quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Paixões: a cobiça

Leio sobre um quadro roubado, atribuído a Leonardo da Vinci, e chamado "A Virgem do Fuso". E imagino a cobiça de quem quis esse quadro, que não pode ser vendido, que não pode ser exibido, que servirá ao dono apenas para uma contemplação reservada e solitária, no estilo balzaqueano de retratar os avarentos.

Minha imaginação corre, solta, tentando entender essa ação.

Imagino uma vingança sobre a família proprietária do quadro, a partir de uma ruína provocada ou de um amor não correspondido – e concluo que isto está mais para novela das oito que para a vida real.

Imagino uma dívida de jogo, milionária, em que o quadro é o preço para evitar a morte, a desonra e a miséria. Esta história seria do gosto de Alexandre Dumas, com personagens setecentistas, jamais com pessoas do século XXI.

Imagino uma aposta, ao estilo de Maurice Leblanc: simplesmente porque é quase impossível tocar no quadro, e vale um diamante de pura água tirar o quadro de lá. Depois, o quadro resgataria uma escrava branca ou uma noiva sem dote. Romantismo dos anos 20, essa história, é o que é.

Imagino o duque, dono do quadro, deprimido e definhando até à morte porque amava o quadro por ter crescido à sombra dele, e não pelo que valia. Mas o duque era escocês, e é difícil imaginar-se um escocês romântico.

Todas as minhas histórias se quebram diante da realidade, e a realidade é um homem dominado pela paixão da cobiça, obcecado pelo desejo de ter este quadro, levado ao roubo, descendo degrau por degrau a indignidade para alcançar seu objetivo. Para vender a um outro apaixonado doentio? Simplesmente para ter? Não sei, e isso não é importante: o importante é constatação de uma paixão, inexplicável como todas, irrazoável como todas, dominadora e fatal.

Vejo a foto do quadro para tentar entender, mas não encontro nada que seja especialmente fascinante: a composição, a expressão, a beleza são o que se poderia esperar de um Da Vinci, não mais. Há, claro, o irrazoável de um fuso nas mãos de um bebê. Mas todos os quadros de Da Vinci têm algo de inesperado dentro da harmonia – o toque de gênio, talvez, que o distingue até hoje. Não seria esse o detalhe que levaria à cobiça, ou seria?

Sobra a paixão. Algo que não se explica, apenas acontece. E arrasta as pessoas para o céu ou para o inferno, ou para os dois ao mesmo tempo, sem que ninguém possa ajudá-las ou sequer compreendê-las.

Um comentário:

Marcelo disse...

O Duque deprimido, foi excelente e realmente seria outro apaixonado que por perder o quadro foi parar no inferno.
Olhe que adorei esse texto seu.
Abração.