Nos dados divulgados pelo Banco Central, na oportunidade do aumento da taxa básica de juros – festejada, aliás, pelos maiores beneficiários do desgoverno brasileiro, os bancos – há uma informação que, embora apenas parcial, traz maus prenúncios: a defasagem entre o crescimento do consumo e o crescimento da produção, na ordem de três pontos percentuais negativos para a produção.
Digo que a informação é parcial porque o número divulgado é relativo: não se disse sobre que valores absolutos incidem os oito por cento do aumento do consumo, ou os cinco por cento do aumento da produção. (É como aquela história de que a economia que mais cresce no país é a do Pará: 1% de crescimento da economia paulista é duas vezes mais que 100% de crescimento da economia paraense). A diferença, nos números absolutos, parece ser grande, ou não se justificaria a tentativa de freio no consumo.
Ainda bem que o efeito da distribuição de dinheiro, sem compromisso de produção, feita pelo governo Lula, começou no mandato do próprio. Mais alguns meses, e os demagogos de plantão vão ver o povo sentir que a “distribuição de renda através das bolsas”, como gosta de dizer a propaganda oficial, é um engodo. A pressão de consumo sem produto novo anula o dinheiro doado, simplesmente porque os preços sobem. E não adianta aumentar os juros – a chuva de bolsas atira no mercado, todos os meses, uma demanda regida pela lei mais básica da economia: a da oferta e da procura. O preço sobe, com ou sem taxa de juros.
Lula recebeu o país organizado e cultivado, depois de oito anos de trabalho duro e austero. Na ânsia de colher os frutos, pisoteou a plantação, encheu a lavoura com os gafanhotos da corrupção e a praga da demagogia. Essa ânsia, somada ao seu despreparo, vai levá-lo mais longe, e não tenho receio algum que o que vou escrever não vá acontecer: ele acaba de declarar, enfático como em todas as vezes que fala bobagens fora do país, que não dá teco nem piteco no controle econômico. Vai se desdizer logo, logo, quando a alta do custo de vida reduzir-lhe a popularidade a níveis alarmantes - porque a única coisa que altera, no Brasil, a apreciação positiva de qualquer governante é a carestia de vida, a alta de preços. Ele poderá até tentar – como fizeram e fazem seus pares, governantes sem solução e, portanto, sem saída – jogar a população contra o empresariado. Poderá tentar tabelamento, racionamento, tudo o que já se experimentou contra a inflação. Nada disso resolverá, porque a raiz do problema está no cerne da sua política social. Dinheiro a fundo perdido para você gastar como quiser – sem nem querer saber de onde vem o feijão ou o radinho de pilha.
E este é só o primeiro efeito dessa política. O segundo virá logo, logo: a pressão pelo aumento do valor das bolsas, vinculadas ao salário mínimo, visto que parte do poder aquisitivo está comprometido. O terceiro é o aumento da carga fiscal, para sustentar o poço sem fundo. É a seqüência do kit sem-vergonhice que circula na internet...
O “partido que sabe governar” – cujos governos, aliás, registraram as mais altas taxas de inflação da História do Brasil – está nervoso. O poder vermelho está raivoso. A trombada com a realidade é dura: dinheiro fácil, diz o ditado, facilmente acaba.
Nossa sorte é que o Brasil é mais vigoroso que qualquer governo.
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sexta-feira, 18 de abril de 2008
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
O gosto das algas
Desculpem-me os amigos pela ausência prolongada. Tentarei retomar o ritmo, a partir de agora, duas ou três vezes por semana.
Muitas coisas aconteceram nesse período – até mesmo o reconhecimento de que o custo de vida está subindo depressa demais, tema de meu último texto. Explicaram-me que o caso é sazonal. Mas não é bem assim, e os plantonistas oficiais sabem disso tão bem quanto eu.
O Brasil não produz o suficiente para seu abastecimento, e não vai ser o programa de bolsas que vai resolver isso. O dinheiro distribuído através desse programa de assistência força o consumo. Esse é o problema desse programa de distribuição de dinheiro: ele não é distribuição de renda, porque é precário, e, ele sim, sazonal. Ele não é acompanhado da produção equivalente: e, lastimo dizer, não há nenhum mecanismo estabelecido que tire o favelado da bolsa-família para o emprego, ou para a produção própria. Mas há alguns bilhões de reais forçando o consumo: o preço sobe.
É preciso fazer um pouco mais do que simplesmente dar dinheiro ou dar cursos. É preciso criar mecanismos de financiamento que não sejam essa estupidez de juros que os bancos cobram. Aí, sim, haverá uma pressão razoável, de consumo e produção simultâneos, o que se traduz em riqueza.
Além disso, há uma outra pressão sobre o preço dos alimentos: a entrada, no mercado global, da China. A China abriga um terço da população mundial. Para ter idéia do que isso significa, feche os olhos e imagine um bilhão de pares de sapato (dois bilhões de sapatos) empilhados – é o que existe na China, num dia qualquer. Duzentos gramas de arroz por pessoa (dieta de fome!) por dia, significa 6 bilhões de toneladas por mês. É tanto, que desconfio que os chineses usam o megaton (ou megatonelada) para projetar sua demanda. O Brasil produz 10 milhões de toneladas por ano.
Mas quanto ao arroz, a China é auto-suficiente. Precisa, entretanto, de carne, frango, ovos, legumes, e tudo o que puder ser comido. Não há espaço, lá, para rebanhos. A pressão é tanta, que existem fazendas do tamanho de um apartamento de luxo – 700 metros quadrados. E não são fazendas de cogumelos...
O degelo político chinês vai pressionar os preços dos alimentos no mundo todo – e os primeiros reflexos disso já se fizeram sentir. A continuar nesse ritmo, rapidamente vamos sentir saudades “dos tempos do churrasco”.
Essa situação é inapelável, vai acontecer e pronto. O que me causa espécie é que nenhuma autoridade se prepara para isso, ou pelo menos avisa o que vai acontecer; todos se apressam em dizer que o aumento é temporário, sazonal. E fica-se plantando cana para fazer álcool, e cantando loas para a cana, quando o mundo está prestes a voltar à época dos primatas, caçando comida dia e noite.
Alguns talvez digam que estou na contramão do processo de desenvolvimento. Mas o futuro, embora a Deus pertença, não mostra outros cenários. Ainda temos os oceanos para explorar, mas o gosto das algas é de lascar!
Muitas coisas aconteceram nesse período – até mesmo o reconhecimento de que o custo de vida está subindo depressa demais, tema de meu último texto. Explicaram-me que o caso é sazonal. Mas não é bem assim, e os plantonistas oficiais sabem disso tão bem quanto eu.
O Brasil não produz o suficiente para seu abastecimento, e não vai ser o programa de bolsas que vai resolver isso. O dinheiro distribuído através desse programa de assistência força o consumo. Esse é o problema desse programa de distribuição de dinheiro: ele não é distribuição de renda, porque é precário, e, ele sim, sazonal. Ele não é acompanhado da produção equivalente: e, lastimo dizer, não há nenhum mecanismo estabelecido que tire o favelado da bolsa-família para o emprego, ou para a produção própria. Mas há alguns bilhões de reais forçando o consumo: o preço sobe.
É preciso fazer um pouco mais do que simplesmente dar dinheiro ou dar cursos. É preciso criar mecanismos de financiamento que não sejam essa estupidez de juros que os bancos cobram. Aí, sim, haverá uma pressão razoável, de consumo e produção simultâneos, o que se traduz em riqueza.
Além disso, há uma outra pressão sobre o preço dos alimentos: a entrada, no mercado global, da China. A China abriga um terço da população mundial. Para ter idéia do que isso significa, feche os olhos e imagine um bilhão de pares de sapato (dois bilhões de sapatos) empilhados – é o que existe na China, num dia qualquer. Duzentos gramas de arroz por pessoa (dieta de fome!) por dia, significa 6 bilhões de toneladas por mês. É tanto, que desconfio que os chineses usam o megaton (ou megatonelada) para projetar sua demanda. O Brasil produz 10 milhões de toneladas por ano.
Mas quanto ao arroz, a China é auto-suficiente. Precisa, entretanto, de carne, frango, ovos, legumes, e tudo o que puder ser comido. Não há espaço, lá, para rebanhos. A pressão é tanta, que existem fazendas do tamanho de um apartamento de luxo – 700 metros quadrados. E não são fazendas de cogumelos...
O degelo político chinês vai pressionar os preços dos alimentos no mundo todo – e os primeiros reflexos disso já se fizeram sentir. A continuar nesse ritmo, rapidamente vamos sentir saudades “dos tempos do churrasco”.
Essa situação é inapelável, vai acontecer e pronto. O que me causa espécie é que nenhuma autoridade se prepara para isso, ou pelo menos avisa o que vai acontecer; todos se apressam em dizer que o aumento é temporário, sazonal. E fica-se plantando cana para fazer álcool, e cantando loas para a cana, quando o mundo está prestes a voltar à época dos primatas, caçando comida dia e noite.
Alguns talvez digam que estou na contramão do processo de desenvolvimento. Mas o futuro, embora a Deus pertença, não mostra outros cenários. Ainda temos os oceanos para explorar, mas o gosto das algas é de lascar!
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Alguma coisa está errada
Há um infalível indicador inflacionário, conhecido de toda dona de casa: quando fica cada vez mais freqüente ter que desistir de um ou outro produto porque o dinheiro não chegou é porque o custo de vida subiu.
Cartões de crédito costumam mascarar isso, a não ser quando falta o crédito. Mas o controle do cartão de crédito pode possibilitar coisas interessantes – como saber porque a desistência de um ou outro produto fica mais freqüente, ou porque a conta não para de subir.
Afirma-se que a inflação está baixa, sob controle. As contas do meu supermercado dizem o contrário. Fui tirar a teima nos cupons fiscais – a nota do supermercado – e fiz uma comparação, nada de muito profundo, mas de uma lista de 17 produtos que compro habitualmente. São 17 produtos da mesma marca e comprados no mesmo supermercado, em dezembro do ano passado e neste mês de agosto.
Fiz a comparação considerando apenas o preço unitário – quilo, lata, frasco – sem levar em conta as quantidades. E eis o resultado:
Dos 17 produtos, somente um – o sabão em pó – manteve o mesmo preço. Seis tiveram o preço reduzido: esponja de aço (-5,58%), berinjela (-11,6%), couve-flor (-17%), xarope de guaraná (-22,16%), óleo de soja (-12,7%) e feijão preto (-9,7%). Dez tiveram preços aumentados, e alguns, aumentados de forma astronômica:
- detergente líquido: passou de 0,92 para 0,95 – aumento de 3,26%; é o único aumento abaixo de dois dígitos da lista.
- tomate: subiu de 2,19 para 1,64 – aumento de 20,54%.
- ovos, dúzia: de 2,49 para 3,10, teve um aumento de 24,5%.
- contrafilé: passou de 6,8 para 9,4, ou seja, o preço subiu 38,24%.
- queijo ralado: o preço era de 1,64 o pacotinho, agora é de 2,34 – 42,67% a mais.
- café solúvel: de 1,99 o pacote, para 2,85, com incremento no preço de 43,21%.
- leite condensado: o preço da lata estava em dezembro, 1,57; agora, é de 2,93 – 86,6%.
- leite tipo longa vida: de 1,44 para 2,69 cada litro – aumento de 86,8%.
- cebola: dobrou de preço. O quilo passou de 1,05 para 2,10. 100%de aumento!
E a campeã: batata lavada, com incremento de 152,6% - o preço subiu de 0,95 para 1,45.
O conjunto de 17 produtos apresentou um aumento médio de 16,38% no intervalo de oito meses – o que, convenhamos, é muito mais do que está sendo apresentado nos números oficiais de medição de custo de vida, seja com que sigla for.
Aviso de antemão que isto não é um estudo científico, nem tampouco uma medida econômica: trata-se tão somente de constatar porque o bolso está doendo, se não houve alteração no padrão de consumo. Também explico que os 17 produtos foram aleatórios: eram os que coincidiam nas notas de compras guardadas.
Vários destes produtos, porém, estão nas cestas de compras de todas as pessoas – particularmente aqueles que mais aumentaram, ou seja, o leite, a cebola e a batata. E ninguém me diga que se trata de entressafra – essa desculpa já cansou.
Sugiro às minhas leitoras que façam, também, suas comparações. Porque, pelo jeito, este segundo semestre vai ser de contingenciamentos domésticos...
Cartões de crédito costumam mascarar isso, a não ser quando falta o crédito. Mas o controle do cartão de crédito pode possibilitar coisas interessantes – como saber porque a desistência de um ou outro produto fica mais freqüente, ou porque a conta não para de subir.
Afirma-se que a inflação está baixa, sob controle. As contas do meu supermercado dizem o contrário. Fui tirar a teima nos cupons fiscais – a nota do supermercado – e fiz uma comparação, nada de muito profundo, mas de uma lista de 17 produtos que compro habitualmente. São 17 produtos da mesma marca e comprados no mesmo supermercado, em dezembro do ano passado e neste mês de agosto.
Fiz a comparação considerando apenas o preço unitário – quilo, lata, frasco – sem levar em conta as quantidades. E eis o resultado:
Dos 17 produtos, somente um – o sabão em pó – manteve o mesmo preço. Seis tiveram o preço reduzido: esponja de aço (-5,58%), berinjela (-11,6%), couve-flor (-17%), xarope de guaraná (-22,16%), óleo de soja (-12,7%) e feijão preto (-9,7%). Dez tiveram preços aumentados, e alguns, aumentados de forma astronômica:
- detergente líquido: passou de 0,92 para 0,95 – aumento de 3,26%; é o único aumento abaixo de dois dígitos da lista.
- tomate: subiu de 2,19 para 1,64 – aumento de 20,54%.
- ovos, dúzia: de 2,49 para 3,10, teve um aumento de 24,5%.
- contrafilé: passou de 6,8 para 9,4, ou seja, o preço subiu 38,24%.
- queijo ralado: o preço era de 1,64 o pacotinho, agora é de 2,34 – 42,67% a mais.
- café solúvel: de 1,99 o pacote, para 2,85, com incremento no preço de 43,21%.
- leite condensado: o preço da lata estava em dezembro, 1,57; agora, é de 2,93 – 86,6%.
- leite tipo longa vida: de 1,44 para 2,69 cada litro – aumento de 86,8%.
- cebola: dobrou de preço. O quilo passou de 1,05 para 2,10. 100%de aumento!
E a campeã: batata lavada, com incremento de 152,6% - o preço subiu de 0,95 para 1,45.
O conjunto de 17 produtos apresentou um aumento médio de 16,38% no intervalo de oito meses – o que, convenhamos, é muito mais do que está sendo apresentado nos números oficiais de medição de custo de vida, seja com que sigla for.
Aviso de antemão que isto não é um estudo científico, nem tampouco uma medida econômica: trata-se tão somente de constatar porque o bolso está doendo, se não houve alteração no padrão de consumo. Também explico que os 17 produtos foram aleatórios: eram os que coincidiam nas notas de compras guardadas.
Vários destes produtos, porém, estão nas cestas de compras de todas as pessoas – particularmente aqueles que mais aumentaram, ou seja, o leite, a cebola e a batata. E ninguém me diga que se trata de entressafra – essa desculpa já cansou.
Sugiro às minhas leitoras que façam, também, suas comparações. Porque, pelo jeito, este segundo semestre vai ser de contingenciamentos domésticos...
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