quinta-feira, 19 de junho de 2008

A falência da escola

Belém foi abalada por um assassinato em sala de aula, envolvendo duas jovens. Não é fato único, nem incomum no mundo – basta lembrar algumas chacinas nos Estados Unidos, e homicídios semelhantes em outros países, mais ou menos desenvolvidos que o Brasil.

A reação das autoridades escolares tem sido chamar a polícia. Belém não fugiu à regra que tem precedentes no Rio de Janeiro e em outras capitais. Mas a polícia não pode substituir, nem esconder um fato terrível, cada vez mais claramente exposto: a total perda da autoridade escolar, a perda das rédeas disciplinares por parte do magistério.

Um ex-reitor me disse uma vez que o professor, hoje, trabalha acuado, principalmente nas classes de adolescentes e de jovens adultos. Revistas policiais são feitas dentro das escolas; e as próprias Universidades, que eram tão ciosas de sua capacidade auto-disciplinadora, hoje recorrem à polícia para resolver seus problemas com alunos.

Eu não tenho receitas nem soluções para esta situação; estou apenas constatando um fato. Muitos estudos já foram feitos para saber das causas, e algumas iniciativas têm sido tomadas para encontrar uma solução. Mas a violência varre as escolas, em graus cada vez maiores, como curto-circuitos contínuos. E esta figura, a do curto-circuito, é correta, porque as faíscas estão em todos os lugares, com diversas e variadas causas, dando a entender que é a inserção da escola na sociedade que hoje se faz de forma inadequada e deficiente. O plugue entra na tomada, mas com voltagem errada.

As escolas são depredadas com frequência; mas ninguém depreda o que lhe é útil, o que lhe serve; ninguém quebra o que ama, exceto alguns tipos de doentes mentais, e não são doentes mentais os que depredam as escolas.

Qualquer professor pode testemunhar – qualquer um, mesmo, em qualquer lugar – sobre ameaças de morte e agressões, atingindo professores, alunos, funcionários administrativos, diretores, todos os membros da comunidade escolar. Policiais militares podem contar o quanto são chamados para intervir nos ferozes choques de turmas, tribos e gangues – no pátio do recreio. Ou seja: o ambiente escolar tornou-se hostil, inóspito. Para qualquer um e para todos. O que quer dizer que o modelo passou do tempo. A escola, hierarquizada e vertical, formatadora de pessoas, está desajustada com a sociedade.

No modelo atual, milhões de jovens são impelidos para a escola em busca de um diploma. E é nisso que a escola – a maioria das Universidades, também – se transformou: numa máquina de fornecer certificados e diplomas. Pouco importa o grau de ajustamento do jovem à máquina: ele deverá passar por ela de alguma forma, e de alguma forma sair formatado. Máquinas não pensam, agem. São lubrificadas pelos cálculos econômicos, pelas relações de modelo produtivo. Dia destes vi uma relação destas numa Universidade pública: a pouca demanda para determinado curso fazia com que o custo/aluno estivesse muito acima da média. Solução: fechar o curso e aumentar as vagas de maior demanda. Não se considerava sequer a necessidade estratégica, ou o fato de ser o curso basilar para o conhecimento. Levou-se em conta somente o mercado.

A máquina escolar transformou os professores em peças, e os está desumanizando rapidamente. A presença de um professor do fundamental maior diante da turma adolescente é só de passagem. Ele esquecerá rapidamente aqueles rostos, enquanto os donos dos rostos tentarão se livrar dele o mais rápido que possam. Nessa passagem pela turma, trava-se um duelo. E todo o cuidado é pouco para que o duelo seja apenas intelectual. Volta e meia, desborda: o professor tenta ser mais rigoroso e esbarra na própria máquina. Como o que interessa é a quantidade do produto-padrão, os alunos reagem à alteração da regra do jogo e contam, para isso, com o apoio do sistema escolar. O professor tem que recuar rapidamente, para escapar de agressões e ameaças.

É preciso recriar a escola, transformar o modelo clássico para que o plugue se ligue na tomada. Para isso, há necessidade de uma vontade política, que a maior parte dos envolvidos, infelizmente, não tempo, e de competência arejada, isto é: gente que saiba imaginar, criar e sonhar. Sem modelos prévios.

Um comentário:

Bia disse...

Cara Ana,

nada a reparar, como sempre..rsrs...

Só a emoção - é, é essa a palavra -de concordar com tudo. Sem rancor. Ele não cabe no seu texto nem no meu comentário.

Rememorar a escola que acolhia, formava, apoiava e induzia à cidadania, como a escola pública que frequentei para cursar o então curso "clássico", hoje essa estranha coisa chamada ensino médio. Médio pra onde?

A escola onde íamos na primeira semana das férias de julho, para lixar e envernizar as carteiras, com o dinheiro que arrecadávamos, os alunos, na última semana de junho, com as festividades de São João. Isso era prazer. Era um tranquilo compromisso de retribuir à escola - pública, e minha - o que ela me dava.

Não esqueci até hoje os rostos dos professores. De nenhum! Uma, especialmente, transformou-se em amiga da vida inteira.

Meu filho não sabe o nome dos seus professores. E, certamente, eles também não sabem o dele.

Um abraço.