segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Carro zero em 80 meses

Os comerciantes dizem que o que interessa para os pobres é a prestação caber no bolso, não o valor dos juros pagos. Por isso, os fianciamentos de longo prazo, caríssimos, são bem sucedidos nesta categoria, porque, totalmente dependente de crédito, paga em dia.

Eu tenho algumas desconfianças desta tese, apesar das demonstrações sucessivas de que ela dá certo nos negócios – o Banco Real até chamou isso de “participação social”, que cínico! – e volto a pensar que o problema maior está na comprovação de renda.

Explico: existe uma multidão de pessoas com um pé no mercado formal e outro no informal, e essa multidão talvez constitua quase toda a chamada classe C; ela engloba ainda boa parte dos profissionais liberais das assim chamadas classes A e B. Uma renda fixa (o pé no mercado formal) e outra variável, sem comprovação alguma (o pé no mercado informal). Não é possível ao cidadão nessa condição demonstrar para uma financiadora que ganha cinco vezes mais do que o seu fixo, graças às empadinhas ou aos contratos (incluindo consultas) sem recibo. Para essa multidão, as opções são, basicamente, duas: ou junta dinheiro e paga à vista, ou vai para o crédito de longo prazo, na comprovação da renda fixa. Há uma terceira opção, que as operadoras de cartão de crédito já perceberam, mas ainda não conseguiram usar todas as possibilidades: o crédito no cartão, concedido pelo volume de gastos feitos pelo cidadão, e ninguém quer saber onde ele arranja dinheiro para pagar.

A renda informal tem muitas vantagens sobre a formal, dado o sistema tributário extremamente injusto e à morosidade da justiça, a que somos todos submetidos. Da renda informal não se paga imposto (o governo retira hoje metade dos ganhos de quem trabalha no mercado formal, em tributos e taxas), não se paga pensão de ex, não se sofre nem se faz cobrança jurídica (a cobrança é no tapa, e às vezes no tiro, mesmo). De desvantagem, tem o fato de ser precária, ou seja: pode cessar, oscilar bruscamente ou se interromper de vez em quando, e não permitir ascensão social – para mudar de patamar social, o cidadão terá que formalizar sua renda, porque a alteração continuada do padrão de vida não será possível sem raízes.

Por tudo isso é que desconfio que, ao expandir os financiamentos de carro para categoria C, no longuíssimo prazo, as financiadoras estão apenas identificando uma renda informal, por detrás da renda formalizada, porque carro não é só o custo original da compra: são impostos anuais, taxas diversas e, sobretudo, custos de combustível e manutenção. Um ou outro irresponsável compraria um carro sem condições de mantê-lo; a maioria, entretanto, não faz isso. Se compra, é para ter e manter. Porque pode.

Por essa e outras razões é que creio que o país seria bem melhor e menos violento se o sistema tributário fosse mais justo, e o Estado, em seus diversos níveis, menos voraz. A redução de impostos é essencial para que as pessoas não tenham que esconder seus ganhos, e também essencial para que as dívidas não sejam cobradas por meios violentos.

Rejeitar a CPMF deveria ser apenas o primeiro passo no rumo da redução geral de tributos, o que todo o país deseja do fundo da alma nacional.

Um comentário:

Diego Ignacio disse...

Ana, achei excelente o seu comentário e acho que vc tem razão mesmo. Fica claro que precisamos de uma reforma tributária decente. Entretanto, no finalzinho, acabo tendo que descordar de você no que tange a CPMF. Acho que de todos os impostos que já tivemos esse era um dos mais justos. Afinal de contas, era leve (R$40,00 +- ano)e alcançava a todas as parcelas da população. Formal ou informal. Todos, trafiantes de cocaína, juizes ladrões, a tia nena da padaria, o alex do camelô, todo ser humano que respirasse e fizesse uma movimentação bancária, pagava. A inadimplência era nula e a amplitude eficaz. Mas... Contando que reformem nossa carga tributária para melhor, estarei satisfeito. Só espero que haja inovação, criatividade, genialidade, e não sistematizações mediocres de arrecadação ineficaz (tanto no receber quanto no administrar). Abraço.