sexta-feira, 9 de julho de 2010

A devoradora de árvores

A indústria brasileira do papel trabalha, em sua quase totalidade, com árvores plantadas, e metade do papel produzido é oriundo de reciclagem. Essas florestas são de árvores com alto teor de celulose. São florestas renováveis. Mas para chegar ao papel, principalmente o papel branco, opera com produtos químicos altamente contaminantes. Caulim, por exemplo. O consumo desnecessário de papel devora árvores – e não apenas pela extração direta.

Deste endereço: http://www.comciencia.br/200411/noticias/1/papel.htm, site da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que dá notícia sobre a sustentabilidade da indústria do papel, retirei a seguinte informação:

“Segundo dados da Associação Brasileira de Papel e Celulose (Bracelpa), existem 220 empresas de celulose e papel espalhadas por 16 estados brasileiros encarregadas de produzir os cerca de 38,2 quilos de papel consumidos anualmente por habitante, somando 6,8 milhões de toneladas para o consumo interno.”

São três quilos de papel por mês por habitante – do papel higiênico aos papéis especiais de maquetes, passando por todo o papel de escritório.

Esses três quilos de papel poderiam ser reduzidos em muito se a máquina estatal brasileira se dispusesse a fazê-lo. A papelada exigida pela Justiça Eleitoral para o registro de candidaturas é um exemplo disso. Na conta simples do blog “Espaço Aberto”, haveria uma média de 30 documentos por candidato. Desses documentos, exceto a folha de identificação e a declaração de aceite da candidatura, o restante é oriundo de órgãos oficiais – todos informatizados. Considerando que serão 500 candidatos nos Estados de menor colégio eleitoral até 3.000 nos de maior colégio (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais) teremos cerca de 21 mil candidatos apresentando, cada qual, mínimo de 30 folhas de papel. Serão 420 árvores – uma floresta, plantada ou não, só para alimentar o registro de candidaturas. Boa parte disso poderia ser eliminada por simples consultas entre os sistemas informatizados dos Tribunais.

Mas não é assim que funciona, no Brasil. Pior que as candidaturas são os convênios federais. Cada convênio exige cerca de 60 documentos. Quando um Estado, ou um Município, vai receber dinheiro da União – as chamadas transferências voluntárias – tem que apresentar toda a papelada, a cada convênio. São milhares de convênios para milhares de municípios. ONGs e os Estados. Há tempos, foi criado o CAUC, no Ministério do Planejamento – um cadastro único, informatizado. A idéia era que o Estado ou Município, ou ONG, fizesse a atualização diretamente no CAUC, digamos uma vez por mês, e a certidão expedida pelo cadastro substituísse a papelada. O que aconteceu? Os Ministérios continuaram pedindo todos documentos – e mais a certidão do CAUC.

Uma vez perguntei, em Brasília, para onde ia toda a papelada dos convênios. Eu estava justo no Ministério do Meio Ambiente. Descobri então um andar inteiro repleto de papel. Que ninguém lê. Eu não consegui, entretanto, descobrir a papelada dos Tribunais de Contas, para onde vão todas as prestações de contas e as cópias dos ditos convênios. Mas constatei que alguns carroceiros – isto mesmo, carroceiros, com jegues e tudo – percorrem os Ministérios recolhendo papel.

O que quero concluir é que a burocracia brasileira, registros eleitorais inclusive, é a grande devoradora de árvores. A redução dessa carga sobre o meio ambiente parece ser uma tarefa impossível. Mas a esperança é a última que morre...

2 comentários:

HrraGrana disse...

Ana, quem sabe com a internet não damos cabo na devoradora de árvores?

É claro que é assustador mas todos nós, internautas temos esse poder: o de espalhar rapidamente pelo mundo o que nos dá na cabeça em blogs e sites e redes sociais e tudo o mais...

Cada um que ler o artigo pode enviá-lo pra uma pessoa e essa pessoa reenviar para outra, e essa outra reenviará a outras, tipo um MMN. Simples e óbvio assim.

Logo, logo o mundo inteiro literalmente estará batendo às portas dos criadores do killer of de jungles.

Celival Lobo

Jornalista disse...

É por isso que a esperança não morre, Celival.
Obrigada, Ana