeitos. São terríveis dos relatos de lobotomia praticada por médicos na “cura” de criminosos julgados casos perdidos; e são terríveis, também, os relatos das experiências realizadas com presos perpétuos nos Estados Unidos.

Ah, mobile donna!

Segundo, a certeza do compromisso médico com o alívio da dor. Não vamos longe. Brasil, anos de chumbo. Havia médicos nas salas de tortura, sim, senhor. Página negra? É, sim. Mas eles não fizeram nem mais, nem menos, do que seguir uma trilha sombria e obscura que vem desde o início dos tempos, acompanhando guerreiros, torturadores, violências. Essa trilha é bem pouco conhecida; é uma trilha que todos gostam de esquecer que existe e é mantida aberta até hoje – em Guantánamo, por exemplo.

Terceiro, a certeza de uma cosmovisão antagônica, entre o cristianismo – ou, mais especificamente, o catolicismo – e a medicina. Oh-ho, como cantaria Siegfried. Sem sair do Brasil: foram os católicos, à sombra da Igreja, com suas Pias Obras, que construíram os primeiros, os segundos e os terceiros hospitais por aqui. Era o bispo – não a autoridade pública, colonial ou imperial – quem abria hospitais, cuidados pelas ordens religiosas, mantidos pelas contribuições de caridade. Hoje o Brasil tem seu SUS – e grande parte dele ainda é operado por ordens religiosas católicas. Justo onde existe maior pobreza, onde não chega o braço secular do Estado – onde se precisa de mais que um salário para poder suportar a dificuldade. Isso não seria possível se houvesse uma cosmovisão antagônica; resignar-se à dor e à morte não é a mesma coisa que incentivá-la. É preciso um sentido para o sofrimento, para que ele se torne suportável.

Quarto, a certeza de que a manipulação da vida intra-uterina é indispensável. Ah, como eu queria ter certeza disso, do sim ou do não, límpido e claro! Aborto, por exemplo. Vejo defesas e condenações apaixonadas, mas nunca li nada sobre as consequências do aborto no organismo da mulher que o faz. Porque deve ter – é como capotar um carro, ou frear um trem em alta velocidade, porque todo o organismo se mobilizou para a gestação. O que, de fato, acontece no aborto?

A insegurança da camisinha e da pílula – porque a pílula tem uma margem de insegurança, embora nunca ninguém toque no assunto – estão levando os jovens africanos, nos países onde a AIDS é epidêmica, a adotar os princípios – tão católicos, por sinal! – da monogamia e do auto-controle sexual. É só ver os relatórios da OMS. E esses jovens nem são católicos...

O poder clerical pode ser grande, mas tem suas raízes nas dúvidas de pessoas como eu. E é por isso que interfere no social - até porque o poder político deriva exatamente do grau de aceitação da liderança. A excomunhão que o bispo fez pode ter sido fora de lugar, escandalosa, errada ou o que for – mas repousa nessas incertezas.

Por isso – menos, Dráuzio! Proteste, se acha que deve, mas dê o seu a seu dono; nem
os médicos são tão mocinhos, nem a igreja católica é tão bandida. Lá como cá, feras há.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Páscoa

Há quarenta anos, quando comecei no jornalismo, a cidade era tão religiosa que devíamos publicar o Evangelho da Paixão no jornal. Quase toda a edição era dedicada às solenidades. Por outro lado, não havia muito mais notícias para publicar naqueles dias. Belém tinha entre duzentos mil e trezentos mil habitantes, então. O poder católico era formidável. Gente não-católica, havia; que me lembre, judeus, protestantes, espíritas e maçons. Discretíssimos – a paixão religiosa era muito forte, e também aqui havia excitadíssimos personagens tentando erradicar o pecado do mundo. Todo mundo se fechava em casa, ou participava de procissões e missas. De opção, o cinema exibindo a Paixão de Cristo (o filme mudo, no Poeira) ou os Dez Mandamentos.

Meu tempo de jornalismo diário alcançou mais de vinte anos. Devo ter escrito milhares de linhas sobre a Páscoa, a Semana Santa, e, sobretudo, o que o povo faz nesse período, porque essa é a notícia. Por isso, sou sempre curiosa em saber o que faz a cidade, o povo da cidade, nesse período.

Bem, ontem, quinta, rolou quantidade de festas. O bar da quadra onde moro martelou música até à madrugada. Teve o bom-senso de silenciar o cantor desafinado às oito da noite, por meia hora, quando passou a cantoria estridente e arrastada da procissão da paróquia. Gente na rua, aos montes: uma véspera de feriado qualquer. Hoje, sexta, vizinhos montaram uma roda de canto coletivo à base de Ney Matogrosso no karaokê da tevê. Pelo menos é sem alto-falante.

Montanhas de chocolate, que parece hoje resumir a Páscoa. Pergunto para uma pessoa jovem se celebra a Páscoa. Ela me diz que não. Insisto: é importante? Responde, pressentindo uma armadilha: N-n-ã-ã-o... Então eu digo que o feriado deveria ser cancelado, porque sua razão de ser é religiosa; se não há religião, não há porque ter feriado. A reação é arrasadora: ora, mas o feriado é o feriado, já é tradição, não tem porque acabar com ela, nada a ver se a gente não vai à igreja, se a gente não curte a religião! O ovo de chocolate já foi comido até à metade. Porque esperar até domingo?

De fato, não há necessidade de expectativa, porque não há celebração. A festa é do Judas. No sábado, e com aleluia apenas para justificar a data.

A cidade de dois milhões de habitantes cumpre as formalidades, mas a data se tornou apenas uma celebração de cristãos militantes – que, pelo visto, são minoria, hoje. Pelo tamanho do noticiário, cerca de 20% do total.