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domingo, 27 de julho de 2014

O templo e o cabaré


Cena 1
(Interior de um templo. Multidão e um pastor)

Pastor: Não podemos admitir que esse antro de perdição fique maior!
Multidão: Não podemos!
Pastor: Essa enviada de Satanás destrói nossos lares e atira os homens no caminho do inferno! Todos vocês, fiéis seguidores do Senhor, lancem o nome do Cabaré na fogueira santa!
(uma chuva de pequenos pedaços de papel é atirada para o centro do templo pela multidão. Uma mulher corre rapidamente para um homem que vai atirar uma cédula de dinheiro, fala no ouvido dele, pega o dinheiro e mete discretamente no bolso do pastor, que continua falando. A multidão acompanha a prece.)
Pastor: Rezem comigo! Senhor, não permita que o Cabaré aumente de tamanho! Senhor, não permita que o Cabaré aumente de tamanho! Senhor, não permita que o Cabaré aumente de tamanho! Senhor...
(um grande ruído de trovão silencia a assembleia e ouve-se um grito de mulher)
Mulher: O Cabaré está pegando fogo! Um raio incendiou o cabaré!
(o Pastor e a multidão dão graças, abraçam-se, louvam, enquanto a mulher corre de um lado para o outro recolhendo dinheiro. Cai o pano lentamente).

Cena 2
(sala do tribunal. Juiz e escrivão. O Pastor está à direita do juiz. À esquerda uma mulher maquiada e vestida como exige a profissão de dona de um cabaré. Há ainda um escrivão, um advogado para cada parte e, ao fundo, um oficial de justiça e um policial).

Pastor: Senhor juiz, eu insisto: nossas orações não provocam raios. Só Deus, que castiga o pecado, como castigou, pode fazer isso!
Mulher (interrompendo): Se o senhor não tivesse pedido, Deus não haveria de fazer!
Juiz: Senhora, ele fala, a senhora se cala. Depois a senhora fala, ele se cala.
Mulher: Mas... (leva um cutucão do advogado na perna) Que é isso, agora? O senhor agora me chuta?
Pastor: Como posso chutar a senhora se estou do outro lado da mesa?
Juiz: Chega! Agora falo eu! (para o pastor) O senhor diz que suas orações não valem nada?
Pastor: Não é bem assim...
Juiz (irritado): Responda sim ou não! O senhor diz que suas orações não valem nada?
Pastor: Mas... (o advogado cochicha no ouvido dele)
Juiz: Sim ou não?
Pastor (murmurando): Sim.
Juiz (para a mulher): A senhora diz que as orações dele provocaram o raio que incendiou seu estabelecimento?
Mulher (com vivacidade): Sim!
Juiz (para o pastor): É verdade que depois que o cabaré pegou fogo o senhor recebeu tantas doações que está pretendendo aumentar o templo?
Pastor: Não sei o que tem a ver... (olha para o advogado que está de cara feia) Sim, senhor juiz.
Juiz (para a mulher): A senhora é religiosa?
(todos escondem um risinho. A mulher corre os olhos em volta, primeiro surpresa, depois rindo abertamente).
Mulher: Não, senhor juiz, eu...
Juiz (interrompendo): Não preciso de suas explicações. Senhor oficial de justiça!
Oficial de justiça (adiantando-se): Pronto, senhor!
Juiz: Prenda os dois, autora e réu, por mentirem em juízo! Pois onde já se viu uma profissional do sexo que não é religiosa acreditar na força das orações e um pastor, profissional da religião, descrer delas! Dois dias de cadeia, à disposição deste juízo, para aprenderem que, se brincam com Deus, com a Justiça não podem brincar!
(Os advogados começam a argumentar, o pastor e a mulher protestam e o pano cai).
Fim.

(No ano passado, em Aquiraz, no Ceará, a justiça foi requisitada para dirimir o fato: um pastor fez uma campanha de orações contra um prostíbulo que se expandia, e este foi destruído por um raio. A dona do prostíbulo processou a igreja para indenizá-la. Eu não sei em que deu o processo estranho. Mas é um episódio na medida para a pena de Ariano Suassuna. E, como ele morreu na semana passada, presto desta forma a minha homenagem a esse autor extraordinário: sigo seu exemplo em contribuir para o teatro brasileiro com este mini-esquete de duas cenas, totalmente imaginado e que, com certeza, ele escreveria muito melhor).

domingo, 6 de julho de 2014

Joaquim e a Copa


Foi o julgamento de dois juízes corruptos, que haviam injustamente condenado Susana, que marcou o início da atividade profética de Daniel – assim conta a Bíblia, numa história que estabelece a diferença entre o bom e o mau juiz, a importância da busca pela verdade dos fatos e a necessidade de questionar os poderosos.

Bons juízes fazem muita diferença. E é por isso que Joaquim Barbosa fará falta. O homem que sai de alma leve das mais altas esferas do poder deixou mais leve também a alma deste país. Embora, como explicou uma vez Mao Tse Tung (não sei se por inspiração própria, se apenas reproduzindo um mote de algum sábio chinês), sempre se dá um passo atrás depois de dois passos à frente: na hora do passo atrás tudo parece perdido, mas você de fato avançou um passo. E é assim, passo a passo, que se mudam sociedades.

Se Joaquim leu ou não a história de Susana, pouco importa: ele exerceu os princípios estabelecidos pelo profeta Daniel há mais de cinco mil anos. Princípios que o emaranhado de leis brasileiras oculta frequentemente por meio dos dribles recursais. Uma palavra não vale mais que outra, esta é a essência da mensagem da história de Susana. Há que ancorá-las em fatos. Há que entender esses fatos e descobrir a intenção oculta sob a mentira. E agir com uma única preocupação: ser justo, fazer cumprir o pacto social, expresso na lei, no regulamento ou no regimento.

É difícil, creio, fazer isso num campo de futebol. Mas se os juízes – tecnicamente chamados de árbitros, mas sempre juízes – tivessem respeitado essa preocupação e esses princípios não teríamos o show de faltas que atingiu o seu clímax na dramática lesão de Neymar. Fizessem eles cumprir a regra básica do futebol, que é o menor contato físico possível entre os jogadores, e teríamos, com certeza, jogos melhores, mais bonitos, mais criativos, porque bem menos violentos. Graças a esses maus juízes o talento é punido: os grandes atacantes ficam imobilizados pelas faltas. Como James Rodríguez, no mesmo Brasil x Colômbia. De um modo geral, os árbitros desta Copa se preocuparam com coisas que não são de sua alçada: evitar suspensões de craques para os espetáculos finais, evitar magoar as torcidas... Com isso, fizeram prevalecer a força sobre a técnica de jogo. E puniram a habilidade e o talento.

Joaquim Barbosa foi só um bom juiz. Tivéssemos mais desses e não teríamos achado tão surpreendente a sua atuação. Seria normal o exercício inaugurado pelo profeta Daniel: não se fiar, nem se intimidar, com as aparências e com o poder, seja este político ou econômico, mas procurar o justo nos limites do pacto social que é a lei. Na Copa, o que estamos vendo é a tolerância com o desrespeito ao pacto. E podemos medir que a consequência é desastrosa.


Mas, como assinalou Mao, embora Levandowisk assuma a presidência do Supremo, um dos dois passos dados à frente ficará. A alma não fica completamente leve, mas, com certeza, menos pesada.