terça-feira, 9 de outubro de 2007

Civilidade india(na)

Na esquina da minha rua, há uma sorveteria que se apresenta chique. De fato, é toda envidraçada, dispõe de bancos e palmeiras em vasos, mesinhas de alumínio e funcionários uniformizados e usando luvas. No entanto, pelo menos uma vez por semana transforma a calçada em lavanderia: põe tudo para fora e liga as mangueiras. Inunda a calçada e o pedestre que se vire.

A uma quadra, uma farmácia convive com uma calçada mal traçada e uma vala malcheirosa eternamente transbordante. A farmácia é bonita, tem portas automáticas e mantém uma elegante vitrine. Mas seu dono não se preocupou com os saltos que as pessoas devem fazer sobre o lodo, para chegar lá. Azar do cliente.

Na minha quadra, e na quadra a seguir, é extremamente comum que, principalmente aos sábados, homens em short e sandália ocupem as calçadas com baldes, mangueiras e sabão para lavar os respectivos carros. Geralmente colocam os carros atravessados na calçada; e, como fazem uma sujeira exemplar, ninguém passa. O pior é que eles acreditam estar sendo modernos e atualizados, porque vêem no cinema esse tipo de atividade sabatina. Só esquecem que ninguém faz isso na rua, mas no seu pátio.

A mesma coisa se faz na calçada de um edifício de luxo, cujo condomínio deve custar perto de dois mil reais mensais. Os carrões são lavados na calçada. Azar dos passantes e do piso de pedras portuguesas.

A umas cinco quadras, em outra direção, uma grande placa anuncia frango assado. O sujeito ocupou uma esquina inteira. Meteu ali seu forno, seus espetos, uma barraquinha auxiliar com uma imunda tábua de corte, onde prepara as aves. São frangos especiais: temperados com o diesel queimado dos escapamentos dos ônibus, devem ter um sabor peculiar. Mas a questão é o pedestre: bem, ele, que se esprema entre a parede e o forno para passar, ou desça o meio-fio e encare os carros.

No entorno do shopping Iguatemi, o espetáculo é deprimente. Os passageiros de ônibus são obrigados a ficar no asfalto: já não há calçadas para os pedestres, o meio-fio está totalmente ocupado por camelôs e a sujeira que geram. Para passar, o transeunte tem que enfrentar um verdadeiro corredor polonês. E como tudo e qualquer coisa podem acontecer ali, se não quiser riscos, terá que atravessar a rua. O trânsito não permite caminhar no acostamento.

A lista, como vêem, é variada: ricos e pobres se misturam na absoluta falta de consciência urbana. As calçadas, por aqui, ainda são consideradas quintais, lixões, tudo, menos lugar onde as pessoas transitam e se encontram, menos lugares de convivência pública. Ricos e pobres se servem da cidade como se fosse um local de despejo. Depois reclamam das condições de moradia.

Por seu turno, a Prefeitura segue o ritmo da maioria: tenta, não dá certo, desiste. Cinco prefeitos já tentaram tirar os camelôs do entorno do shopping, e não conseguiram. Quanto ao resto, nunca vi nenhuma ação nos últimos vinte anos.

Um comentário:

Adelina disse...

Cara Ana,

que alívio - ainda que com dor - ler seu post.

Usuária de ônibus, paradora dos meio-fios à espera do "coletivo", sinto-me diariamente ameaçada de asassinato pelos ônnibus, taxis, motos e qualquer coisa rodante.

Sem medo de errar digo que nossa cidade é a campeã em apropriação do espaço público pelos interesses e pela falta de civilidade privados.

Que Nossa Senhora de Nazaré tenha peidade de nós e que nós tenhamos coragem de procurar, encontrar e eleger políticos capazes de enfrentar a barbárie.

Bom Círio.

Abraço